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mercoledì 20 luglio 2016

Cor

Meus espíritos larvais são marionetes
do fio da meada.
O fio? É uma cor, a cor uterina das luzes do corredor com armários
que ficava acesa nos dias de chuva
quando minha mãe dobrava as roupas.

Acendo ela ao meio-dia, meio-dia de sol.
O mundo ensolarado não é meu útero
e nem minha tumba porque eu desisti
de sua cor.
Prefiro com as luzes do corredor com armários
que arrancam do que acontece a cor,
a cor da meada.

domenica 3 luglio 2016

Lembrança do facebook

A escrita do mundo é em um entulho de pedaços de papel rasgado. Mas os garranchos acumulados e o relevo das palavras escritas umas sobre as outras dão a cada pedaço de papel uma marca d'água.

de 3 de julho de 2013

giovedì 30 giugno 2016

Toda a trama subreptícia de quem vive na floresta

Não é a ruga, o viço ou a lisura da árvore
que atrai a trepadeira.
É o cheiro.
A essência do lado de fora.

Tradução

Mudo mundo =(trad)
Wordly world

sabato 4 giugno 2016

Sobre o golpe


1.
Tristes tempos de golpe em uma terra de golpes.
Neste país em que os Guarani algum dia formaram uma sociedade que perseguia com determinação qualquer forma de instituição estatal, agora são todas as instituições estatais que perseguem as sociedades. As sociedades de pessoas, as associações de pessoas com plantas, as associações de animais, as aldeias, os quilombos, as comunidades, as redes de computadores e muitas outras estão as voltas com essa perseguição. Perseguição de controle, perseguição de morte. E aqui mesmo por essas terras por onde andavam os Guaranis - ficar parado atrai os estados de Estado - as instituições estatais se proliferam. Elas se espalham como uma praga descontrolada: os três poderes deles se capilarizando em muitos guardas da esquina que ocupam os vãos onde crescia grama, a mídia cobrindo os passos de quem se move no Estado das coisas, os aparelhos ideológicos do Estado cada dia mais ideológicos em favor dele e cada dia mais aparelhados e mais parecidos com os dispositivos plug-and-play, os aparelhos repressivos do Estado que tem cada vez mais não apenas o monopólio da violência de direito mas também de fato já que armas do Estado são cada dia mais potentes, exclusivas e rápidas que todas as armas que podem conseguir os que operam para dissolvê-los. E ao seu lado, o mercado provendo a maior parte da comunicação entre as pessoas. Ao seu lado, em um tango estrutural, em um bolero estruturante, em uma relação de predação mútua que dá as cartas no campinho. Uma mão lava a outra. E assim marcham pelos golpes afora sobre a terra arrasada. Não foi diferente dessa vez.
Os Guarani, mais uma vez, perdem e sua suspeita dos Estados que fazem tudo para serem os únicos fica ainda mais dizimada. A espera de ser ressuscitada quando a vulnerabilidade não for sinal de rendição.

2.
Na estação do golpe, aqui mesmo em Brasília, ao lado dos três poderes que são tantos, a estação das mixiricas é abundante. Parece uma espécie de compensação cósmica para tanta tristeza - ninguém melhor que as tangerinas sabem amortizar e prover as pequenas alegrias. Ou talvez seja como o que se passa com uma mangueira ferida, ou com a terra cheia de radioatividade em Chernobyl: ela se torna mais frutífera, ela se concentra em dar frutos nas condições adversas. As mixiricas, melhores amigas das pessoas, percebem que suas bocas ficaram amargas, insólitas, sem saber como degustar e por isso mesmo intangíveis. E encheram suas árvores de frutas e o ar com o cheiro de tangerina.
O cheiro de tangerina simultâneo ao golpe. Simultâneo ao cheiro do arbítrio. Há mais de duas semanas de estado de exceção não declarado, já não há mais dúvidas do diagnóstico e, ainda assim e por isso mesmo, o supremo tribunal tem seus membros visitando o caudilho em sua casa - como acontecia na Espanha de Franco. E por muitas estações, a Espanha de Franco deu laranjas, tangerinas, bergamotas em pencas pelas ruas. Nada incrimina as mixiricas que, mais certo que tudo, tem seu próprio tempo. Quem não tem seu próprio tempo é o funcionário Gilmar Mendes que se ocupa de passar o fim de semana agendando uma visita ao caudilho.
E a mídia informa que o golpe foi arquitetado com afinco pelos funcionários do Estado e do Mercado, os de sempre. Conta como eles conversavam, como eles conspiravam, como eles montavam o bote. A conspiração não é crime no país. A mídia pode contar porque ela não diz que ruim ou que é criminoso - e que pode ser criminoso ainda que não haja crime.
As ilações e os nexos, aquilo que move a invenção da justiça, eles mesmos estão tomados pelo golpe.

