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martedì 10 gennaio 2017

O medo da soberba

Ontem nas margens do Veredinha
falava com Guto da hospitalidade
aquela que as igrejas evangélicas fazem
nas nossas cidades.
Se houvesse uma completa igualdade
não haveria um espaço de acolhida
em que pudesse a hospitalidade se exercer.
E ele me disse: como assim.
pensemos em um exemplo.
Se houvesse igualdade material
todos os que chegassem em Brazlândia
teriam já casa e comida
(cada um tem seu tempo
e o tempo é alguma coisa que é sempre
diferente. Por isso não pensamos
senão em uma igualdade material, e
acreditamos que entendemos o que estamos
dizendo.)
Pois bem, ele retrucou, eu moro no 301
e você no 101, quando você chega na minha casa
você já precisa de um copo d'água.
Mas se a igualdade material for completa
todos sempre vão ter água para beber,
na mesma quantidade,
na mesma condição.
Ah sim, tudo isso é uma fantasia
para entender o acolhimento.
Mas quem vai prover tudo isso
- sim um grande provedor.

Hoje então sonhei: quem seria esse
grande provedor? Uma estrutura burocrática?
Sim, já há funcionários e muitos deles.
Mas não podem fazer isso com perfeição,
isso nunca é perfeito.
Quem disse esses últimos versos?
E no meu sonho apareceu a cara do arquiteto
mouro de Andaluz
que construía pequenas imperfeicões
porque a perfeição é um pecado
de soberba.

lunedì 19 dicembre 2016

oui, c'est la force

Dias correndo pelos corredores,
atravancados de livros, cachos de
cabelo, árvores de natal empacotadas,
cimento.

O quarto de Cortès, minúsculo,
e com uma janela para os campos
e os montes
e os deuses. O quarto de Achebe
que é banheiro, que é cozinha
e que cheira o bafo das coisas
antes dos pacotes.
O quarto de Trump ao lado de uma
ante-sala onde vivia Chamberlain;
automático e com um botão dourado
em cima da mesa ao lado da canapé.
Não há violência sem hospitalidade.
Não há força sem concessão.

sabato 17 dicembre 2016

Me deixar entender

Deve ser sobre zumbidos sumidos
tic-tac-tic-tac, no tempo dos outros.

No entanto o ofício das palavras é colocar cada um dos pedaços de trilho para o trem passar
e depois mudar de rota.

Ana Lama

Um dos da inauguração da Galeria Ana Lama embaixo da calçada da Sé, Lisboa:

Alguns traços anarqueológicos e lamarqueológicos de
Ana Lama em Londres, Brighton, Bruxelas e Calais

Preliminares metodológicas
O passado é um emaranhado de datas; as datas tem por natureza entulharem-se umas sobre as outras – as farsas se amontoam sobre as tragédias, as ordens constituídas se amontoam sobre os eventos constituintes. O passado, porém, é também outrora, uma outra hora, já que o tempo é sempre o que interrompe as presente e o que traz alguma coisa à presença. O passado arqueológico é o passado das datas: épocas, eras, idades. Assim também é o passado geológico que faz das camadas do chão um arquivo de sedimentações que registra sucessões, simultaneidade e ritmos. O passado anarqueológico é um passado alheio às datas, a anarqueologia estuda um tempo sem atentar ao tempo anterior e ao tempo que lhe segue. O passado anarqueológico é um passado feito de marcas e não feito antes das marcas – assim, ele é como uma assombração, como um ramo da espectrologia, atávica, virtual e também reinventado a cada aparição. O passado lamarqueológico é também alheio às eras; na lama o chão tem menos gramática expositiva, já que os traços na lama se embrenham e toda catábase é dissolução. O passado da lamarqueologia não se data, é o passado não da história, mas das histórias que contamos uns aos outros e onde o Chluthluceno de Donna Haraway se ergue em uma anábase no centro de gravidade do antropoceno. A lama é o chão onde a sedimentação se dissolve, onde as épocas se contemporanizam. De um ponto de vista anarqueológico e lamarqueológico, não falaremos de datas; talvez apenas de uma vez que era ou de outra vez que era.

