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lunedì 22 dicembre 2014

Texto da estréia mundial do MC Bicho Bicha ontem



(Na árvore-monstro 3, em 20 de dezembro de 2014)

O poder da bicha
É o poder do bicho
Do bicho que devora quieto
Do bicho papo reto
Do bicho que se entrega
Tuas feras soltas, tuas asas
Teus ciscos, teus rabiscos.
O poder do que cresce no lixo,
do carrapicho e do capricho.

O poder do bicho bicha
É o poder larval
Que te seduz, como um animal
Que te desmonta
Não segura tuas pontas
Te afronta, te deixa tonta
Te espicha a salsicha
Te esguicha
Até que cai a ficha
Nem tenho filo nem espécie,
Sou só bicha.

Como todos os bichos
Concentrados num só animal
O filho da terra
Que não quer ser só mais um mano humano
Devastador.
Chama a mina colorida
Que é feroz e graciosa
A mina que é a pachamama,
É condor, serpente e llama
Peixe, girino, iguana
É uma mina americana
E pode mais do que o Obama,
Que o papa e o dalai-lama
Chega junto, te inflama
E não fica cercada, fechada,
Amordaçada, domesticada, encurralada,
Apertada, silenciada, atropelada
Que ela não é só natureza, morou?
Que é só coisa do IBAMA
Ela quebra a cama
Essa mina, a pachamama

E eu sou seu chifre Caribú
Dadivosa
Que eu sou homem-viado
O mestre das renas doces
Que se entregam aos caçadores
Que agradecem no jantar
Que este aqui é o meu planeta, vagabundo
E pra comer tem que pagar
Não com o dinheiro do açougue, filé
Mas com a carne do teu bucho
E a ossada que tu usa, mané
Pra te sustentar

Caribuuuuuu

O noise é o som da terra, mano
O som da lava, da água, do fogo, do chão
Da terra que não se compra
Nem se arrenda a prestação
É a nostalgia da onça,
Do pato, da cabra, do porco
Do mato, do tronco, da seiva, do lago
Da cinza, diamante, do ouro
Nas moedas de um milhão
A nostalgia dos processos indisciplinados
Nas máquinas que industriais engravatados
Entregam aos somalis escravizados
Que ficam milhões de horas encalacrados
No chão da fábrica amarelado
Telefones e chips contabilizados
Vendidos por outro imigrante proletarizado
E que é só material sem nome
É nostalgia do fundo da terra
O fundo disforme, queer, sem identidade
Onde o fogo engole o ar
Num flow de rap, neguin
O vulcão devora a pedra bolada
Num show de noise, que estremece os soldadin.
Caribuuu

Meu nome é ruptura,
É V de humanidade
É esquecer a espécie, parceiro
Quero som que faz teus osso requebrá
Geral enviadá, malandro revirá
Reprogramar teu travesseiro
Correr com os equezeiro
As nega colando velero
Misturada nos maloqueiro
E todos os batuqueiro
Montando açucareiro.

Nesta árvore monstro
Papai noel é o homem-caribú
Que te oferece cerdo cru
Pra tu comer ou pra comer teu macucu
Não é umas reninha, é trucuçu
É bicho broder, manda o som
computador no micro ondas
terremoto em teu angu.





martedì 16 dicembre 2014

Alfarrábio de caminhada

Pesado, isso é pesado eu queria ser lépido
Eu que sou.
Eu que sou
Metade sereia, metade hermafrodita.
Metade lobisomem, metade trans-humano,
metade cyborg.
Metade semideus.

lunedì 15 dicembre 2014

Revista das questões, lançada

Início do editorial da Revista das Questões, primeiro número.

Apresentamos com alegria o primeiro número da revista Das Questões. Ela é um efeito das nossas conversas sobre as tonalidades insuspeitas e subversivas no pensamento de Edmond Jabès. Com ele partilhamos o gosto pelas questões, partículas de hospitalidade, gatilhos de instabilidades. Quando uma questão perturba, o pensamento experimenta uma proliferação de começos. As questões sobrevivem nas respostas, mas como pensava Deleuze, elas sempre as transcendem. Assim, a demora nas questões nos levou a estes pontos de encontro que são também impasses: Filosofia Tradução Arte (sem hífens, nem vírgulas, nem espaço para respirações ou cesuras) . Era preciso por nossos pés na academia na largada do pensamento, e não mais na sua chegada. Era preciso acolher o pensamento indisciplinado, indisciplinarizado. Ocupado não com uma área, com uma linha, com uma língua ou com uma maneira de dizer – mas com as traduções, translações, entre elas.

