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venerdì 25 luglio 2014

Minhas identições

Volto a Abya Yala, de dois sopetões, primeiro em Tlalocan, terra da fertilidade bruta, depois ao Goiás, onde fizeram Brasília para criar modernos à ferro e concreto armado. Cidade primeiro, habitantes depois. Os modernos são grandes reterritorializadores - suas terras conquistadas são ombros camponeses (e rios limpos, asas de borboletas mondriânicas, sapos com mensagens cifradas). As conquistas são sempre regadas por epistemicidas. Por isso os camponeses e os indígenas são os estranhos que desaparecem. Um epítome desta época da modernidade (nem tardia e nem prematura, provavelmente): o outro está de costas. Partindo. Indo para longe e evanescendo. Um pouco como diz Byung-Chul Han: o negativo exorcizado. Mas não só exorcizado, extirpado. Há uma fantasmagoria nas causas ecológicas e indígenas: de um passado que precisa ser reinventado já que é esfumaçado. É como as marcas das adinkras nas formas dos tecidos afros de Abya Yala: conteúdos esquecidos, reminiscências persistentes. O outro é um fantasma - e por isso Han compara ele a um fardo. O que assombra é também alguma coisa que precisamos carregar. Brasília é cheia de fantasmas. E quase não há outros outros.

É um tempo excruciante se marcamos os ponteiros com Gaza. Tenho assistido a documentários sobre a Nakhba palestina
(como esta da Al Jazeera), o que me informa já que fui amamentado com um leite pró-sionista. E então penso, desde Abya Yala, o continente que foi primeiro Colónizado e foi reColónizado tantas vezes. E nele eu penso na minha posição na ordem Colón das coisas: white but not wasp, cidadão de um país correndo atrás, com identidades internacionais prontas para a perseguição e para a inquisição e para simulação (judia, sefaradi), criado para ser urbano e desprezar o que é camponês, educado para ser masculino mas com dose grande de heteroginefilia e muita autoginefilia, acolchoado por obviedades da classe média, cercado de gente comprometida com a brancura e que gosta do afro sem nome. Na minha escala entre global e local - entre Güeros e índios, habito um meio. Índios de autóctones, de longínquos, de adivasis, de independentes. Na empresa de abrir caminhos para modernos, este povo de geometria variável, como diz Latour, e crescente anseio por Lebensräume, eu fui colocado no meio da escala. Como brasileiro, não era um indígena mas também não era um ocidental. Como judeu, eu não era um desabrigado, mas trazia uma história (oficial) de desabrigo. Quando eu crescia, acreditei tanto nestas arquelatrias de identidade que pensei que teria que escolher entre dedicar-me aos latino-americanas ou dedicar-me às judeus. Eu percebi logo que os híbridos são diplomatas. Modernês eu falava com sotaque, palavras indígenas, balbuciava. Onde estava o orgulho e onde estava a vergonha, decidiria que diplomacia eu faria - a de Cortez ou a de Gonzalo Guerrero.

Estas minhas duas identidades arquelátricas já estavam postas a serviço (diplomático) dos modernos quando eu nasci. A haskalah (iluminismo) judaico que aconteceu na Europa desde o fim do século 18 - e que Napoleão convocou e mostrou ao mundo - foi o berço do sionismo. Esqueçam suas raízes indígenas incômodas e modernizem-se: sejam uma nação e ajudem os modernos - os globais - a organizarem o mundo para que eles o entendam (em governos, fronteiras, autoridades). A Nakhba seguiu-se daí. A Shoah talvez tenha sido o último suspiro da modernidade cheia de raízes profundas disfarçadas contra os judeus errantes, nômades, descabidos. Depois disso, alguns judeus se aliaram à modernidade cheia de raízes profundas disfarçadas (os globais cheios de localidades recônditas) contra os errantes índios. Alguns judeus aprenderam a lição: os modernos respeitam quem garante a expansão de sua geografia. É por isso que Israel é admirada pelas classes modernas brasileiras: paradigma de modernidade em expansão. Na missão de ser um exemplo para os índios atrasados que insistem em fazer diferente. O Brasil sonha em ser ocidente. Em ambos os casos, a modernidade é nas toras: não há tempo para hospitalidade ou hesitação já que tem sempre o mestre olhando. Até quando o mestre preferia não ter que ver.

