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giovedì 20 novembre 2014

Carnaval e catástrofes

Um post deste blog de fevereiro de 2008, inspirou o texto que publico com o Ricardo Lobato em um livro sobre Carnaval e Filosofia a ser publicado em breve. Copio aqui dois trechos (um do início e um do meio do artigo):

Nas vésperas do desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro de 2008, uma liminar da Justiça estadual impediu o desfile do carro alegórico que representava o terror dos campos de concentração e extermínio no enredo da Viradouro. O enredo tratava do que traz arrepio: dos maravilhamentos aos êxtases, dos medos aos horrores. A Shoah – a catástrofe judaica que adveio em concomitância com a Segunda Guerra Mundial - tem sido considerada um dos horrores da história recente e utilizada muitas vezes como parâmetro de massacre e extermínio,. Este parâmetro é usado nas comparações com a catástrofe palestina que se seguiu a 1948 (a Nakhba) , em outros massacres coloniais e até com o trato genocida de animais, como deixa explícito os discursos de Elizabeth Costelo no romance homônimo de Coetzee (2004). Ela é também uma medida das capacidades de controle pela destruição na modernidade (Bauman, 1989; Agamben, 2008). As imagens dos campos de concentração e das câmaras de gás se tornaram ícones do apavorante, da extrema violência e da crueldade na cultura ocidental. Muitos filmes, romances, peças de teatro e até mesmo poemas foram feitos sobre o extermínio como partes de diferentes mensagens e mostrando os acontecimentos sob diferentes vieses. Até então o tema não tinha aparecido nos desfiles de escolas de samba.

A liminar foi apresentada pela Federação Israelita do Rio de Janeiro alegando que o tema da Shoah era inapropriado para um desfile de carnaval, que tem espírito festivo e de alegria, humor, descontração e erotismo. Os desfiles não seriam lugar apropriado para pensar o horror – nem sequer sob a forma da questão sobre o corpo arrepiado – já que estão confinados à festa, onde não caberiam certos pensamentos. A liminar insinua que o tema da catástrofe judaica cabe em filmes, romances e até em poemas – mas não em desfiles de escola de samba. Que pensamento foi este que impediu a exibição do carro preparado pela Viradouro para representar a catástrofe? Aquele quinto carro teve que ser substituído por uma alegoria sobre a censura onde se lia “Liberdade ainda que tardia – Não se constrói futuro enterrando a história” em meio a pessoas amordaçadas – e uma imagem de Tiradentes. O carro com a escultura dos corpos retirados da câmara de gás não desfilou. Em seu lugar, o arrepio da mordaça.

Um dos elementos alegados pelo pedido de proibição da exibição da alegoria pela Federação Israelita do Rio de Janeiro foi o plano do carnavalesco, Paulo Barros, de colocar um passista vestido de Hitler sobre o carro no desfile. Paulo Barros havia já vinha introduzindo inovações em carros alegóricos nos desfiles que fez para a Unidos da Tijuca desde 2004. A concepção de Barros era de colocar elementos humanos na escultura das alegorias – e ao invés de passistas sobre um púlpito, ele introduziu dançarinos em grande quantidade fazendo movimentos sincronizados. A sincronia da dança dava um elemento vivo à alegoria ela mesma, e os movimentos refletiam eles também elementos do enredo. Foi assim com o carro do DNA onde pessoas pintadas de azul faziam movimentos espiralados. Também foi assim com os amordaçados que vieram na alegoria que substituiu aquela que havia sido proibida: pessoas amordaçadas faziam movimentos sincronizados, não dançavam samba, não eram passistas. Na Viradouro, Barros pretendia com este enredo transversal, tentar pensar o arrepio que, como algumas outras reações corporais, responde a humores muito distintos.

[...]

Nos últimos 50 anos, as escolas de samba aceleraram sua história tornando possíveis muitas transformações que vieram a permitir que diferentes coisas passassem a ser tematizáveis nos desfiles. Um elemento importante introduzido pelos desfiles do Salgueiro de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues nos anos 60 e início dos anos 70 foi os temas da história africana do Brasil. Pamplona, formado na Escola de Belas Artes do Rio e cenógrafo do Teatro Municipal, entrou no carnaval do Salgueiro em 1960 e procurou um enredo histórico ainda não abordado pelos desfiles no passado. Obteve naquele ano o primeiro título para o Salgueiro com o enredo sobre Zumbi dos Palmares. Em 1963 o Salgueiro ganhou outra vez o carnaval sozinho pela primeira vez com um enredo que tratava de Chica da Silva, como uma heroína negra. No ano seguinte, foi a vez de Chico Rei.

