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martedì 27 gennaio 2015

extremofilia

Para Nurit
Tenho uma libélula
no chão da boca -
meu animalimento.

mercoledì 21 gennaio 2015

Céus, terra e erro

Ouvi uma palavra largada no chão.
Não tinha significado pronto no meu ouvido, tinha fome.
- Você faz o movimento certo, mas erra na quantidade; me dizia Jean-Pierre jogando xadrez.
É preciso ter faro, mas também ter falanges apuradas na ponta dos dedos.
Eu sou um elefante, jamais serei um concertista. Concluí.
A palavra largada no chão ressoou numa pedra e noutra pedra.
Sempre falo pedra, não falo pinça.
Mas enfio a cara em um buraco no chão, há grãos de areia.
"Vivo minha própria vida na minha própria pele."
Estava escrito.
Eu peço aos céus que me ouçam, jogando xadrez.

sabato 3 gennaio 2015

As alianças da humanidade na microbiota terrana (em forma de doxografia de um fragmento recente de Heráclito)

198. [...] Nenhum império dura porque há sempre outros começos. Não vivemos à sombra de uma arché que, como um relojoeiro perfeito, fez um princípio para acabar com todos os outros princípios – estamos em disputa. Os vermes, os vírus, as baratas e os ratos não se renderam diante da proclamação de vitória humana sobre a animália. Também nossos lapsos, nossos gestos miúdos, os arrabaldes do pensamento ainda resistem ao princípio de humanização do mundo que impomos, como um princípio, a tudo e sobretudo a quem nasce gente.

Os imperialismos dependem de alianças recônditas, algumas das quais nem sequer o poder imperial reconhece. A humanidade se associa a sua microbiota assim. Um acordo, como aqueles da polícia com os grupos mafiosos, é selado as vezes apenas quando cada lado fica sabendo o que o outro quer. As vezes nem precisa ficar sabendo. A humanidade simplesmente entrega a maior parte da carne do seu povo a ela. Ninguém comerá a carne do meu bucho, só vocês. Nós embalamos nossas remessas de nutrientes em arcas bem fechadas para que não peguem os abutres, nem comam as feras macrobióticas e nem ponham em constante movimento os elementos. Na aliança, existem os sabotadores que não enterram seus corpos, os traidores que queimam, dilaceram, engolem sua carne. Há também os vírus que matam fora além da quota. como em toda aliança há fios soltos. E ainda assim, a aliança persiste.

Ainda assim, a humanidade é agente de alguns bactérias e dos vírus e com eles domina o mundo e impõe uma velocidade e um regime alimentar. A humanização do mundo, em contrapartida, tem na microbiana seus aliados que exercem muitos papéis no ministério humano: no ministério da digestão já que são os aliados que deglutem todo não-humano que vira alimento, no ministério dos serviços ambientais, no ministério da educação já que só os aliados transformam as pessoas por contato e não por herança, no ministério da economia já que os aliados corroem os produtos brutos em produtos líquidos obrigando que haja mais investimentos e sobretudo no ministério da guerra pois são os aliados que conquistam os animais e os humanos recalcitrantes que insistem em fazer alianças na macrobiota - aqueles que não enxergam a humanidade como uma monstruosa comunidade fechada. Foram os vírus e as bactérias que conquistaram as Américas, que submeteram as populações africanas através da exportação da malária, que garantem que o poder imperial seja um híbrido de genes humanos e agentes microbióticos em postos estratégicos. A humanidade não declara guerra a toda a animalia, ela se alia a partes da microbiota terrana para submeter todo o resto.

Pasteur é quem promove a aliança, não porque fez o acordo mas, como o diabo no Faustus de Thomas Mann, é o que avisa que o acordo já foi feito. Eram eles, os micróbios, que estavam aliados conosco desde o princípio - e é a eles que nós rendemos homenagem nas arcas da aliança quando entregamos a carne dos nossos corpos lacrados à terra. Mas Pasteur também permite conhecer melhor nossos aliados: com quem podemos contar na microbiota e quem temos que tomar como inimigos. A guerra dos humanos com os terranos tem muitos ínfimos desertores que estão do lado humano há muito tempo - os humanos não poderiam chegar tão longe sem sua cavalaria.

venerdì 2 gennaio 2015

Para um compêndio de desdeuses

A senhora Sexton diz que saiu procurando deuses.
Olhou no céu, nas pirâmides, nos livros, no banheiro.
Eu digo que saí procurando a ausência deles:
- um pedaço de terra fora do alcance dos deuses,
isenta deles, deles vivos ou mortos.