Um dos elementos que distinguem a anarqueologia da arqueologia é portanto o tratamento da datação e um dos elementos que distinguem a lamarqueologia da geologia é o tratamento das eras, épocas e idades. O estudo do passado recente de Ana Lama se presta a esta metodologia porque todo intento de datar suas possíveis passagens por Londres, Brighton, Bruxelas e Calais se mostraram tanto pouco frutíferas quanto um pouco fictícias. Não podemos estabelecer – e isso apela a uma metodologia anarqueológica e lamarqueológica – o que veio antes, o que veio durante e o que ainda vem. Ademais, Ana Lama parece ter estado convencida por muito tempo que os efeitos de seus gestos se espalham de uma maneira e fabricar contemporaneidades onde antes haviam apenas badaladas sucessivas de relógios feitos de eventos e contratempos. E não havia como separar seus atos de seus efeitos. Está estabelecido que Ana Lama teria desaparecido oficialmente em 2015; porém é claro para a anarqueologia e a lamarqueologia que o estudo de seus traços se limite aos que estejam datados para além desse ano; seu desaparecimento deixou marcas em todo o seu trabalho curatorial já que ela se ocupou de espalhar invisibilidade. Ana Lama precisava que seus gestos contra-normais que entendia como cosmeresias fossem o mais distante possíveis da teatricalidade das galerias e palcos, e também das datas marcadas. Para ela, a arte possível era a arte absorvida e o trompe d'oeuil possível é aquele que mescla quem vê e quem pousa para ser visto – o outrora teria que estar absorvido naquilo que sempre vemos. Quando fez a orelha de Van Gogh e Gente que desconheço, talvez em 2011 ou 2016 ou em 2018, interessava-lhe o exercício de absorver pela escuta, ainda que produzindo o gesto insólito; a hospitalidade deve fazer a normalidade se tornar atípica, incomoda, impossível e, ao mesmo tempo, quem hospeda está em sua casa, está em si mesmo, suporta o peso de estar presente como aquilo que absorve. Ainda que presente, Ana Lama estava já desaparecida – pelo menos desaparecida dos anos que se repetem como ladainhas de calendário, um após e o outro e cada um seguindo à risca o anterior.

Duas iniciativas VRP
As vulnerabilidade radical pura (VRP) de Ana Lama a teriam levado em direção ao seu desaparecimento – como desaparecem com poucos traços os refugiados, os clandestinos, os ilegais; quantos além de Ana Lama desapareceram em Calais? Ana Lama conseguiu se tornar uma destas fugitivas que fogem e refogem, que ficam fugidos e refugidos. Não entregou seus papéis a milhares de albanesas, sudanesas, afegãs e líbias, mas trocou com eles a invisibilidade – para que alguém possa ser visto, é preciso que alguém deixe de ser visto. Ela trocou visibilidade por clandestinidade; que ela, portuguesa, egressa de Goldsmiths, curadora fique invisível e não a síria que nem faz performance como performance e nem faz instalação como instalação. Essa iniciativa de Ana Lama chamamos de 1in1out. Trata-se de poder dizer aos poderes que instituem os estados: se é possível conceder apenas a alguns tantos as vossas cidadanias, se alguns saem outros podem entrar. Outros podem ser os franceses que esperam o Beaujolais de fim de outono ou os ingleses que bebem chá com torrada e feijão. Outros podem ser os teus cidadãos e outros podem ter aquilo que é meu que só é meu se eu puder alienar. Pensar que a cidadania é um direito que só pode ser meu se eu puder fazer dele um abrigo, algo que pode receber um outro – como minha casa, meu ouvido ou meu tempo. Ana Lama encontrou uma maneira de alienar cidadania – direito não pode ser inalienável, inalienável é uma condenação.