O desfile de 1964 foi, portanto, sobre a Maafa – a catástrofe africana. A Maafa foi composta pela organização de campos de trabalho forçado em dois ou três continentes, pelo organização da vida das pessoas em função da produção, do tráfico sistemático de pessoas e do extermínio de todos aqueles considerados inadequados para o regime de escravidão (ver, por exemplo, Roberson 1995) Assim como a Shoah ou outras catástrofes, a Maafa também foi um episódio (longo) de escravização e genocídio cometido de maneira sistemática e legitimada de tal maneira que não havia espaço, no sistema escravagista, para nenhum recurso, nenhum apelo, nenhuma instância de implementação de justiça. Assim como a catástrofe judaica, a catástrofe africana também é vista pela história dos vencedores como o massacre contra um povo (ou um conjunto dos povos). Do ponto de vista dos escravizados e dizimados, trata-se de um ataque sem razão nenhuma. Sem presságio. Sem antecedentes. Sem fio condutor. Como diz o samba do Salgueiro daquele ano, “um dia, ...[a] tranquilidade sucumbiu, quando os portugueses invadiram, capturando homens para fazê-los escravos no Brasil”.

A história contada no enredo do Salgueiro – a de Chico Rei – é uma história de adaptação ao status quo escravocrata. O rei capturado compra sua alforria – e a alforria de seu pessoal – e depois compra terras e tem escravos, adota o nome de Francisco e se converte ao catolicismo e, por fim, ergue a igreja de Santa Efigênia do Alto da Cruz em Ouro Preto, uma igreja para os negros alforriados. Trata-se de uma história de cooptação do escravo – mas também, como viu o enredo de Pamplona, de uma história negra de êxito. Uma história, contudo, traçada pela migração forçada, pelas mortes precoces e pelo assassinato dos inábeis. Também pela destituição de toda uma maneira de pensar e de saber – a cooptação de Chico Rei coroa um epistemicídio sistemático.
Os carros de navios negreiros, com todo seu sofrimento e desolação, passaram a se multiplicar nos desfiles. O tema já havia sido enredo do Salgueiro em 1957 (“Navio Negreiro”), e continuou sendo uma constante nos carnavais. Por exemplo, em 2012 dois carros exuberantes de navios negreiros entraram na avenida, da Beija-Flor (em “São Luís – Poema Encantado de Amor”) e da Vila Isabel (em “Você Semba De Lá Que Eu Sambo De Cá – o Canto Livre de Angola”). Nestas alegorias, frequentemente há passistas que seguem a cadência da escola, sorriem e dançam. Talvez se possa dizer que a presença dos navios negreiros banalizou a Maafa e que, talvez, a liminar procurou evitar que o mesmo se desse com a Shoah. O argumento não está presente nos documentos que nortearam a proibição do carro alegórico da Viradouro em 2008 que não faz nenhuma menção à catástrofe africana e nem sequer ao que aparece nos desfiles das escolas nos últimos anos.

Porém o argumento em si mesmo é duvidoso: os muitos carros alegóricos fizeram parte de uma presença constante do tema da catástrofe africana no carnaval em um país onde não há sequer um museu dedicado ao massacre perpetrado pelo status quo brasileiro e por seu antecedente colonial. Ainda que possa ter banalizado a associação entre carnaval e navios negreiros, as alegorias fixaram na cabeça do público que foi através de navios de concentração que a população africana chegou para quase toda morrer nos campos de trabalhos forçados no Brasil. Os carros também evocam a destituição dos coletivos que foi a catástrofe africana. Talvez um efeito similar pudesse ser alcançado com alegorias como aquela que Paulo Barros tentou colocar na Sapucaí. Talvez a história de muitos judeus, ciganos e outras vítimas da Shoah no Brasil ficasse evidenciada e refletida pela alegoria. De todo modo, aquilo que os desfiles promovem é múltiplo: é da ordem de um resgate de uma identidade, mas também da capacidade de crueldade, da memória e, potencialmente, do arrepiante.