O senhor Hölderlin diz que saiu lamentando os vasos sem deuses.
Para que poemas em tempos duros?
Reb Zússia de Hanipol se contentava com que Algum Deles tivesse falado.
Onde? Eu gritei.
E tranquei a porta.

mercoledì 31 dicembre 2014

O Ye Tongues (Tradução Bem Livre do Segundo Salmo, de Anne Sexton)

[Da última parte dos Death Notebooks de Sexton, em transmutação]

Porque eu rezo para que haja um Todo-Poderoso que abençoe esta sucupira preta onde todos mijam.
Porque eu rezo para que haja um Todo-Poderoso que abençoe os dálmatas que pulam como manchas no sol.
Porque eu rezo para que Bia Medeiros, a quem eu não conheço exceto por dizer bom-dia, encontre em mim com boa-vontade um simulacro do clitóris master (ou infinito).
Porque eu rezo para que as borboletas tão assassinadas quanto John F. Kennedy não reparem que eu não reparo no seu voo messiânico.
Porque eu rezo para que meu hábito de inalar oxigênio não deixe Anaxímenes encabulado.
Porque eu rezo para que uma alegria saia de uma gaveta mal-fechada e consiga espantar as moscas que ficam dando volta em volta do seu nariz.
Porque eu rezo para que meu casaco que me faz coçar encontre repouso no cabide.
Porque eu rezo para que minha filha toque as sementes das frutas com orgulho.
Porque eu rezo para que eu não me torne o carcereiro dos meus desejos.
Porque eu rezo para que meus arquivos não parem de arquivar meus pontos finais e minhas vírgulas.
Porque eu rezo para que Reginaldo Gontijo, que aparece sorrindo na foto, sorria quando ouvir seu nome falado no meio das línguas.
Porque eu rezo para que caiba mais um livro ou dois na estante.
Porque eu rezo para que minha gata entre no paraíso carregando seus olhos em uma latinha com areia.
Porque eu rezo para que eu encontre no bar da 408 a Annarquista de Cristo, o Camier e o Mercier e não o secretário-de-estado-xaxim.
Porque eu rezo para que o par do curioso de óculos redondo e a namorada de macacão jeans de alça caída observe que eu faço par com eles.
Porque eu rezo para que a comida que eu como de corpo e alma me queira gostoso.
Porque eu rezo para que a árvore-monstro da 406 solte a L2 do chão e faça ela levar a bicicletinha do Oziel para o alto-falante.
Porque eu rezo para que sejam abençoadas as esperas, mesmo as sem esperança.
Porque eu rezo para que a noite seja uma picada no mato com um caminho de volta do regato.
Porque eu rezo para que os formulários do ministério da saúde e os mosquitos da dengue encontrem um equilíbrio através de alguma mão invisível, ou pé, ou boca.
Porque eu rezo para que eu não me encolha de medo com o exílio.
Porque eu rezo para que eu não me encolha de medo com o buraco da morte.
Porque eu rezo para que Deus me digira.