Acreditamos que por meio de 1in1out Ana Lama conseguiu dar cidadania a 100 novos franceses e a 100 novos ingleses sem retirar de ninguém suas identidades. Para descobrir como ela procedeu, estamos tentando replicar os passos de sua iniciativa. Começamos com uma lista de pessoas dispostas a tornarem-se clandestinas para que outras possam se beneficiar de sua legalidade – pessoas dispostas a entregarem sua cidadania a outros. Ana Lama conseguiu que essa lista fosse considerada por alguma instituição que transferiu a cidadania porém não a identidade para 100 neo-franceses e neo-ingleses e portanto também à 200 neo-sírios, neo-líbios ou neo-sudaneses. Não é claro por que meio ela conseguiu esse sucesso em sua iniciativa, e uma boa parte dos nossos esforços anarqueológicos e lamarqueológicos é encontrar os meandros legais e extra-legais por que passou Ana Lama para conseguir êxito em sua iniciativa. A passagem dos tempos nos campos de refugiados são outroras incontáveis e não sabemos quantas era uma vez passou Ana Lama na jungle de Calais. Sabemos que em muitos lugares de Brighton e Bruxelas se encontram vestígios da iniciativa 1in1out que remete a uma página na internet há pouco ainda ativa e que explica a iniciativa e dá acesso a um formulário para quem quer deixar sua cidadania disponível. Como anarqueólogos, nos apropriamos desta página (os anarqueólogos, como os lamarqueólogos, não procuram preservar seus vestígios, mas fazê-los funcionar, pô-los em ação). Uma vez apropriada essa página, tentamos obter a lista de voluntários através do formulário que ela dá acesso e, em seguida, tentamos obter das autoridades respostas sobre como concretizar a empreitada. Em uma comunicação com a embaixada da Bélgica em Londres

Em uma outra iniciativa, Ana Lama conseguiu um número ainda indeterminado de pessoas dispostas a doar sua cidadania depois de sua morte. O princípio, DonateYourCitizenship, permite que se possa doar cidadania como se doa rins, fígado ou olhos em vida para serem extraídos e transplantados post-mortem. A ideia é precisamente evitar que cidadanias saudáveis possam apodrecer ou desaparecer se podem ser utilizadas por pessoas com cidadanias deficientes. A imagem, como mostram as evidências das campanhas de doação do outros órgãos de que participou Ana Lama, era médica: órgãos saudáveis para pessoas que têm órgãos inabilitados, cidadanias aceitadas para pessoas que têm cidadanias desguarnecedoras. Acreditamos que Ana Lama entendia a cidadania como um órgão e suas materialidades como utensílios. Ela deixava sempre seus passaportes em bibliotecas e livrarias, onde poderiam ser encontrados, carregados como quem faz um shoplifting do que foi objeto de um shopputting e mesmo catalogado pelas autoridades responsáveis pelos livros que assim fazem com que os passaportes possam ser emprestados ou vendidos como pequenos livros úteis em uma viagem. Parece que ela chamava este trabalho algo como o livro que é a melhor nave. Ana Lama fez imprimir cartões de doação como o de Gonca Bahar, que encontramos em Londres no Finnsbury Park, passeando com seu cachorro Mio. Gonca, filha de turca e iraniano e com cidadania britânica, disse que carregava sempre consigo o seguinte cartão:
I donate all my organs including eyes and citizenship

venerdì 25 novembre 2016

Sobre a intensificação da colonização

Ser de um país que te transforma em mendigo.


domenica 20 novembre 2016

Todtnauberg

Ontem fui com Gerson a Todtnauberg.
Nevava.
Procuramos a hütte procurada pelas colinas
e nos aproximamos de algumas outras
que poderiam ter sido
e que não eram.
Fomos em direção àquela hütte,
umas imagens no google, umas indicações em placas verdes
no caminho "Martin Heidegger's Hütte".
Mas no meio do caminho nevado, o silêncio.
Nenhuma placa mais.

Paramos no albergue de juventude e só na saída, enquanto
eu tentava limpar uma placa verde de neve (sem silêncio)
foi que Gerson encontrou Mano Alvaiade ao lado do porta-mala aberto
de um carro preto: por ali.