A tradução é o lugar do meio onde alguma coisa é perdida, alguma coisa é recuperada, alguma coisa é ganha. É também diplomacia: um gesto das caras mas também uma coreografia improvisada de mãos, aquilo que escapa das mãos abertas, aquilo que fica preso entre pela força dos dedos. As traduções são sempre cheias de interstícios, mas porque elas mostram o incompleto do que já havia antes. Whitehead distingue entre o que precisa ser atenuado – que ele chama de aversion – e o que precisa ser enfatizado – que ele chama de adversion – para que a tradução entre a percepção física e o conceito possa ter lugar. Aversions e adversions são talvez ingredientes de toda tradução. É um balanço de intensidades. E as fronteiras são melhores quando elas balançam – e são permeáveis.

Como estamos ligados a dois grupos de investigação, o ANARCHAI e o Grupo de Estudos Blanchotianos e de Pensamento do Fora, a Revista se abre às produções destes grupos. O ANARCHAI pretende revirar o tema da proximidade e da distância entre ontologia e política, que muitas vezes é o espaço entre alguma coisa e nada de um lado, e alguém e ninguém do outro. O Grupo de Estudos Blanchotianos e de Pensamento do Fora se ocupa com o literário e o filosófico nas confluências que Blanchot e seu meandro insinuaram, e as pensa traduzindo. A Revista é uma sede para os temas destes grupos. Porém nosso intento é confabular uma comunidade mais ampla com quem não se apresse em parar de esticar, adensar e sacudir questões. Uma comunidade de quem faz questão do lapso, da deriva, da interferência presentes na experimentação quando ela arregala os ouvidos para captar o não-dito e o ainda-por-dizer.

Revista aqui.


Descontrole Perec Breton

L'automatisme avait toujours ses entrailles. Les règles les plus dures ses glissières. Je pense à toutes les premières lignes. Même de tout ce que je n'avais écrit jamais.

Christian Bök on slides (and bowels): even under duress, language expresses the uncanny.

Oui, ce soir-là plus beau que tous les autres, nous pûmes pleurer. On hissa sur son support. Des femmes passaient et nous tendaient la main, nous offrant leur sourire comme un bouquet. Ça n'alla pas trop mal. La lâcheté des jours précédents nous serra le coeur, et nous détournâmes la tête pour ne plus voir les jets d'eaux qui rejoignaient les autres nuits. Mais plus tard s'acharna un mauvais hasard.

giovedì 11 dicembre 2014

Griot (MC Marechal)

Meus rap são minha vida neguin
No show eu passo o sentimento que eles tem
Brota na mente dos amigo é minha também
Na mente de quem nunca viu, que isso tio, esse cara é quem?
Pergunta aos melhor que tu ouviu sobre as influências de onde vêm
Respeito pelos tapa na cara pra cada linha
E pelo foda-se pras gravadora, não rendo e monto a minha
Invisto em rap de mensagem com cultura porra
E ao mesmo tempo faço funcionar as calculadora
Se eu faço por dinheiro, às vezes sim Dom
Din que eu não posso dispensar pra continuar fazendo som
O que eu quero? o que faz eu me sentir mais vivo
Pois eu já me senti livre, hoje eu quero é sentir que eu livro
Sem querer ser o melhor, longe desses papo de vaidade
Quer ser o melhor vai ser o melhor pra tua comunidade
Um som por semana? não sou esse tipo de MC
Eu faço um som por ano e tu não fica uma semana sem ouvir

Mensageiro sim senhor
Vagabundo se emociona
Porque sente o espírito dos ancestrais, Griot!
Eu vim pra provar que a cultura não acabou

Sou mensageiro sim senhor
Vagabundo se emociona
Porque sente o espírito dos ancestrais, Griot!