lunedì 29 dicembre 2014

The intensity of pictures

I've been reading some poems of the Death Notebook of Anne Sexton.
I paused in her Hurry Up Please It's Time, named after that repeated verse in the second part of Eliot's The Waste Land. It is a verse that brings in the daily hurry through which time goes by - and how else could it pass by? Indigestion, buying bracelets, a dinner invitation on a warm day, ketchup. It is time "yet waiting to die we are the same thing".
Hurry up please it's time was the name of an Opera in a Parking Lot 5 years ago where I was a Heraclita, one of many, having the obscure perhaps being transformed in gender and number. Those old women we were, bleeding as if there were "twenty people in my belly"... they were rushing into waiting, rushing into being ready for something else. Slow like a butoh, I walked around the stage shouting few things. Maybe I was immortal, not immortality of achievement, but immortality of waiting. "Hi-ho the derry-o, we all fall down". Mortality is not about death - it is maybe about fear - but it is about waiting. The mortal is under an unknown spell - this is why I proclaimed that no star holds up my future, the insects do.
The intensity of the picture is enough for me. I don't mind how sad or upsetting a film or a book is - to have a convincing picture is the pinnacle of overcoming the uninspiring. In pictures also dwells Coetzee in his Elizabeth Costello episodes. Dialogues are indeed sometimes explicit scaffolding for pictures. Anne Sexton is summoned in the poem: "Interrogator: One day is enough to perfect a man. Anne: I watered and fed the plant."
Peter Handke, in his Essay on Tiredness, is also summoned by an interrogator of sorts. Handke speaks of the heartlessness of his attempt to content himself with "investigating the pictures, or images, that my problem engenders in me, with making myself at home in each picture and translating it as heartlessly as possible into language with all its twists and turns and overtones." Then the interrogator comes in asking about Handke's remarks on the tiredness of working in common and comparing it with the tiredness of solitary work. Handke replies: "When I told you all that, it wasn't for the sake of contrast, but of the pure picture; if such a contrast nevertheless forces itself on the reader's attention, it must mean that I haven't succeeded in communicating a pure picture. In the following, I shall have to take greater care than ever to avoid playing one thing off, even tacitly, against another or magnifying one thing at the expense of something else, in line with the Manichaean all-good or all-bad system, which is dominant nowadays even in what used to be the most open-minded, opinion-free mode of discourse, namely storytelling." Storytelling play on differences. Or rather, in affirmation. We bring something to the fore - in doing that, nothing is said about what remained at the backstage. Negation, in storytelling, is not a non-picture, is another picture with specific details to it. It is not a ready-made picture, dependent on an opposite picture. Negation always invoke the issue of how something is negated. The contrast is an after-effect.
Negation takes place within the space of intensities.
I suppose I think in pictures, in plots and not in oppositions: to affirm rather than to dwell in contrasts. Ontoscopy, maybe; we can find a picture to see something, maybe because perceiving is always creative. I wonder whether this is a non-religious, maybe mystical way of pursuing salvation: there is nothing in itself to be avoided, it is always a matter of how. The adverbs attract me. Pictures. Not substances. I don't believe in them. I don't believe in picture-less substances. In particular, I don't believe in structured negation - that ultimate substance with a ready-made intensity. It presents itself as if it is just the opposite, or rather, a opposite. To me, the macabre, the monstrous, the dark are themselves differences while negation make them all about the same thing. Determinate negation is the opposite of a picture. I'm not sure arguments can always be replaced with pictures - I bet they nevertheless do the complete service. Not the whining.
The picture is in line with the question. How. Questions are what friction pictures, shake them up. Not answers, not contrasts. Sexton closes the poem writing about the intensity of asking:
"Of course earth is a stranger,
we pull at its arms
and still it won't speak.
The sea is worse.
It comes in, falling to its knees
but we can't translate the language.
It is only known that they are here to worship,
to worship the terror of the rain,
the mud and all its people,
the body itself,
working like a city,
the night and its slow blood,
the autumn sky, Marry blue.
But more than that,
to worship the question itself,
though the buildings burn
and the big people topple over in a faint.
Bring a flashlight, Ms Dog,
and look in every corner of the brain
and ask and ask and ask
until the kingdom,
however queer,
will come."

The fury of God's good-bye (Anne Sexton)

One day He
tipped His top hat
and walked
out of the room,
ending the argument.
He stomped off
saying:
I don't give guarantees.
I was left
quite alone
using up the darkness.
I rolled up
my sweater,
up into a ball,
and took it
to bed with me,
a kind of stand-in
for God,
that washerwoman
who walks out
when you're clean
but not ironed.

When I woke up
the sweater
had turned to
bricks of gold.
I'd won the world
but like a
forsaken explorer,
I'd lost
my map

lunedì 22 dicembre 2014

"amar os pombos mais do que os humanos", de Nuno Oliveira

ainda agora vi um desses pobres possessos, o tipo amava mais os pombos que os humanos e esse foi o seu crime, estava no jardim da Gulbenkian... um puto de uma família que estava um pouco afastada, correu para os pombos que um quase pedinte tinha entre si como grupo de também pedintes, dava-lhes pão, usava um saco desses do expresso já quase sem as letras, o puto chega e vai de tentar dar um pontapé no pombo, o tal da rua tenta empurrar o puto, o pai e o amigo vai... pareciam desses ex-jugadores de ragby, vai... tentaram esmurrar e empurrar, o tal da rua, entretanto chamaram a policia, por certo para mais uma vez humilharam o parvo de parvo...
e neste caso ainda, podemos dizer que este pedinte está possuído de "amor de pombo"...