3.
O golpe não é nada de sui generis na história do país e do continente. Sempre os mesmos atores, sempre as mesmas agendas - aquelas do mercado, da condição de bantustão do capitalismo mundial que as Américas não americanas precisam permanecer. Não é só parte da conspiração contra a Venezuela e nem só da campanha do Grupo Macri para colocar a própria corporação no poder na Argentina. É parte de uma disputa secular entre o capital que quer bater na mesa e alguma outra força que quer se exprimir mesmo sem ser rica. O cspital, claro, não se importa em ser fraco, desde que não seja pobre. E assim aparece o ministério: homens, brancos, com elos fortes com o capital mundial, subvencionados pelos fundos de submissão do continente e - importante e por tudo isso - ricos. O golpe dos ricos. E os ricos do capital não são aqueles que esbanjam em banquetes abertos a todos, mas aqueles que contam seus centavos para que se multipliquem.
Dizem que de 10 em 10 anos, ou de 12 em 12, há uma intervenção mais violenta do capital na América Latina para garantir que as dívidas vão continuar aumentando, que mais acumulação primitiva vai estar disponível, que as empresas sejam propriedade internacional etc. Trata-se de construir um bloco histórico com políticos, endinheirados locais, a mídia e os magistrados que sempre se mantêm em amor dedicado às causas da sua própria classe social. Ou seja, de tempos em tempos precisam de um golpe. E seus porta-vozes dirão sempre que golpes assim são democráticos. Para isso, é bom que quando der, eles possam ser absorvidos pelo ritual democrático. Para ver esses golpes de vista, as vezes é preciso enxergar que não há democracia no ritual democrático.

4.
A cada dia uma guerra de nervos. Nervos desaforados. Ver o golpe como um golpe - e como um golpe do capital - torna os dias sombrios. Me sinto minguado. Para que então qualquer trabalho - mesmo aqueles que ninguém registra - se o capital compra tribunais, televisões, pílulas, ideias, campos de árvores de mixiricas e molho de passas? Parece que somos lembrados de um cabresto que está por perto, que somos lembrados que estamos na mira de um punhal, e a qualquer momento um golpe pode vir pelas costas. Os golpes tem essa finalidade, o terrorismo do capital. Somos sociedades podadas, que não criam nada porque tem medo da força tonitruante do dinheiro que vem de fora.
Durante o golpe - e esse golpe se arrasta e melhor que se arraste já que não posso ver ele consumado - entendo que estamos aterrorizados. E por isso estamos em perigo. Tomar uma sociedade de assalto é cada vez mais fácil: basta tomar suas rédeas.
E os Guarani massacrados, logo eles, foram substituídos por uma sociedade com rédeas.


giovedì 26 maggio 2016

A ars poética do comecinho

As pedras, as folhas, todas as coisas jazem no chão
- que caralho jazem?
Já os pós, as folhas, todas as coisas voam no céu
- que boceta voam?
Na sala fechada da noite
com a lâmpada estromboscópica intermitente
os que vieram a ser homens,
os que voltaram de ser mulheres
dançam, dançam, dançam.
Ali na esquina, com umas luzes de neon,
com um leão de chácara que guarda a porta
- que merda guarda?

Dando voltas em torno da esquina da boate
não procuro as palavras
fico com as que já estão aqui
para serem ditas - que coisa dizem?
Talvez não procurar seja ser procurado.
Fecho e abro uma portinha de plástico
no parque de plástico; nem procurar
e nem ser procurado.