Neurogenesis (by divij b.c)

Freaked out on the stair,
while staring at a hunchbacks flair.
soon he damn turned in to a flare.
Flames caught the curious eyes of a baby picture
collapsed in to pieces of a feathered creature,
tried to cry on the death of a faceless preacher.
Did i make this human portrait
which looks like a piece of wrinkled paper.

mercoledì 19 novembre 2014

Yes, indeed, words and us teach each other

fragmented, fragmented
tormented, tormented
demented, demented
cemented, cemented

i got it


venerdì 31 ottobre 2014

Colcheias soltas

Ao L. A. de Lima, que sabe lesmar


encontrei um pente fino
branco, daqueles que vem com os remédios
de exterminar piolhos da cabeça.

eu que sou acéfalo
passo o pente nas escritas do mundo
já que entre os fios das literalidades
tem muitas lêndeas de analogia
ou patas de metáfora.

largo as sobras na beira do rio
em uma pedra cheia de musgos.

como dentro dos conceitos só há cadência,
ficam colcheias escorregando no limo
como Luis Augusto de Lima
escorregando em um saco de dormir
pela sua cozinha
untada de manteiga.

venerdì 24 ottobre 2014

Sobre catástrofes (e não holocaustos)

Me perguntaram sobre a Nakhba e a Shoah depois de ver o filme
sobre os limoeiros de Salma.
Na história dos vencedores, uma justifica a outra:
uma ---------- a outra.
A história é dos vencidos
é a de quem viu o assombro chegar sorrateiro:
o outro que devasta,
o outro que pisoteia e é
demasiadamente humano e
pisoteia e devasta não os judeus ou os palestinos.
Quem morreu na Shoah, quem morreu na Nakhba,
morreu por porra nenhuma.



lunedì 13 ottobre 2014

Truth-taking stare (David Wojahn)


... in which generally the patient has the sense of having lost contact with things, or of everything having undergone a subtle but all-encompassing change, reality revealed as never before, though eerie in some ineffable way.
—Louis Sass

Or gallery. Or strange askew museum. Or painting of a hotel bed
with some cheap print above the headboard. (Palm tree or a sleigh
pulling Xmas trees.) Or the day two-dimensional, subzero

as I run the beach along the frozen lake. The waves
lathed to Hokusai spirals. Cold gallery, every inch
of wall space covered, park benches derbied by snow.

House designed by Frank Lloyd Wright. House for battered women.
House of the servants of His Godhead Reverend Moon
Who plots in some Seoul penthouse His glorious

death and resurrection. Ten minutes ago I left you
to the laying on of hands. Maria talking fast in glottal
Polish, and the physical therapist, hugely blonde,

lifting your legs, white cocoons of the casts. First up,
then to the sides, the hospital bed in the living room
hulking, whirring as it moves along with you.

To talk of this and you directly, though I can’t.
To heal you with my own hands though I can’t.
Legs not working, hands not working, tongue encased in plaster.

The tongue going numb with the hands. Why my friend Dave
loves jazz: to hammer and obliterate the words,
nullify too the wordlessness. “Blue Train” on my Walkman

as the Moonies leave from house to van, lugging crates
of silken flowers. Blue pills that didn’t work.
Then my month of yellow pills. To not metamorphose

to my father writhing as the charges surge
from temples down the spine, a dog’s twitching legs
in sleep. To mollify with acronyms: ECT, Odysseuses

and Tristans of PDR, yellow Prozac, sky blue Zoloft.
To heal you with my own hands though I can’t.
The day two-dimensional. (Past and present and to dwell

in neither.) Truth-taking stare. Height and width,
no depth. On a screen the paramedics ease you
from car to ambulance, having labored with a crowbar

at the door, and I push again through the crowd
on Thorndale. This is my husband. Please
let him come with me. The inside of the ambulance,

overlit. Not a scream, the mute button pushed.
Generally the patient has the sense ... To watch
the memories shuffle on a screen. To Portugal ten years ago.

Our Lady of The Wordless Stare. The Bishop of Leiria
in sepia on the gallery wall, his hand that waves
a sealed envelope. Caption: “The Famous Third Secret of Fatima.”

The visitor’s center, thronging with white habits.
The road to the Basilica flanked by tourist booth, a wax museum.
Faces of two nuns who point to every photo, who’ve fled Cambodia,

one who speaks some English, and the beautiful younger one
whose tongue was “excised” by the Khymer Rouge—
on pilgrimage, thanksgiving for deliverance.

Their charter bus from Nice is parked outside,
pneumatic door and motor humming. Our Lady of the Wordless
stares at me. She stares .... And I’m shaken out of it

by helicopter stammer, drowning Coltrane,
all sixteenth notes as the Moonies reach the left of the frame.
Dissolve, myself, from the right of the frame. Synesthetic

whir of chopper blades, six hundred feet above the lake.
Then the picture empty. And the lake with wind anointed.
And the lake with wind. And the emptiness, anointed.
David Wojahn, “Truth-Taking Stare” from The Falling Hour. Copyright © 1997. All rights are controlled by the University of Pittsburgh Press, Pittsburgh, PA 15260. Used by permission of the University of Pittsburgh Press.