sendo assim "Quando a conduta de alguém se desviava do padrão comum, e se fazia acompanhar duma certa perturbação da razão, havia a suspeita que a pessoa andava dominada por um ou vários espíritos diabólicos.", poderemos pensar que a normalidade, desvio de uma comportamento normal, estará condicionado não pela média tirada entre todos o grupo de normais e anormais que existem, mas mais perante uma naturalização condizente com os valores, positividade por quem de direito, quem exercer a ideia do que é direito faz passar,
neste caso o tipo, poderia especulando ter tido infelicidade de se ter afeiçoado aos pombos, antes ou depois de pelas vestes ter ficado pobre, mas vamos ver qualquer lapso pode, burrice ou esperteza, pode fazer um tipo ficar pobre e numa espiral de incongruência um tipo ainda, já nem falando em fazer família, um tipo pode ainda ser preso porque deu um safanão e esse outro puto que destruía a fragilidade dessa outra espécie, os pombos, está bem que não eram borrachos, mas os pombos são frágeis comparadas com as gentes da nossa espécie. A possessão neste caso o desvio é provado por comportamento anormal, e implicaria não tanto a questão de como é que os ditos cujos são, o Pai do Pombo e o Pai do Puto, mas mais um desvio da positividade do sitio. E ainda neste caso aquilo que temos como assunto do foro psicológico poderá ser mais do foro político... Digamos se a normalidade, considerando for um assunto só por si não equivalente a uma ética, ela pode bem ser uma doença que cria os seus próprios pontos de vista do que é a cura, e estaremos aqui a digladiar não tanto valores universais mas mais ideologia. Voltando ao Pai do Pombo e ao Pai do Puto, (...)

Texto da estréia mundial do MC Bicho Bicha ontem



(Na árvore-monstro 3, em 20 de dezembro de 2014)

O poder da bicha
É o poder do bicho
Do bicho que devora quieto
Do bicho papo reto
Do bicho que se entrega
Tuas feras soltas, tuas asas
Teus ciscos, teus rabiscos.
O poder do que cresce no lixo,
do carrapicho e do capricho.

O poder do bicho bicha
É o poder larval
Que te seduz, como um animal
Que te desmonta
Não segura tuas pontas
Te afronta, te deixa tonta
Te espicha a salsicha
Te esguicha
Até que cai a ficha
Nem tenho filo nem espécie,
Sou só bicha.

Como todos os bichos
Concentrados num só animal
O filho da terra
Que não quer ser só mais um mano humano
Devastador.
Chama a mina colorida
Que é feroz e graciosa
A mina que é a pachamama,
É condor, serpente e llama
Peixe, girino, iguana
É uma mina americana
E pode mais do que o Obama,
Que o papa e o dalai-lama
Chega junto, te inflama
E não fica cercada, fechada,
Amordaçada, domesticada, encurralada,
Apertada, silenciada, atropelada
Que ela não é só natureza, morou?
Que é só coisa do IBAMA
Ela quebra a cama
Essa mina, a pachamama

E eu sou seu chifre Caribú
Dadivosa
Que eu sou homem-viado
O mestre das renas doces
Que se entregam aos caçadores
Que agradecem no jantar
Que este aqui é o meu planeta, vagabundo
E pra comer tem que pagar
Não com o dinheiro do açougue, filé
Mas com a carne do teu bucho
E a ossada que tu usa, mané
Pra te sustentar

Caribuuuuuu

O noise é o som da terra, mano
O som da lava, da água, do fogo, do chão
Da terra que não se compra
Nem se arrenda a prestação
É a nostalgia da onça,
Do pato, da cabra, do porco
Do mato, do tronco, da seiva, do lago
Da cinza, diamante, do ouro
Nas moedas de um milhão
A nostalgia dos processos indisciplinados
Nas máquinas que industriais engravatados
Entregam aos somalis escravizados
Que ficam milhões de horas encalacrados
No chão da fábrica amarelado
Telefones e chips contabilizados
Vendidos por outro imigrante proletarizado
E que é só material sem nome
É nostalgia do fundo da terra
O fundo disforme, queer, sem identidade
Onde o fogo engole o ar
Num flow de rap, neguin
O vulcão devora a pedra bolada
Num show de noise, que estremece os soldadin.
Caribuuu

Meu nome é ruptura,
É V de humanidade
É esquecer a espécie, parceiro
Quero som que faz teus osso requebrá
Geral enviadá, malandro revirá
Reprogramar teu travesseiro
Correr com os equezeiro
As nega colando velero
Misturada nos maloqueiro
E todos os batuqueiro
Montando açucareiro.