Na segunda hütte, já de frente à Rütte,
comparamos as janelas,
as portas, os degraus da escada
e como o telhado na parte de trás da casa
se emendava com a inclinação da montanha.
As madeiras, os revestimentos eram outros,
mas havia um esqueleto que correspondia,
correspondia.

Copio aqui uma tradução do poema de Celan:

TRANSLATED BY PIERRE JORIS

Arnica, eyebright, the
draft from the well with the
star-die on top,

in the
Hütte,

written in the book
—whose name did it record
before mine?—,
in this book
the line about
a hope, today,
for a thinker's
word
to come,
in the heart,

forest sward, unleveled,
orchis and orchis, singly,

raw exchanges, later, while driving,
clearly,

he who drives us, the mensch,
he also hears it,

the half-
trod log-
trails on the highmoor,

humidity,
much.

mercoledì 12 ottobre 2016

Adianta tudo

Sobreveio a mim o messias do dia: um moço com dez anos de yeshivah
me fazendo contar (como se isso pudesse ser contado)
que eu confundi çarşamba com perşembe.

Ou seja,
hoje com amanhã.
Não que hoje é amanhã e nem que amanhã é hoje.
Mas que o dia de Kippur que é hoje
era amanhã.
Eu fiz com ele as contas persuadido que estava
de que o calendário me diria perşembe
e no entanto as contas disseram hoje - çarşamba.

Kippur-perşembe era preparado, esperado e tinha o peso do futuro
marcado,
o futuro que é previsível: um dia da desculpa
que é também um dia de culpa
e um dia de questões
(que em geral vem atormentadas
ainda que de uma tormenta
que dura só um dia):
porque jejuar?
por que não jejuar?
Questões indecidíveis.

Dia de medo, dia de irresponsabilidade,
dia de atrevimento, dia de obediência.

Tudo isso estava no Kippur-perşembe
mas por um milagre do tempo presente
não está no Kippur-çarşamba
já que o moço dos dez anos de yeshivah me apareceu hoje,
às 3 da tarde,
na hora do vão das preces
para quem jejua todo o dia.
E me disse: já não creio,
vês, estou comendo.

O kippur-çarşamba não é um Kippur
projetado, ele é lançado sobre mim,
ainda que por um erro de contas.
Os erros são milagres e são messias.
Um messias, que adianta o dia,
que libera o amanhã.

NOTA: Minha mãe dizia de quem estava mal-informado
que confundia çarşamba com perşembe
(ou seja, em turco, quarta-feira com quinta-feira)

domenica 9 ottobre 2016

Adiário

...aquela rua com sanduíches de pão e queijo no verão...
um sopro, e eu de galeria em galeria
de loja limpa em loja limpa
vomito.

mort au capital / tiro uma fotografia
não tiro.

quando eu quis deixar de ser humano
me cresceram as turbinas, os sacos plásticos,
os rabos de ratazanas
e se tornaram estranhos os meus cios.

le temps au delà de l'être / como um Prato de falafel
não como.

são tão enormes os desejos...
maiores que os planetas mas sem formas,
sem cor, sem direção. vultos.
ou nem vultos, ecos distorcidos,
descentralizações.
- Veja aqui na sua frente o que você quer.
- Ah, então é isso?
- É bem isso, não é isso que você quer?
- Não sei.
Queria querer dizer assim:
- E se algum dia ninguém me mostrar o que eu quero?
Como vou encontrar o que procurar?
Esses planetas são maiores do que tudo o que eu enxergo,
tudo o que eu penso, tudo o que eu espero.

les animaux veulent sortir de la jungle / acho os congoleses mansos
não acho.

um pé dentro de casa, um pé fora de casa,
estar habitado por um meteoro,
estar sem pé.
veio uma nuvem e me deixou ouriço
virado do avesso; como quando vinha um vento
agora não veio.