A colonização é uma eterna vigilância. Mesmo que o colono esteja dormindo. Já eu, estou indo para outro lugar.
Minha identição de leite caiu.

PS: este texto é gêmeo deste. Seu título é levemente inspirado no livro de Valeria Luiselli.

mercoledì 16 luglio 2014

Alvorada e luz acesa

Cheguei na terra. Santa por um fio, prometida como o terremoto.

Encontro no fundo do bolso uma caixa de ferramentas:
tarefas, ordens do dia, mandamentos.
Rasgo. Estar contente não é uma norma.
A norma é como a crítica e elude toda realização bonita.
Penso na quadratura do círculo -
nada pode ser contado do início ao fim.
Consulto uma página na rede
para saber a hora em que o dia nasce:
5:50 em Cancún.
Amanhã dia e noite têm o mesmo tamanho.
O futuro pertence a quem repete.
Já são seis horas. Mas aqui não é Cancún.
Na cidade do México o dia está prometido
para 6:43. Daqui a quarenta minutos.
O dia não está atrasado.
Acendo a luz.

giovedì 10 luglio 2014

Um poema que achei sobre Abya Yala em um clima Epistemologias do Sul, em Coimbra

Abya Yala Wawgeykuna*

I

Abya Yala apachi q'osni patapi
Tawa K'uchu tawantinsuyumanta
Yawar qhocha kutipun
llajsakun sirch'i nina urqota.

II

Abya Yala llanp'a ch'ujrikuxqa
Kallpa makanakuyta mana atisqarkuchu
Jatun ruphyay ukhu urqopi
Sach'a ukjupi panpakuna
Sallqa ch'inllan...

III

Unay ayllu yachaykunapi
Atimullpusqa chay jina llajtakunamanta
Chinkasqa nay uray janaj pachapi
Winaypaj arpa atisqa simir nisqa.

IV

Mast'aspa makikunanchejta
Tawa nujunakuymanta
Kay pp'unchayman chhayamunchej
Abya Yala wawqeykuna

V

Kay yuyayniyki llanthupi
Ancha sinch'i Pirqapi juqarina
Llakijmanta mujujjima
Tukuy kayta yuaytawan
Qhatisuchej chakisarukunanta
Ripusqankunawan.

Traducción al español[editar]
Hermanos americanos*

I
Abya Yala sobre las aras humeantes
Los cuatro puntos cardinales
Se tornan infiernos de sangre
Lava incandescente funde su potencia

II
Abya Yala, pura, descoyuntada
Batalla de esfuerzos imposibles
De trópicos majestuosos y ardientes
De selvas profundas, llanuras...
Mesetas salientes...

III
Razas ancestrales, culturas diferentes,
Pueblos fantasmas
Perdidos en el infinito
Siempre víctimas de vanas promesas.

IV
Tendiendo nuestras manos
Desde las cuatro ternuras
Llegamos a este día.
Hermanos americanos.

V
A la sombra de esta memoria
elevemos una firme columna
Como simiente de ansiedad
Recordando todo esto
Seguiremos las huellas

mercoledì 9 luglio 2014

A agenda oculta na tua cabeça

Se notares bem teu planeta
verás que o chão tem molas
que te arremessam para o céu -
são alforrias, euforias, fora da calçada e da estrada
e até do antropoceno.
Podes descer o rio Tejo com cuidado,
pé ante pé, já que qualquer tropeção te leva além
ou aquém.
Ouves os murmúrios do rio, que falam das macias verdades,
do sal do mar ou da depressão que anima as gentes
a sairem pela boca do rio buscando cominho a açafrão.
Vais sentir as volúpias de abrir-te como um túnel
do que vem do magma e vai para Urano.
Contem-te um pouco,
mas não demasiado. O chão te encontrou.
Depois dê teus pulinhos.
Eles aprontam a estratosfera
para a safra de fótons verde-abacate.

giovedì 3 luglio 2014

Contraste

Meus caminhos se encheram de pedras.
Corro com Rosamund pelos canais da cidade grande
onde as conversas são testes de Turing
e encontro só o magma do antropoceno
tornado em sedimento vulcânico.
A água já não molha.