Sem as palavras procuradas, as piruetas
solitárias,
há só os nexos inexoráveis?
Ainda não é noite e nem a manhã começou.
Mas vejo um vagalume sem mágoa.


mercoledì 18 maggio 2016

Duas mortes: texto

1. Como viver? Como deixar viver? Como deixar de viver?
Samuel Beckett escreveu uns versos sobre todo o alarido com a vida, a morte e outras dores de meia pataca.
O alarido é político.
As dores de meia pataca giram em torno da sobrevivência. Nada importa mais à qualquer política do que a sobrevivência – quem sobrevive, quando sobrevive, por quanto tempo sobrevive. Mesmo que a sobrevivência valha meia pataca.

2. O conflito da política é como viver, ou como sobreviver.
Como viver é também como morrer.
E os conflitos são também sobre como morrer.
Como, quem e o que fica fora da vida.

3. Há a morte médica, a morte que é consequência das contingências dos órgãos dos corpos, um desaparecimento (a palavra de Heidegger sobre quem foi para a câmara de gás e não morreu, apenas foi matado). E há a morte do suicida que explode em Dizengoff. A segunda morte é a morte de alguém, algo como o fim de um ser-para-a-morte, algo como um ente que se expressa, que se faz se desfazendo. 

4. Tenho o medo de que se eu explodir alguma instituição ignóbil - mesmo que eu morra - as mortes causadas não vão mais ser do segundo tipo, vão ser médicas. Ou seja, as pessoas não vão morrer, vão simplesmente desaparecer (a palavra de Heidegger sobre quem foi para a câmara de gás e não morreu, apenas foi matado). A morte física de uma personagem política é médica, mesmo se ela for assassinada. Vão dizer: "vítima de um ensandecimento, vítima de uma violência nociva, vítima de uma vontade torta" como quem diz "vítima de um aneurisma, vítima de um câncer, vítima de uma embolia". Ninguém mais pode ser agente de uma morte, nem o assassino de seu corpo assassinado, nem o suicida de seu corpo suicidado, nem o doente terminal de seu corpo terminal. O homem que ateou fogo ao próprio corpo na frente do palácio do Planalto um mês antes do golpe foi levado para o hospital. Talvez curado. Medicalizado.
Leminski estava certo: antigamente é que se morria, agora sim a vida é crônica.
Ou seja, não vão deixar que a morte seja política. Há a medicina como um aparador de arestas entre o protocolo institucional e a pura violência. 

5. Há os fatos do mundo – há os fatos médicos, por exemplo. E há uma crença de que são os fatos que vão nos redimir.
Um Fatismo.
Pesquisas fatistas, tratados fatistas, tudo o que é natural, humano ou não, é apresentados como casos de fatismo. Ao final e em última instância, tudo são fatos.
Mas é claro que a grama cresce entre os fatos.

6. É uma vontade de heroísmo? De heroísmo proscrito porque a morte não pode ser mais nossa? É uma vontade de mudar as cláusulas do contrato, ao invés de só poder sair dele. Diante do rompimento do contrato social (pelas invasões, pelas propinas, pelas chacinas, pelos genocídios, pelos golpes), só há uma coisa a fazer, voltar ao estado de natureza?
Querer outra morte é querer que se possa sair do contrato social por algum meio que não seja o do desaparecimento (a palavra de Heidegger sobre quem foi para a câmara de gás e não morreu, apenas foi matado).
Mudar as cláusulas de um contrato é um avesso do fatismo. Renegociar. Mudar a fita métrica, a balança, o medidor.

7. Ou qual é o nome do projeto político anunciado pelo diagnóstico de Heidegger que encontra no Lager verenden mas não sterben?
O corpo é aquilo que é matável.
E assim se encontram duas mortes: a morte pessoal, política, extensão ou término da vida de um corpo com suas experiências e a morte médica, desprovida de qualquer conteúdo para além da impessoalidade de uma condição, de um agenciamento patológico. Órgãos prontos para o corpo ou corpos a serviço dos seus órgãos.
Como caso médico, a morte fica dissociada de toda experiência corporal da vida - e empurrada em direção a uma experiência orgânica, organísmica, organizacional da vida. Fica instituída a morte inócua. É essa morte, que a torna irrelevante à vida.
E torna o corpo irrelevante à experiência. Transforma o corpo que é recurso para toda invenção em funcionário.
E entramos em um regime de sobrevivência em que só importa quem está vivo.
Todo o resto fica cirúrgicamente desaparecido.