(Mensagem Griot)
Eu sou o exército de um só
Sem facção, só faço a minha
Na VK ( vila kenedy ) Joaquim Oliveira , Santa Mata
ou Rocinha
Se parar pra perguntar, morador, moradora
Vai ver que eu fui por amor
A mensagem ainda é duradora porra
No botequin, com a rapazeada
Chego de chinelin, alguns neguin da nada
Só eu e os meus cdzin, batida mais bolada
Que eu e meu irmão Luizin produzimos de madrugada, Aí
Eu imendo a rima galopada cadência dobrada
Que os cara virada do nada ja viram pra cá pra pirar na flipada
Kickada que para a quebrada, quem tava ali fora já vem dar uma olhada
Quem tava indo embora já para e repara ficaram de bob
Bolaram no pique jogada de rir, malabares embala a levada
Sou tipo velin da embolada, pandeiro bolado me da coordenada
Palavra colada que são dedicado pra todos menor já com a mente focada
Ligado que cada parada que eu falo libera a verdade desmanipulada
Ja to nessa porra de rap da antiga e aprendi que o importante é mensagem passada
E não rimo nada, que não seja de coração
Os cara fala, filho da puta ele tem dez pulmão
E eu largo esses tipo de flow, às vezes só pra chamar a atenção
E falo que flow não é porra nenhuma se não tem nada de informação né não?

Mensageiro sim senhor
Vagabundo se emociona
Porque sente o espírito dos ancestrais, Griot!
Eu vim pra provar que a cultura não acabou

(Mensagem Griot)
E eles dizem que eu sou louco, ainda acredito em movimento
Mais que gravar, quero semear algo de valor pro tempo
"Mas a pista é São Tomé Marecha, a pista é que é exemplo"
As batalhas falavam merda, eu fiz a do conhecimento
Pra ter voz geral trabalha, nós por nós
Malcolm X forma que for necessária
Em breve coleta de livros nos evento em várias áreas
Incentivo pra ter mais bibliotecas comunitarias
Depois das bibliotecas um centro de estudo avançado
Pra substituir as escolas, seus métodos atrasados
Nos preparam pra ser escravos, não incentivam o raciocínio
Deviam mostrar marcos da história mais parecidos com Plínio
Explicam o domínio de quem fabrica o dinheiro
Faz quem produz seu sonho e suborna seu travesseiro
Faz tu acreditar que só sobreviver ja tá maneiro
O jogo é sujo, segundo grau pra ser lixeiro
Geral ta sem dinheiro, eu to bolado
Que volte a época que os MC's eram mais politizados
E quando show com renda pra revolução for anunciado
Isso é papo de 10 minutos os ingressos ter esgotados
Estádio lotado geral mostrando o que somos
Sobreviventes no inferno mais de 50 mil manos
Alguns deles descalços, pois jamais nos deslumbramos
Preferimos morrer assim, sendo donos de onde pisamos
Jesus, João Batista, Pensador, Gogh, Brown, Rakim, Gentileza,
Gandhi, Mandela, Marley, Fela, Lutherking
Pra ser mais um to na pista, filosofia Um só Caminho
E os meios justificam-se agora porque essa porra não tem fim.

lunedì 1 dicembre 2014

Extensão

Os mapas decepcionam as viagens como
os calendários decepcionam os dias.

Vendo tudo isto de bem longe de mim, o espaço
é o lugar atrasado, só abriga as ausências.
Impróprio.
Como uma ampulheta escoando grãos de areia
no acontecimento.
Também enxergam os besouros, os sapos,
os cisnes. Também enrugam.

Eu me recolho.