Meus caminhos se encheram de pedra.
Procuro nas pedras algum resto de caminho,
alguma gota de saliva solta,
alguma existência que escapou do protocolo.
Você sabe onde tem?

- Ali, depois do parque, tinha um muro,
agora já não tem mais, só tem lojas.
Se você pegar a esquerda encontra uma torre de concreto.
- Lá tem coisas que não foram protocoladas?
- Não, mas tem um poço cheio de barro e uma sorveteria.

sabato 28 giugno 2014

Our passion for freedom is tougher than this prison

Meu bando, de solitários, anda para baixo
da Marylebone Road.
Entra com os cegos no hospital,
machuca os turistas na estação de trem.
Todos os dias o bando sabota minhas tentativas,
bem-intencionadas,
de me transformar em um condomínio.

Sentamos todos na calçada da rua,
coloco um pano verde no chão
e todas as moedas no pano.
Amo as bichas. As bichas ferozes,
e ardentes. De longe até vemos as matilhas,
de longe desengonçadas,
mas olhando a Marylebone Road de lupa
só minhas bichas sacodem.

Cada dia mais confinados, os meus solitários,
espremidos uns contra os outros,
não se aguentam, não se agridem.
Fico esperando os passantes jogarem moedas
no pano verde. A calçada me protege -
nada jamais me protegeu mais.
Quando olhamos só os pés de quem passa,
eles estão indo para algum lugar.




mercoledì 18 giugno 2014

Life is always what have I done at all

To Olga Shaumyan

I've been here. In this street, in this bar, in this plot.
I've been again in this street, in this bar, in this plot.
Because I've done something.
And there was a purpose.
To all my wrinkles.
Even though the wrinkles, I believe, weren't the purpose.
The wrinkles came because I had the purpose.
In this street, in this bar, in this plot.
I was anxious, things could have gone wrong, I missed a heartbeat.
It's easy to dive into the moods. To count the suspense
of things past.
And past again.
But I rather breathe the air. My past seems unlikely.
While is even less likely that I haven't done anything at all.

O peso de um corpo só

O corpo parece um pacote.
Mas não tem destinatário. E pode ser uma bomba.
Raramente explode.

Levo o meu, pelos quatro cantos do mundo
(ele gosta dos cantos),
como um pastor leva o rebanho,
como um afinador de piano leva a sua tralha.
Noto que ele está cansado.
Está cansado que eu carregue todo o seu peso.
Já que ele é o que pesa.

A cada dia faço com ele uma coisa diferente;
como quem leva uma criança ao circo,
um pinguim ao zoológico.
Ele vai ofegando mais, suspirando mais, gemendo mais.
Acho que ele vai tendo mais empatia,
já que eu não consigo nem embarcar sem ele,
nem entrar dentro dele e pedir que ele me dê uma mão.


venerdì 13 giugno 2014

Byung-Chul Han e a raiva (da edição francesa de Müdigkeitgeselschaft)

La colére a une temporalité particulière qui ne va pas avec l’accélération générale et l’hyperactivité. Cette dernière ne tolère aucune distance temporelle. Le futur se raccourcit pour devenir un présent prolongé. Il lui manque toute négativité qui autoriserait le regard sur autrui. La colère, en revanche, remets tout le présent complètement en question. Elle présuppose une pause interruptive dans le présent. En cela, elle se différencie de l’irritation. L’éparpillement général caractéristique de la société d’aujourd’hui ne permet pas à l’emphase et à l’énergie de la colère de s’affirmer. La colère, c’est une capacité qui permet d’interrompre une situation et de faire débuter une autre situation. Aujourd’hui, elle s’efface de plus en plus au profit de la contrariété ou de l’énervement que ne peuvent pas générer de changement radical. [… La colère] saisit et bouleverse tout notre Dasein. […] Elle ne se rapport pas à un seul objet. Elle nie le Tout. C’est ainsi qu’existe son énergie de négativité. Elle représente une situation exceptionnelle. La positivité croissante du monde prive ce dernier de situations exceptionnelles. (p. 78-9)