8. E é talvez por isso que o golpe de estado já não tenha mais a forma militar onde são engajadas a ameaça da morte (da morte inventada, épica, feita de delírio, feita de desejo mais forte que a vontade de viver). O golpe passa a querer usar a forma da lei estabelecida; a forma da sobrevivência.
Resta-lhe usar a lei para ser fora da lei.  E fazer parecer que tudo está como antes – a divisa dos que escolheram sobreviver.

giovedì 5 maggio 2016

As duas mortes (abstrato do ato)


Qual é o nome do projeto político anunciado pelo diagnóstico de Heidegger que encontra no Lager verenden mas não sterben? Trata-se decerto da matabilidade - mas essa noção mesma pode ser ampla o suficiente para estender a dicotomia a dois corpos e, assim, a duas experiências corporais já que o corpo é aquilo que é matável. E assim se encontram duas mortes: a morte pessoal, política, extensão ou término da vida de um corpo com suas experiências e a morte médica, desprovida de qualquer conteúdo para além da impessoalidade de uma condição, de um agenciamento patológico. No segundo caso, a morte fica dissociada de toda experiência corporal da vida - e empurrada em direção a uma experiência orgânica, organísmica, organizacional da vida. É essa segunda morte, que a torna irrelevante à vida (Antigamente é que se morria... diz um verso do Leminski), que parece estar associada a uma sociedade de controle, ou a uma sociedade do cansaço. Precisamente porque a contraposição entre vida e morte se torna a-política, irrelevante à disputa entre as formas de vida, é que entramos em um regime biopolítico em que apenas importa quem está vivo - todo o resto fica apenas medicamente desaparecido. E é talvez por isso que o golpe de estado já não tenha mais a forma militar onde são engajadas a ameaça da morte (heróica). O golpe passa a querer usar a forma da lei estabelecida - e assim quer usar a lei para ser fora da lei.

Este ato vai procurar investigar algumas dessas consequências (para a vida política) da instituição de uma morte inócua.

sabato 30 aprile 2016

esses dias

Via Camille Desmoulins:
"Il n’y a pas un moment à perdre. J’arrive de l'Explanada. Mme. Dilma est en train d'être renvoyée ; ce renvoi est le tocsin d’une Saint Barthélémy des ouvriers, des périphéries, des patriotes. Ce soir même, tous les bataillons de Temer et Cunha seront la pour nous égorger. Il ne nous reste qu’une ressource, c’est de courir aux armes et de prendre des cocardes pour nous reconnaître".

venerdì 22 aprile 2016

Trechos de uma Haggadah da Hospitalidade

Em um trecho do início do último livro de Jabès, "O Livro da Hospitalidade", de 1991, ele fala sobre o conflito na palestina em uma tonalidade que me interessa. Ele começa dizendo que anti-semitismo hoje signiica: acreditar que os judeus de todo mundo devem defender israel aconteça o que acontecer. E ele prossegue: o que significa dizer "aconteça o que acontecer"? Esta expressão mesma pauta toda a sua relação com Israel (e isso no início dos ano 90) e com respeito a tudo o que ocorre e que beira o intolerável. E ele se posiciona através de uma inquietude e de uma convicção: jamais uma ferida vai curar uma ferida. E ele adiciona: sei que esta palavra é frágil e que não se apoia senão sobre ela mesma. E seguem duas vozes, como as duas vozes judaicas dos encontros do Klein e do Gross Jude de Paul Celan:
Subscrever, em princípio, a política do governo do momento no estado hebreu não é reduzir, a cada vez, a imagem do país à política do momento?
E se eu penso, no meu foro íntimo, que esta política é detestável, perigosa, nefasta para este mesmo estado, devo me calar?
Me calar em nome do que?
Me calar seria de uma certa maneira aprovar, coadunar, pelo meu silêncio, com aquilo que me agride e me revolta; com o que, além do mais, é o que eu denuncio e condeno alhures.
E seria uma traição.
Uma palavra solitária não diz, em princípio, da solidão na qual ela se debate.
Mas se esta palavra é aquela que salva, palavra íntima de dor e de razão, palavra de apelo? Este apelo, privado de ecos, se ajunta àquele dos militantes lúcidos, agrupados em torno de duas palavras solares: Justiça e Paz.
Duas palavras, dependentes uma da outra, como dois batentes de uma mesma porta. Possam Israelenses e Palestinos, juntos, abrir largamente essa porta para deixar entrar o dia.
Simplifique o discurso
Limite-se ao essencial
A força é ilusão perigosa. Esquecer isso é recusar-se a olhar a realidade de frente.
A que realidade faço alusão? Àquela que dilacera um país sem esperança mas que para sobreviver precisa continuar a ter esperança.
[…]
A chance de todo diálogo está no diálogo mesmo.