venerdì 28 novembre 2014

Ivaluardjuk

Para Lucas

Drogas, entorpecentes, substâncias (como se nada mais fosse, como se algo fosse), alucinógenos, plantas de poder (como se elas tivessem um ministério ou uma secretaria de Estado), psicodélicos, ontodélicos, geodélicos, tóxicos. Não sei falar delas. Nem sequer sei se todas elas tem o mesmo pedigree...
- Os antropólogos, ou a maioria deles, não fala dos acoplamentos entre as gentes que eles estudam e as ervas que elas ingerem. O Sonho dos totemistas da Austrália é a visão primordial que aparece em uma forma de consciência alterada. Mas os antropólogos preferem não falar das ervas associadas aos totens. Preferem deixar os totens ilúcidos, diz o Lucas.
Deve ser, eu penso, que não há mesmo uma antropologia, porque cada humano é uma circuitaria que envolve muitos tipos diferentes de elementos não-humanos. Não há Terenas, não há Campas, não há Arandas, não há Totonacas a não ser como associações de ingestões, de digestões, de rejeições. Cada uma destes emaranhados tem que ser tecido e retecido todos os dias - com materiais anônimos ou com as almas comidas. Uma gestão. Não há um máximo fator comum puramente humano por trás das associações devoradoras com os não-humanos. É por isso, eu digo, que não temos palavras para esta flora e fauna constituintes. Alteração de consciência - como se a consciência estivesse pronta e fosse alterada. Há coletivos, com elementos intragestivos e extragestivos. O tubo é que é o rio por onde nunca passa a mesma boiada duas vezes.
- Mas quando é que um estado entre tantos, uma certa configuração biológica, passou a ter estabilidade e a lucidez virou uma substância selada, certificada, etiquetada e empacotada?
O Lucas pergunta da caça às bruxas microbióticas. Pergunta às nuvens de chuva se armando no fim da manhã de novembro. Pergunta a uma Silvia Federici que procure o capitalismo nos rastros das microbiotas. Um regime alimentar, eu digo, é um regime: nós aprendemos que somos onívoros, e que tudo é comida. Comida, não mais que comida. Não é dádiva do não-humano. Não é roubo do não-humano. Não é peregrinação ao não- humano. Nem é acordo com o não-humano. É comida. Como se comer um boi fosse como comer um musgo. E chamar todo o resto de comida - nós não somos comida - é uma camuflagem.
- Mas a digestão, ele diz. Nas horas da digestão, a humanidade está em risco no corpo. É preciso andar na ponta dos pés como se estivéssemos no meio de um campo de batalha. Almoçou e tomou banho...
Na barriga, o palmito grudou na costela; a medula revirava soltando polvilho. Era uma tontura destas que não é nem ribanceira acima ou ribanceira abaixo. Era um estrangeiro em mim, muito acomodado, que eu acossava. Eu me contorço disfarçado: colocamos muitos joules de energia do planeta a serviço de manter a humanidade humana. Repetindo uma receita de híbrido. É um trabalho feito na surdina, como tantos outros nos supermercados, por trás das embalagens, dos pacotes, dos trabalhadores mal-pagos que carregam toneladas de mantimentos para as prateleiras da loja.





lunedì 24 novembre 2014

Namenlos

Todo acontecimento tem uma medula?
E nasce de um grotão como o que se passa conosco?
Um Rilke citado por C. Virgil Gheorghiu na página 383 da edição Bertrand
que traduz A Vigésima Quinta Hora, bem na hora em que
Traian Koruga se mata com um tiro dos outros
no último campo:
Erde du Liebe, ich will...
Namenlos, bin ich zu dir entschlossen - von weit her.

Tudo o que vem à terra vem assim de weit?
Ou apenas nós, medula de aço, nos entregamos à terra
como estrangeiros desconhecidos?

giovedì 20 novembre 2014

Carnaval e catástrofes

Um post deste blog de fevereiro de 2008, inspirou o texto que publico com o Ricardo Lobato em um livro sobre Carnaval e Filosofia a ser publicado em breve. Copio aqui dois trechos (um do início e um do meio do artigo):

Nas vésperas do desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro de 2008, uma liminar da Justiça estadual impediu o desfile do carro alegórico que representava o terror dos campos de concentração e extermínio no enredo da Viradouro. O enredo tratava do que traz arrepio: dos maravilhamentos aos êxtases, dos medos aos horrores. A Shoah – a catástrofe judaica que adveio em concomitância com a Segunda Guerra Mundial - tem sido considerada um dos horrores da história recente e utilizada muitas vezes como parâmetro de massacre e extermínio,. Este parâmetro é usado nas comparações com a catástrofe palestina que se seguiu a 1948 (a Nakhba) , em outros massacres coloniais e até com o trato genocida de animais, como deixa explícito os discursos de Elizabeth Costelo no romance homônimo de Coetzee (2004). Ela é também uma medida das capacidades de controle pela destruição na modernidade (Bauman, 1989; Agamben, 2008). As imagens dos campos de concentração e das câmaras de gás se tornaram ícones do apavorante, da extrema violência e da crueldade na cultura ocidental. Muitos filmes, romances, peças de teatro e até mesmo poemas foram feitos sobre o extermínio como partes de diferentes mensagens e mostrando os acontecimentos sob diferentes vieses. Até então o tema não tinha aparecido nos desfiles de escolas de samba.