sabato 8 ottobre 2016

A esta altura

Então, arbusto, é isso. É isso?
Teus gravetos caem, tuas folhas secam, teus verdes escurecem.
Concentras tudo o que sobrou nas tuas pitangas -
sabendo que também tem uma manga para dar,
e gostarias de manufaturar peras.
Mas elas vão ser sabores das tuas pitangas. É isso?
Não, não é porque tenho saudades dos prazeres
que não me lembro quais são.
E arbusto eu fujo.
Inventaria outro prazer, que não é florir.
Nem é ir e vir
e nem sequer é fugir. Não sou arbusto
das folhas-bandeira,
nem sequer sou vegetal quando tudo o que há na minha seiva
é lingua morta
é letra morta
é arqueologia.
Uma vez achei jogado no chão
a satisfação das minhas necessidades
mas não tinha satisfação porque as necessidades
são colônias de elefantes
e a satisfação é bicicleta.
Mas agora, outra vez e depois outra vez,
eu arbusto que solto pitanga
não vou achar na rua o carvão e titânio,
um gosto como o de uma fruta,
uma luva.
Faço com as mãos uns dedos que não entram nela.
Descoplado.
Saio com a alma ardida no outono vestindo um sapato
que me faz andar na ponta dos pés.
Tu não preferes agora andar pouco
e ficar calado?



Erotex & Dyonisina no MAR mês passado

giovedì 15 settembre 2016

Erotex e Dyonisina

Meu texto para o evento de amanhã no MAR
Erotex e Dyonisina:
amor e sexualidade na farmácia contemporânea
Hilan Bensusan


Sim, há o alarido. Eu escuto barulhos. Pessoas gargalhando, convulsões, compulsões, pessoas gemendo. De perto, parece alguma coisa contagiante, um rio que arrasta as bordas com ele. De longe, dos quilômetros incontáveis que um consultório tem da coisa, eles parecem um surto, ou uma condição, ou uma pulsação do corpo, ou um caso. De perto, é coisa que está na medida de quem ri, de quem geme, de quem ri e geme ou de quem acompanha o contágio. O contágio é assunto de intensidades: para quem geme ou ri, não há terceira pessoa que contempla o excitante e o engraçado. Não há um vão entre o erótico e o corpo, entre o dionisíaco e o corpo, eles estão lado a lado, perto. É certo que Eros e Dyonisos são afeitos às máscaras, a tirar roupas quando querem, a se esconder na moita quando precisam, a provocar fingimentos – Eros e Dyonisos, são como toda physis e tem disfarces e esconderijos: kriptestai philei, como disse Heráclito. As máscaras também gemem e gargalham, porque suas caras gemem e gargalham. De longe, elas são episódios da história do corpo. De longe, quantos quilômetros? Na lonjura de um consultório, mesmo de um consultório cheio de gemidos e gargalhadas. Que perto é esse? Que lonjura é essa? O rio que arrasta as bordas com ele não é o rio do mapa – talvez seja apenas o rio da minha aldeia – mas seria possível fazer um mapa de cada pedaço de borda que é arrastado por cada pedaço do rio, mesmo que ele nunca seja o mesmo duas vezes, basta que alguma aproximação de repetição possa ser detectada. Um mapa não precisa que haja permanência, basta a ele focar em um ponto fixo – e ele alavanca uma permanência. Se permanência não há, ele consegue inventá-la. De longe, mais longe que qualquer distância perto por perto, todo corpo tem uma anatomia. E toda anatomia guarda destino.