giovedì 14 aprile 2016

Duas mortes (um rascunho para um ato)

A permanência de certos conflitos no mundo são testemunha de como nos colocam para viver - e para o que está antes da vida, depois da vida, ao lado da vida e fora da vida. Não por algo mais uniforme do que uma transversalidade, não por causa de alguma condição geral que tem exemplos por toda parte, e exemplos bons (ou seja, protótipos, exemplos ideais) em algumas partes. Não pela uniformidade, talvez pelo sintoma.
Assim é com o conflito entre os Israelenses - que começaram como filhos dos judeus, reconhecidos no ocidente, e que lembravam de sua Terra sem terra - e os Palestinos - que começaram surgidos do limbo da inexistência, desconhecidos fora do oriente, e que ficavam pela terra sem Terra. Um conflito sobre como se ocupar na vida - ou seja, um conflito político, o que quer dizer sobre o emprego do tempo. Ou antes, sobre a vida regrada pelas instituições e protocolos e a violência atrás de um muro, ou atrás das câmeras, ou atrás da rotina.
Mas também um conflito sobre o que morre, como morre e não somente quem morre - o que fica fora da vida. Há a morte médica, a morte que é consequência das contingências dos órgãos dos corpos, um desaparecimento (a palavra de Heidegger sobre quem foi para a câmara de gás e não morreu, apenas foi matado). E há a morte do suicida que explode em Dizengoff. A segunda morte é a morte de alguém, algo como o fim de um ser-para-a-morte, algo como um ente que se expressa, que se faz se desfazendo.
Tenho o medo de que se eu explodir alguma instituição ignóbil - mesmo que eu morra - as mortes causadas não vão mais ser do segundo tipo, vão ser do primeiro. Ou seja, as pessoas não vão morrer, vão simplesmente desaparecer (a palavra de Heidegger sobre quem foi para a câmara de gás e não morreu, apenas foi matado). A morte física de uma personagem política é médica, mesmo se ela for assassinada. Vão dizer: "vítima de um ensandecimento, vítima de uma violência nociva, vítima de uma vontade torta" como quem diz "vítima de um aneurisma, vítima de um câncer, vítima de uma embolia". Ninguém mais pode ser agente de uma morte, nem o assassino de seu corpo assassinado, nem o suicida de seu corpo suicidado, nem o doente terminal de seu corpo terminal. O homem que ateou fogo ao próprio corpo na frente do palácio presidencial foi levado para o hospital. Talvez curado. Medicalizado.
Leminski estava certo: antigamente é que se morria, agora sim a vida é crônica.
Ou seja, não vão deixar que a morte seja política. Há a medicina como um aparador de arestas entre o protocolo institucional e a pura violência.
Há os fatos do mundo - os fatos médicos, por exemplo. E há uma crença de que são os fatos que vão nos redimir. Um Fatismo. Pesquisas fatistas, tratados fatistas, natureza apresentada como um caso de fatismo. Mas a grama cresce entre os fatos.
É uma vontade de heroísmo? De heroísmo proscrito porque a morte não pode ser mais nossa? É uma vontade de mudar as cláusulas do contrato, ao invés de só poder sair dele. Diante do rompimento do contrato social (pelas invasões, pelas propinas, pelas chacinas, pelos genocídios), só há uma coisa a fazer, voltar ao estado de natureza? Querer outra morte é querer que se possa sair do contrato social por algum meio que não seja o do desaparecimento (a palavra de Heidegger sobre quem foi para a câmara de gás e não morreu, apenas foi matado).