Source: The Falling Hour (University of Pittsburgh Press, 1997)

mercoledì 1 ottobre 2014

Excremento

Existe aquela violência de um cabresto que te empurra pro curral.
A voz de um homofóbico,
as caras de um daqueles que se acostumaram tanto
às suas dobras
que querem dobrar com elas o universo.

Eu queria excrementá-las todas.
Ser um grande início de tubo digestivo
e pairar
e erguer tótens de cus pelas colinas.
Porém me retenho.
Deve ser que a liberdade esbarra na igualdade.
Deve ser que eu não posso criar outra espécie:
a que só se incrementa excrementando.

Mas algum dia, que cagada,
eu desagravo.

domenica 28 settembre 2014

ESCALA, de H2A (Heitor Humberto de Andrade)

Toda vez
que olho pela janela
do apê em que moro

vejo uma rosa
num círculo
de terra

Os pássaros
gorjeiam
nas árvores

O céu sempre
belo: seja
dia ou noite

A poesia
é imensa
e bucólica

e eu sempre
angustiado
com essa falta de dinheiro.

giovedì 25 settembre 2014

Hei

Recorda-te: não vai te acostumando a cada dia com a dilaceração.
Vai haver um dia o minuto da comunidade do êxtase..

Se estiveres acostumado aos restos,
serás porco para as pérolas,
serás abismo para teu corpo.

O mês de Devrim

3 de setembro choveu
Eu pulei a janela do prédio para abreviar o caminho até a classe que eu assistia de Poéticas Contemporâneas 2. Cheguei molhado. Eu tinha trazido 20 imagens para começar um atlas e 10 massinhas coloridas. Eram 10? Gostei muito da branca.
10 de setembro foi o parto: de manhã cedo.
Teve aqueles 40 minutos, nomeados mais tarde pelo pediatra, em que a recem-nascida começou a vida como outra que olha, e me olhava como se fosse me encontrar de uma só vez. Depois isso passou e ela começou a vida como recem-nascida. Quase sem ver muito ao redor.
17 de setembro foi na rua, seca como em 10 de setembro. Mas eu estava nela.
As duas da tarde fiquei atravessando pela faixa de pedestre a rua entre a rodoviária e o conjunto nacional. Estava ensinando um curso, conceitos como personagens, que pedia que nós pedíssemos para segurar na mão de alguém para atravessar a rua.
24 de setembro, último dia de 5774 e, no fim da tarde, da janela de Poéticas Contemporâneas 2, começou a chover. Agora a seca acaba mesmo, é esta, pensei, aquela chuva divisora de águas. Dois anos atrás a Divisora veio de noite quando eu ensinava um curso mais ou menos sobre a Gramática Expositiva do Chão, de Manuel de Barros.

domenica 21 settembre 2014

Sobre o ar parado, sobre o bafo quente

Nos dias modorrentos de início de primavera
penso que o mundo é feito de desritmias:
os compassos que mais embalamos
ressoam séculos depois, quando já
não temos a baqueta do xilofone.

A doutrina da imortalidade objetiva,
recheada de corrogênese e descompasso,
vista da sombra da castanheira enorme
é uma formulação estrita do hedonismo.
Esqueço o arroz na panela perto do sol.
Procuro, entre os grãos superpovoados,
uma nave para fazer minha anábase.
Não tem nave. Não tem calendário.
O elevador enguiçou a passagem das horas
e só as cigarras sabem quando vai chover.

venerdì 12 settembre 2014

Tikkum Olam

Nasceu ante-ontem mais uma pessoa. Para que escrever mais um livro, se já há tantos?
Há livros que nasceram para mudar todos os outros livros.
Assim nasceu esta pequena cria, sol raiando, lua cheia, entre os livros de Addichie
e uma pequena coleção (incluindo um livro sobre o Hezbollah)
sobre Tikkum Olam - estamos para emendar o mundo.
(E mexendo com os dedos todas as eminências imanentes iminentes.)

giovedì 4 settembre 2014

As bordas entre as tintas de um Seurat

Uma vez uma coisa se revelou imortal a mim com toda nitidez:
e não era uma coisa, era uma excesso de bordas entre elas.
Cada coisa invadia as outras ao seu redor: a paisagem era insuficiente
o presente era insuficiente, a circunstância era insuficiente.

Imortalidade objetiva. Não era imagem alguma que ia retornar eternamente,
era a pincelada.