Sim, há o alarido: anatomia é destino – o DNA que rege órgão por órgão, a coisa epigenética que rege superfície por superfície, os hormônios que regem cutícula por cutícula. O corpo erotizado e o corpo divertido tem anatomias. Anatomias que cabem em mapas. Eros e Dyonisos, se amam esconder-se, se escondem nas entranhas das anatomias, nas suas concavidades, nos seus segredos e secreções. Onde quer que eles se escondam, se eles estão em algum lugar do mapa da anatomia, eles estão embrenhados no meandro dos fatos. É um meandro tortuoso, turbulento, movediço, truculento, mas é um meandro dos fatos. Fatos podem ser encontrados, contemplados, descritos – ainda que eles escapem das nossas mãos pois eles são feitos do que é feita a descrição de uma terceira pessoa que, já não de perto, os contempla. Se Eros e Dyonisos se embrenham no meio dos fatos, eles estão em algum lugar e fazem alguma coisa – estão disponíveis para serem relatados em um boletim de ocorrência; ou como se diz mais frequentemente, seu paradeiro pode ser descoberto já que responde a… questões de fato. Eles não estão enroscados em situações, em gestos, em momentos, e nem sequer em ritmos, em badaladas, em baladas – eles são questões de fato. Há algum lugar dentro da cartografia dos fatos em que eles ficam: Eros e Dyonisos, junto dos neurônios, trepados sobre os hormônios, como um demônio que, dizem as más línguas, mora lá longe e trabalha e chacoalha no trem da central. Eros e Dyonisos anatomizados, cartografados. Anatomia é destino; há fatos anatômicos e é por isso que eles carregam o destino, trata-se de fado, de estar fadado. O fato não é apenas o que passou, é o que passou e que vai continuar passando porque fatos enfatuam, deixam as coisas enfatuadas. Os meandros dos fatos enfatuam Eros e Dyonisos, eles passam a ter endereço certo e assim ficam à disposição. Quanto à cultura contemporânea de Eros e Dyonisos, ela é fatista. A cultura contemporânea é a farmácia contemporânea. Ou, pelo menos, a porta de entrada da farmácia.

[tirando o jaleco] Mas é muito agressivo falar de fatos. É como comparecer ao encontro dos deuses ou dos vermes, dos pedidos, dos imaginados e dos futuros contingentes sempre armado. Não seria melhor ir de mãos vazias? [bota o jaleco]

Sim, há um alarido. Eu escuto. Parece uma coisa, uma coisa muito perto e ao mesmo tempo sem lugar certo. Alguma coisa fora dos fatos, alguma nódoa. Como um Eros que não está fadado, um Dyonisos que não é uma questão de fato, uma sombra como se a vida, o prazer e o gozo pudessem ser outra coisa, uma coisa, como uma coisa que morre e que leva para o chão o que carrega um rio que arrasta suas bordas com ele. Já no tempo do fatismo, não há outra cultura e nem outra farmácia senão a contemporânea – a história é a história dos fatos; ou então a história da descoberta dos fatos. Os hormônios e neurônios sempre foram o endereço de Eros, Dyonisos. Só que Eros visto de perto cega, é preciso que entre em cena um consultório, um observatório de fatos, para que ele já não possa mais se esconder quando bem entender. Só que Dyonisos misturado na embriaguez pode dar no pé como um Zé Pilintra, é preciso que ele possa ser posto em fatos, dissecado em reações inexoráveis. O tempo fatista procura puxar o fio de um inexorável; por as coisas em um nexo em que elas não possam sair – Jabés escreveu que um sábio dizia que uma necessidade leva sempre a uma outra necessidade. É de fatos acerca da anatomia que é feito todo Eros, todo Dyonisos. E há alaridos, alaridos de perto, como os últimos dos vaga-lumes que Pasolini uma vez escreveu que desapareciam da Itália. Seu desaparecimento significou o fim de qualquer outra Lebensformen, ele usa a palavra de Wittgenstein, que se contrapusesse ao fascismo – como se subitamente em algum momento de uma arqueologia do que é contemporâneo – que ele encontra em algum ponto da primeira metade dos anos 1960 – o fascismo tivesse se tornado inexorável, não mais como uma máscara, mas como uma anatomia.