martedì 12 aprile 2016

A polarização

Sempre tive vergonha de estar em um país que houve 1964. É certo que há vergonhas por toda parte, que a história dos vencedores é uma história de usurpações mais ou menos disfarçadas. 1964 foi das menos disfarçadas. O disfarce as vezes, é certo, é parte da crueldade. Nesse caso, ele foi rude e modesto como um cobertor curto, mas bastante cruel. 1964 foi uma usurpação, em nome de poucos, e o disfarce não era muito mais do que um apelo à ordem. É certo que o fascismo venceu e não sobrou muito mais a ser feito - mas sobrou alguma coisa. O suficiente para passarmos décadas nos convencendo de que 1964 havia passado. A cada virada de março para abril, um arrepio. E agora, tantos anos depois, isso. O arrepio todo dia. 1964 não acabou.

E tem a forma de uma polarização. Uma polarização que é magnética, convoca forças mesmo as que já nem pareciam feitas de metal. Estou polarizado. O que torna toda polarização difícil de ser exorcizada é que quem está em um pólo não consegue conceber outro. Há um slogan, inspirado na fala do Lula, que diz: este não será o país do ódio. E, eu penso, é melhor que este não seja o país odiável. Não concebo o outro pólo, não posso conceber. Odiável é um país que interrompa um governo decepcionante para atender aos apelos das corporações do petróleo. E sim, atender às corporações, e deixar gente miserável tem um nome: 1964. Eu suponho que 1964 também era um tempo de polarizações. Entre aqueles que queriam ordem - e era a igreja, os bons costumes, os zeladores das propriedades - e aqueles que preferiam que não houvesse 1964. Como hoje há aqueles que querem ordem - e chamam quem desvia de uma restrita taxonomia sexual de produtos de uma ideologia, os bons costumes, os zeladores das propriedades que pensam que o dinheiro dos bancos importa mais do que a distribuição de verba para a subsistência. Eu simplesmente não posso conceber o odiável defendido - ainda que tenha que conceber o odiável acontecido, acontecido quotidianamente em um país que parece um enorme museu que celebra o fascismo dos usurpadores de 1964.

Não consigo pensar fora da polarização. Mas dentro dela, há universos inteiros - negligenciados por uma estratégia de unificação rápida, ou por uma estratégia de unificação dialogada. Já a polarização não comporta universos. A polarização não é só de pontos de vista políticos - como isso pudesse ser separado das maneiras de viver que eu aprecio, das que eu adoto e das que eu abomino. A polarização não é só o alambrado na explanada que a torna arquibancada de torcidas onde o palco é mais uma vez os tais três poderes instituídos e tornados em estátuas - afinal de contas, os três poderes são um só, o deles. A polarização não é só moral, mas é moral. É certo, a luta de classes é moral.

Trata-se de uma indignação. Como podem os que estão do outro lado do cercado, ou dentro da câmara dos deputados votando pela destituição de um governo e da subsequente entrega do poder aos abutres que são mais abutres que todos os abutres (os abutres comezinhos, já que nem sequer são abutres) serem pensados senão como aqueles que amam incondicionalmente seu rico dinheirinho e querem ordem para protegê-lo e progresso para construir rodovias de alta precisão para sua corrida pelas batatas? Ou seja, eles são impensáveis. E estão ali, do outro lado da cerca, não apenas como inimigos, mas como perigosas ameaças. Talvez seja uma cegueira - talvez os outros mereçam alguma espécie de diálogo que eu não sei fazer. Talvez estejamos todos fora do caminho. Obcecados, ou mesmo manipulados. A indignação mereceria, neste caso, ser dissolvida, decomposta, desarmada. E no entanto eu não poderia colocar os dois pólos no mesmo pólo - eles são como os círculos polares da Terra, vistos de longe podem ser semelhantes, mas quem consegue vê-los de longe?