Nesta árvore monstro
Papai noel é o homem-caribú
Que te oferece cerdo cru
Pra tu comer ou pra comer teu macucu
Não é umas reninha, é trucuçu
É bicho broder, manda o som
computador no micro ondas
terremoto em teu angu.





martedì 16 dicembre 2014

Alfarrábio de caminhada

Pesado, isso é pesado eu queria ser lépido
Eu que sou.
Eu que sou
Metade sereia, metade hermafrodita.
Metade lobisomem, metade trans-humano,
metade cyborg.
Metade semideus.

lunedì 15 dicembre 2014

Revista das questões, lançada

Início do editorial da Revista das Questões, primeiro número.

Apresentamos com alegria o primeiro número da revista Das Questões. Ela é um efeito das nossas conversas sobre as tonalidades insuspeitas e subversivas no pensamento de Edmond Jabès. Com ele partilhamos o gosto pelas questões, partículas de hospitalidade, gatilhos de instabilidades. Quando uma questão perturba, o pensamento experimenta uma proliferação de começos. As questões sobrevivem nas respostas, mas como pensava Deleuze, elas sempre as transcendem. Assim, a demora nas questões nos levou a estes pontos de encontro que são também impasses: Filosofia Tradução Arte (sem hífens, nem vírgulas, nem espaço para respirações ou cesuras) . Era preciso por nossos pés na academia na largada do pensamento, e não mais na sua chegada. Era preciso acolher o pensamento indisciplinado, indisciplinarizado. Ocupado não com uma área, com uma linha, com uma língua ou com uma maneira de dizer – mas com as traduções, translações, entre elas.

A tradução é o lugar do meio onde alguma coisa é perdida, alguma coisa é recuperada, alguma coisa é ganha. É também diplomacia: um gesto das caras mas também uma coreografia improvisada de mãos, aquilo que escapa das mãos abertas, aquilo que fica preso entre pela força dos dedos. As traduções são sempre cheias de interstícios, mas porque elas mostram o incompleto do que já havia antes. Whitehead distingue entre o que precisa ser atenuado – que ele chama de aversion – e o que precisa ser enfatizado – que ele chama de adversion – para que a tradução entre a percepção física e o conceito possa ter lugar. Aversions e adversions são talvez ingredientes de toda tradução. É um balanço de intensidades. E as fronteiras são melhores quando elas balançam – e são permeáveis.

Como estamos ligados a dois grupos de investigação, o ANARCHAI e o Grupo de Estudos Blanchotianos e de Pensamento do Fora, a Revista se abre às produções destes grupos. O ANARCHAI pretende revirar o tema da proximidade e da distância entre ontologia e política, que muitas vezes é o espaço entre alguma coisa e nada de um lado, e alguém e ninguém do outro. O Grupo de Estudos Blanchotianos e de Pensamento do Fora se ocupa com o literário e o filosófico nas confluências que Blanchot e seu meandro insinuaram, e as pensa traduzindo. A Revista é uma sede para os temas destes grupos. Porém nosso intento é confabular uma comunidade mais ampla com quem não se apresse em parar de esticar, adensar e sacudir questões. Uma comunidade de quem faz questão do lapso, da deriva, da interferência presentes na experimentação quando ela arregala os ouvidos para captar o não-dito e o ainda-por-dizer.

Revista aqui.


Descontrole Perec Breton

L'automatisme avait toujours ses entrailles. Les règles les plus dures ses glissières. Je pense à toutes les premières lignes. Même de tout ce que je n'avais écrit jamais.

Christian Bök on slides (and bowels): even under duress, language expresses the uncanny.