Heidegger escreveu na terceira das conferências do seu Einblick in was das ist acerca daquilo que procura fazer com que as coisas estejam sempre à mostra. Aquilo que não deixa que elas se escondam ainda que mantivessem sempre um vão com quem as trata – um Abstand. Trata-se de um impulso de perseguir as coisas, de torná-las cativas, controladas. Quem está perseguido, está em perigo. O perigo é regime do ser que prepondera diante de uma pulsão posicionadora, de um arranjo, de um dispositivo. O ser é aquele que está perseguido, como Eros e Dyonisos postos a se embrenharem nos meandros dos fatos. Ele começa assim: Das Ge-Stell bestellt den Bestand. O que poderia ser: o dispositivo dispõe (d)a disponibilidade. Alguma coisa, uma coisa?, dispõe a disponibilidade, dispõe que é talvez fazer uso, ocupar, poder des-por, poder imperar como um déspota – ter prevalência. Dispõe também é instaurar – como quando uma lei dispõe – faz com que seja, promove um começo. Dispor é assim comandar alguma coisa, e começar alguma coisa. Um parente insuspeito da arché – governo e origem. A disponibilidade é aquilo que pode ou não ocorrer, o que está disponível é o que está posto para jogo, o que está à disposição. Entre uma potência e sua atualização há um vão, o vão da disponibilidade, para que algo venha e faça ou não a atualização. Entre a coisa e sua coisação – como diz Heidegger, com sua expressão de que a coisa coisa – há um Abstand. É nele que pode haver uma interferência de quem dispõe, de quem pode dispor. Porém quem dispõe a disponibilidade? O dispositivo, Ge-Stell. Aquilo que está disponível é como um recurso, algo que pode ser usado já que está guardado – como Eros e Dyonisos no endereço certo, prontos para uso. Assim, o erótico e o dionisíaco estão armazenados nos meandros de fatos que compõem o corpo – e se estão, são como recursos, prontos para serem postos em atividade, prontos para o trabalho, en-ergeia, o termo de Aristóteles para ato: em serviço. Corpos, vistos pela anatomia, são recursos e é dessa maneira que neles há o erótico e o dionisíaco. Uma vez que os recursos podem ser encontrados, já há, segundo Heidegger, um dispositivo uma vez que o que virou recurso já está à disposição, controlado, governado, domesticado e fora do âmbito em que a coisa coisa – do âmbito do rio que arrasta as bordas com ele. É assim Ge-Stell: o dispositivo que dispõe dos recursos. Não ainda o dispositivo, mas sua essência, aquilo que torna-o possível.

Já que a cultura contemporânea é cada vez mais a farmácia contemporânea, e é um fatismo que a molda, os humores, as atrações, as excitações e os prazeres do corpo são cada vez mais recursos para dispositivos. A anatomia é talvez o corpo-Ge-Stell. A farmácia contemporânea é para onde se transferiram, como em uma campanha de remoção de favelas para construir bairros com endereços certos, os estados de espírito, as disposições do corpo e também os géneros. Sim, o trabalho de Paul B. Preciado sugere que a diferença sexual ela mesma é farmacológica. A experiência trans é empurrada para uma quadro fatista – por exemplo: um fato é que eu sou uma mulher em um corpo de homem, como poderia ser um catador de lixo com roupa de consultório (ou de laboratório). Empurrada assim, a experiência trans pode ser monitorada por profissionais – os entendidos dos fatos – e é uma questão de acesso aos recursos. Dito de outra maneira, ela é empurrada para a farmácia contemporânea, junto com Eros e Dyonisos. A cultura? Ela é algo imaterial, dizem. Como por exemplo
o vapor / a fumaça
que é aspergido / que exala
dos frascos / dos defumadores
nessa sala. E o que exala? Pois precisamente Eros e Dyonisos; na forma de anti-depressivos, estrogênio e viagra. Eles dispõem de uma disponibilidade nos meandros dos corpos aqui presentes. E eles são o que são – e vendidos nas farmácias contemporâneas de toda esquina – por causa do fatismo que rege sobre Eros e Dyonisos. E é assim que tratamos a nós mesmos cada vez mais: fazemos com que a coisa coise, controlamos os nossos corpos porque nossos corpos estão controláveis, estão à disposição – nós os governamos, mas apenas porque eles são tidos como governáveis. Quem governa os corpos governáveis? Talvez quem exale / aspirja as proporções de Eros e Dyonisos inseridos no ar.