Tento dar um passo atrás. Claro, a polarização ela mesma interessa a alguns - o clima re-1964 interessa também. O próprio governo se beneficia disso para colocar uma multidão (ainda que ou demasiadamente amorfa ou demasiadamente organizada) a seu lado na rua. Ele se torna de esquerda pelas palavras mágicas "não vai ter golpe". Portanto, para que polarizar? Não deveríamos antes nos agrupar para fazer uma okupa no plenário da câmara e lutar pela democracia inventando uma e não gritando por uma formalidade de baixíssima intensidade? (Ou quem acha que uma assembléia presidida por quem tem negócios escusos na África que se não for negócio de lavagem de dinheiro é negócio de racismo econômico pode ser uma instância defensora de algum status quo que mereça ser defendido?) Não deveríamos estar todos do lado de fora talvez ateando fogo no próprio corpo em frente a um palácio presidencial para mostrar a inflamabilidade da carne de toda essa disputa que vai terminar de qualquer jeito beneficiando algum setor do capitalismo polimorfo? Não seria melhor inaugurar outra assembléia, outra praça de outros poderes que tivesse um pouco mais do que só um, dois ou três deles? Todas estas alternativas me atraem muito. Chega de ser refém da sinuca de bico que os governos de esquerda colocam seus simpatizantes: ou o mais ou menos (já que o ótimo é inimigo do bom) ou a catástrofe da direita (que geralmente é bem mais catastrófica do que os próprios governos mais à esquerda querem fazer acreditar). Seria bom romper com isso e gritar que a polarização já é um golpe.

Porém, não posso. Sinto os cheiro dos abutres comezinhos que não são abutres. Parece que é cheiro de petróleo, e é cheiro plastificado na forma de cartões de crédito - dinheiro que perde o cheiro. Tanto melhor se pudermos inventar alguma democracia para defender, mas enquanto isso estou na polarização, no medo, já que 1964 não acabou, já começou e ensinou que a democracia de baixa intensidade pode ser seguida de uma ditadura do de alta intensidade - ainda que as instituições (quem pode ainda olhar só para elas?) permaneçam as mesmas. Não consigo arredar o pé deste lado da polarização. Acho que só saio daqui quando esta praça não tiver mais nenhum poder - quando a geografia for outra. Enquanto isso, finco o pé no pólo mais justo.

giovedì 24 marzo 2016

Vrim

O que mais me assusta na ideia de te ter
é que a vida passa a ter dois tempos.
É certo que a vida sempre teve vários tempos presentes -
e que o tempo presente ele mesmo só é presente
se ele é endereçado ao futuro, feito para passar,
como um repetidor que deixa uma marca,
um sulco, um traço que vira nódoa.
Mas este endereçamento recebeu os teus olhos.
Eu sempre soube que tua importância era tão grande
que eu jamais poderia ver meu próprio presente
e todo o futuro que faz dele passado
apenas com os meus olhos. Seria preciso
que tudo isso fosse visto também por você.
Você futura, que eu não conheço
por mais que conheça em você presente
todas as marcas, os sulcos,
os traços do teu rosto quando nos meus braços
nós abraçamos as árvores
e você balbucia: é (ou eh!).
Mas é a você futura que eu não conheço
que eu oriento também meus passos
(e meus saltos, e meus galopes,
e meus vacilos).
E é um futuro indeterminado, como a de uma mensagem
que pode chegar a qualquer momento
já que nunca termina de chegar.
Você futura é uma multidão
da qual eu não vejo os rostos.
Uma falta de solidão avassaladora
me acompanha já que você existe.
Como se o meu presente não bastasse,
só porque é meu.
Na víscera do meu presente, os teus olhos
futuros - minha insuficiência de fato
não importa com quantas medidas
de suficiência de direito.
Que outros olhos futuros são estes?

Uma vez, de noite, no Parque Juarez, em Xalapa,
seis meses antes de você nascer eu pensei:
vou suportar estar tão pouco desacompanhado?