A liminar foi apresentada pela Federação Israelita do Rio de Janeiro alegando que o tema da Shoah era inapropriado para um desfile de carnaval, que tem espírito festivo e de alegria, humor, descontração e erotismo. Os desfiles não seriam lugar apropriado para pensar o horror – nem sequer sob a forma da questão sobre o corpo arrepiado – já que estão confinados à festa, onde não caberiam certos pensamentos. A liminar insinua que o tema da catástrofe judaica cabe em filmes, romances e até em poemas – mas não em desfiles de escola de samba. Que pensamento foi este que impediu a exibição do carro preparado pela Viradouro para representar a catástrofe? Aquele quinto carro teve que ser substituído por uma alegoria sobre a censura onde se lia “Liberdade ainda que tardia – Não se constrói futuro enterrando a história” em meio a pessoas amordaçadas – e uma imagem de Tiradentes. O carro com a escultura dos corpos retirados da câmara de gás não desfilou. Em seu lugar, o arrepio da mordaça.

Um dos elementos alegados pelo pedido de proibição da exibição da alegoria pela Federação Israelita do Rio de Janeiro foi o plano do carnavalesco, Paulo Barros, de colocar um passista vestido de Hitler sobre o carro no desfile. Paulo Barros havia já vinha introduzindo inovações em carros alegóricos nos desfiles que fez para a Unidos da Tijuca desde 2004. A concepção de Barros era de colocar elementos humanos na escultura das alegorias – e ao invés de passistas sobre um púlpito, ele introduziu dançarinos em grande quantidade fazendo movimentos sincronizados. A sincronia da dança dava um elemento vivo à alegoria ela mesma, e os movimentos refletiam eles também elementos do enredo. Foi assim com o carro do DNA onde pessoas pintadas de azul faziam movimentos espiralados. Também foi assim com os amordaçados que vieram na alegoria que substituiu aquela que havia sido proibida: pessoas amordaçadas faziam movimentos sincronizados, não dançavam samba, não eram passistas. Na Viradouro, Barros pretendia com este enredo transversal, tentar pensar o arrepio que, como algumas outras reações corporais, responde a humores muito distintos.

[...]

Nos últimos 50 anos, as escolas de samba aceleraram sua história tornando possíveis muitas transformações que vieram a permitir que diferentes coisas passassem a ser tematizáveis nos desfiles. Um elemento importante introduzido pelos desfiles do Salgueiro de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues nos anos 60 e início dos anos 70 foi os temas da história africana do Brasil. Pamplona, formado na Escola de Belas Artes do Rio e cenógrafo do Teatro Municipal, entrou no carnaval do Salgueiro em 1960 e procurou um enredo histórico ainda não abordado pelos desfiles no passado. Obteve naquele ano o primeiro título para o Salgueiro com o enredo sobre Zumbi dos Palmares. Em 1963 o Salgueiro ganhou outra vez o carnaval sozinho pela primeira vez com um enredo que tratava de Chica da Silva, como uma heroína negra. No ano seguinte, foi a vez de Chico Rei.

O desfile de 1964 foi, portanto, sobre a Maafa – a catástrofe africana. A Maafa foi composta pela organização de campos de trabalho forçado em dois ou três continentes, pelo organização da vida das pessoas em função da produção, do tráfico sistemático de pessoas e do extermínio de todos aqueles considerados inadequados para o regime de escravidão (ver, por exemplo, Roberson 1995) Assim como a Shoah ou outras catástrofes, a Maafa também foi um episódio (longo) de escravização e genocídio cometido de maneira sistemática e legitimada de tal maneira que não havia espaço, no sistema escravagista, para nenhum recurso, nenhum apelo, nenhuma instância de implementação de justiça. Assim como a catástrofe judaica, a catástrofe africana também é vista pela história dos vencedores como o massacre contra um povo (ou um conjunto dos povos). Do ponto de vista dos escravizados e dizimados, trata-se de um ataque sem razão nenhuma. Sem presságio. Sem antecedentes. Sem fio condutor. Como diz o samba do Salgueiro daquele ano, “um dia, ...[a] tranquilidade sucumbiu, quando os portugueses invadiram, capturando homens para fazê-los escravos no Brasil”.