domenica 8 giugno 2014

Amistosidade e Cólera

Deborah veio a Paris grávida dos suas duas filhas,
Timidez e Terror.
Uma cesta de frutas secas, dinheiro para o pão, um amigo viciado
em Belleville.
Ele levou Deborah, num domingo de sol, para ver de perto
a casa onde morou Jodorowski e a praça onde tocou Karkowski.
Era o dia feriado.
E as casas estavam fechadas, as praças trancadas.
Os parisienses descansavam
com suas mães mortas,
com seus corações feridos,
com seu esgotamento sempre parcial.
Os dois encontraram uma sombra
onde Deborah podia repousar seus quartos,
cansados da caminhada.

Deborah leu no tronco das árvores dois mantras,
Amistosidade e Cólera.
Quando nos enfurecemos, predicava o pastor em língua coreana,
começamos alguma coisa nova.
Garganta arrebentada, ossos exauridos, voz mesmo sem palavras.
As pessoas cansadas, elas sim,
tinham o coração aberto às primazias e aos intrusos.
Deborah sentiu seus pés trincarem.
Queria sorrir todo o dia, mesmo que fizesse sol,
mesmo que fizesse ansiedade.
Ela teria que perder as horas já que suas duas filhas
não iam nascer com relógio de pulso.






venerdì 23 maggio 2014

Minha terra concreta


o que me amarra nas crosta da Terra?
a benção ... o sonambulismo
multidão ou ... ou ovelha

horas e horas de paisagem austríaca ... caídas na piscina quente a mãe e a filha
o trem em uma velocidade da breca ....... calor do sol, calor do vento, frio da morte
a cabeça a cada kilômetro mais fraca ... cabelo e carne se resumem um no outro
cravadas no âmago uma flor e uma faca . camadas de sonho seco na medula

uma tarde bem no fim da estrada implica catástrofe sem anunciação em palavras

ou nada
só luz

sabato 17 maggio 2014

a funcionalidade me desdiz

imagino outra vez minha descendência.
impaciência. o mundo visto com olhos apressados. não tem mais pistache?
já nem posso deglutir. a vida será um rio enxurrado. e a toa.
sem dentes, sem gengiva, uma velha vestida de branco só me lembro de Oaxaca
e quero o gosto dos pistaches.

gosto das velhas cruéis.
só me sobraram elas - eu queria parir trezentas delas.
todas levando um mundo mais poderoso que tudo o que é é é
em caixinhas de música emperradas.



giovedì 15 maggio 2014

Jugendheit

Eu fui uma carta de tarot com cinco de espadas.
Fui também um elevador, um liqüidificador, um tapete molhado, e
perdi o fio da meada no meio do corredor, é certo.
Não consegui encontrar as palavras para contar para mim, uma coelha manca,
o que eu estava fazendo aqui.
Com detalhes.
Eu, que era aquele isqueiro tão bem útil do Pat Ingoldsby,
entrei na primeira sala
e procurei uma janela.
Tinha um sofá cor-de-rosa e uma bola inflável bem azul -
eu não tinha nada para fazer ali.
Queria sentar no sofá, com o cotovelo na bola e contar histórias,
daquele tempo de gigantes e de titãs que ninguém tem saudade,
já que nunca passou.
As saudades ardem porque só há o novo.

Aquelas que virão, resumirão minha vida entre um gole e outro de bebida,
eu serei só a diaba tardia ou um pedaço de corrimão.
Aquelas que virão não serão mais eu - terão outros fôlegos.
Usarão outros guarda-chuvas, nos fins de tarde de chuva,
terão outros passos, e outra pressa.
Eu serei a margem do rio.
Com um saco de papel cheio de passas doces.