Oui, ce soir-là plus beau que tous les autres, nous pûmes pleurer. On hissa sur son support. Des femmes passaient et nous tendaient la main, nous offrant leur sourire comme un bouquet. Ça n'alla pas trop mal. La lâcheté des jours précédents nous serra le coeur, et nous détournâmes la tête pour ne plus voir les jets d'eaux qui rejoignaient les autres nuits. Mais plus tard s'acharna un mauvais hasard.

giovedì 11 dicembre 2014

Griot (MC Marechal)

Meus rap são minha vida neguin
No show eu passo o sentimento que eles tem
Brota na mente dos amigo é minha também
Na mente de quem nunca viu, que isso tio, esse cara é quem?
Pergunta aos melhor que tu ouviu sobre as influências de onde vêm
Respeito pelos tapa na cara pra cada linha
E pelo foda-se pras gravadora, não rendo e monto a minha
Invisto em rap de mensagem com cultura porra
E ao mesmo tempo faço funcionar as calculadora
Se eu faço por dinheiro, às vezes sim Dom
Din que eu não posso dispensar pra continuar fazendo som
O que eu quero? o que faz eu me sentir mais vivo
Pois eu já me senti livre, hoje eu quero é sentir que eu livro
Sem querer ser o melhor, longe desses papo de vaidade
Quer ser o melhor vai ser o melhor pra tua comunidade
Um som por semana? não sou esse tipo de MC
Eu faço um som por ano e tu não fica uma semana sem ouvir

Mensageiro sim senhor
Vagabundo se emociona
Porque sente o espírito dos ancestrais, Griot!
Eu vim pra provar que a cultura não acabou

Sou mensageiro sim senhor
Vagabundo se emociona
Porque sente o espírito dos ancestrais, Griot!

(Mensagem Griot)
Eu sou o exército de um só
Sem facção, só faço a minha
Na VK ( vila kenedy ) Joaquim Oliveira , Santa Mata
ou Rocinha
Se parar pra perguntar, morador, moradora
Vai ver que eu fui por amor
A mensagem ainda é duradora porra
No botequin, com a rapazeada
Chego de chinelin, alguns neguin da nada
Só eu e os meus cdzin, batida mais bolada
Que eu e meu irmão Luizin produzimos de madrugada, Aí
Eu imendo a rima galopada cadência dobrada
Que os cara virada do nada ja viram pra cá pra pirar na flipada
Kickada que para a quebrada, quem tava ali fora já vem dar uma olhada
Quem tava indo embora já para e repara ficaram de bob
Bolaram no pique jogada de rir, malabares embala a levada
Sou tipo velin da embolada, pandeiro bolado me da coordenada
Palavra colada que são dedicado pra todos menor já com a mente focada
Ligado que cada parada que eu falo libera a verdade desmanipulada
Ja to nessa porra de rap da antiga e aprendi que o importante é mensagem passada
E não rimo nada, que não seja de coração
Os cara fala, filho da puta ele tem dez pulmão
E eu largo esses tipo de flow, às vezes só pra chamar a atenção
E falo que flow não é porra nenhuma se não tem nada de informação né não?

Mensageiro sim senhor
Vagabundo se emociona
Porque sente o espírito dos ancestrais, Griot!
Eu vim pra provar que a cultura não acabou

(Mensagem Griot)
E eles dizem que eu sou louco, ainda acredito em movimento
Mais que gravar, quero semear algo de valor pro tempo
"Mas a pista é São Tomé Marecha, a pista é que é exemplo"
As batalhas falavam merda, eu fiz a do conhecimento
Pra ter voz geral trabalha, nós por nós
Malcolm X forma que for necessária
Em breve coleta de livros nos evento em várias áreas
Incentivo pra ter mais bibliotecas comunitarias
Depois das bibliotecas um centro de estudo avançado
Pra substituir as escolas, seus métodos atrasados
Nos preparam pra ser escravos, não incentivam o raciocínio
Deviam mostrar marcos da história mais parecidos com Plínio
Explicam o domínio de quem fabrica o dinheiro
Faz quem produz seu sonho e suborna seu travesseiro
Faz tu acreditar que só sobreviver ja tá maneiro
O jogo é sujo, segundo grau pra ser lixeiro
Geral ta sem dinheiro, eu to bolado
Que volte a época que os MC's eram mais politizados
E quando show com renda pra revolução for anunciado
Isso é papo de 10 minutos os ingressos ter esgotados
Estádio lotado geral mostrando o que somos
Sobreviventes no inferno mais de 50 mil manos
Alguns deles descalços, pois jamais nos deslumbramos
Preferimos morrer assim, sendo donos de onde pisamos
Jesus, João Batista, Pensador, Gogh, Brown, Rakim, Gentileza,
Gandhi, Mandela, Marley, Fela, Lutherking
Pra ser mais um to na pista, filosofia Um só Caminho
E os meios justificam-se agora porque essa porra não tem fim.