A história contada no enredo do Salgueiro – a de Chico Rei – é uma história de adaptação ao status quo escravocrata. O rei capturado compra sua alforria – e a alforria de seu pessoal – e depois compra terras e tem escravos, adota o nome de Francisco e se converte ao catolicismo e, por fim, ergue a igreja de Santa Efigênia do Alto da Cruz em Ouro Preto, uma igreja para os negros alforriados. Trata-se de uma história de cooptação do escravo – mas também, como viu o enredo de Pamplona, de uma história negra de êxito. Uma história, contudo, traçada pela migração forçada, pelas mortes precoces e pelo assassinato dos inábeis. Também pela destituição de toda uma maneira de pensar e de saber – a cooptação de Chico Rei coroa um epistemicídio sistemático.
Os carros de navios negreiros, com todo seu sofrimento e desolação, passaram a se multiplicar nos desfiles. O tema já havia sido enredo do Salgueiro em 1957 (“Navio Negreiro”), e continuou sendo uma constante nos carnavais. Por exemplo, em 2012 dois carros exuberantes de navios negreiros entraram na avenida, da Beija-Flor (em “São Luís – Poema Encantado de Amor”) e da Vila Isabel (em “Você Semba De Lá Que Eu Sambo De Cá – o Canto Livre de Angola”). Nestas alegorias, frequentemente há passistas que seguem a cadência da escola, sorriem e dançam. Talvez se possa dizer que a presença dos navios negreiros banalizou a Maafa e que, talvez, a liminar procurou evitar que o mesmo se desse com a Shoah. O argumento não está presente nos documentos que nortearam a proibição do carro alegórico da Viradouro em 2008 que não faz nenhuma menção à catástrofe africana e nem sequer ao que aparece nos desfiles das escolas nos últimos anos.

Porém o argumento em si mesmo é duvidoso: os muitos carros alegóricos fizeram parte de uma presença constante do tema da catástrofe africana no carnaval em um país onde não há sequer um museu dedicado ao massacre perpetrado pelo status quo brasileiro e por seu antecedente colonial. Ainda que possa ter banalizado a associação entre carnaval e navios negreiros, as alegorias fixaram na cabeça do público que foi através de navios de concentração que a população africana chegou para quase toda morrer nos campos de trabalhos forçados no Brasil. Os carros também evocam a destituição dos coletivos que foi a catástrofe africana. Talvez um efeito similar pudesse ser alcançado com alegorias como aquela que Paulo Barros tentou colocar na Sapucaí. Talvez a história de muitos judeus, ciganos e outras vítimas da Shoah no Brasil ficasse evidenciada e refletida pela alegoria. De todo modo, aquilo que os desfiles promovem é múltiplo: é da ordem de um resgate de uma identidade, mas também da capacidade de crueldade, da memória e, potencialmente, do arrepiante.

Neurogenesis (by divij b.c)

Freaked out on the stair,
while staring at a hunchbacks flair.
soon he damn turned in to a flare.
Flames caught the curious eyes of a baby picture
collapsed in to pieces of a feathered creature,
tried to cry on the death of a faceless preacher.
Did i make this human portrait
which looks like a piece of wrinkled paper.

mercoledì 19 novembre 2014

Yes, indeed, words and us teach each other

fragmented, fragmented
tormented, tormented
demented, demented
cemented, cemented

i got it


venerdì 31 ottobre 2014

Colcheias soltas

Ao L. A. de Lima, que sabe lesmar


encontrei um pente fino
branco, daqueles que vem com os remédios
de exterminar piolhos da cabeça.

eu que sou acéfalo
passo o pente nas escritas do mundo
já que entre os fios das literalidades
tem muitas lêndeas de analogia
ou patas de metáfora.

largo as sobras na beira do rio
em uma pedra cheia de musgos.

como dentro dos conceitos só há cadência,
ficam colcheias escorregando no limo
como Luis Augusto de Lima
escorregando em um saco de dormir
pela sua cozinha
untada de manteiga.

venerdì 24 ottobre 2014

Sobre catástrofes (e não holocaustos)

Me perguntaram sobre a Nakhba e a Shoah depois de ver o filme
sobre os limoeiros de Salma.
Na história dos vencedores, uma justifica a outra:
uma ---------- a outra.
A história é dos vencidos
é a de quem viu o assombro chegar sorrateiro:
o outro que devasta,
o outro que pisoteia e é
demasiadamente humano e
pisoteia e devasta não os judeus ou os palestinos.
Quem morreu na Shoah, quem morreu na Nakhba,
morreu por porra nenhuma.