[tirando o jaleco] Mas nem sempre esses dispositivos vem inteiros, em uma peça só, como uma substância aristotélica feita tanto de matéria como de forma. Nas farmácias contemporâneas eu entendo que os anti-depressivos, o estrogênio e o viagra vem embalados em caixas e dentro delas vem uma bula – uma posologia. Porém nos lixões contemporâneos, nos aterros sanitários contemporâneos, nos esgotos contemporâneos, eles vem em pedaços – matéria já desprovida de forma. Ali um pedaço de maçã apodrece com um anti-depressivo, uma cerveja choca dissolve um estrogênio, uma poça de água dilui um viagra. Os dispositivos se tornam ali uma materialidade; uma materialidade ela mesma disponível mas que não alcança a disponibilidade de coisa alguma – é como um dispositivo sem anatomia, sem mapa, sem eira nem beira. Um dispositivo sem posição. E ali, a cultura contemporânea se torna uma constituinte de corpos que são afetados, mas sem tê-los à disposição. O lixo é o nada contemporâneo, porque os fatos ali se tornam o completamente outro do recurso, o avesso do disponível, o rejeitado, o entulho que é colocado à disposição do desaparecimento. E como completamente outro do recurso, também está disposto porém sem endereço certo, sem posologia, sem mapa. Estamira não encontra fatos no lixão, esbarra quem sabe com o avesso dos fatos – ela navega pelo escorregadio das gambiarras já que é como se o chorume produzisse o avesso das condições normais dos laboratórios. Estamira não trabalha com condições ceteris paribus. Achar um pedaço de pílula no lixão é encontrar também o avesso da farmácia contemporânea; nada está a disposição para aquele dispositivo sem posição. E no entanto, sem caixa, sem plástico, sem forma definida, a matéria fica perto – desprovida da distância e, mais ainda, da lonjura do sem-distância de Ge-Stell. Aqui a pílula simplesmente pilula, o pedaço se despedaça, o solúvel se dissolve e a coisa coisa.

O corpo da anatomia é um recurso. Está à disposição. A farmácia contemporânea o explora com seus dispositivos, e assim o patrocina como recurso. Não se trata de deixar o corpo corpar como a coisa coisa, já que há fatos acerca deles aos quais se deve atender – atender aos fatos dos corpos. Atender ao que há de pronto nele e que se acopla ao resto do mundo sem mesmo a intervenção de um qualquer poder de escapar do seu próprio corpo; fato é fado, anatomia é destino. Há uma verdade nos fatos do corpo que pode ser capturada. Se ela for, ela já prescinde de qualquer senhorio que se esforce para domar o corpo uma vez que o corpo mesmo já fica inteiramente governável, à disposição do senhorio, mas sem nada de pessoal que o conecte ao senhorio pois ao invés do corpo estar à mercê do senhorio ele fica à disposição. Como um recurso. O que Heidegger quer com seu diagnóstico acerca do dispositivo? É certo que ele quer anunciar a época do ser em que ele está em perigo, em que ser é ser perseguido. Emmanuel Faye, em seu esforço por associar Heidegger à introdução do nazismo na filosofia, o contrapõe à um pensamento que não perde de vista a dignidade humana. E Faye faz uso precisamente da terceira conferência do Einblick in was das ist, apropriadamente chamada Die Gefahr – O perigo –, para apontar para o modo como Heidegger fala do Lager utilizando a expressão 'fabricação de cadáveres', como se em Birkenau não houvessem pessoas que morrem, mas apenas corpos que desaparecem. Heidegger escreve que no Lager há verenden mas não sterben, termina-se mas não se morre. E ele escreve procurando a essência da morte (como a da dor e da pobreza) – algo que faça da morte uma coisa que coisa. No tempo em que o ser é ser perseguido, a morte ela mesma se transforma em um recurso. E é certo que Heidegger contrapõe a isso não a dignidade humana, mas a coisa que coisa no corpo, sua verdade que não está em fatos capturáveis, mas em sua capacidade de se desenrolar a si mesmo.

Talvez como no lixo onde as coisas se entulham e por isso se aproximam, gostaria de lembrar de um veredicto dado uma vez por Hans-Jürgen Syberberg no seu filme sobre Hitler. Ele dizia que Hitler havia vencido – na Blitzkrieg de corações e mentes. O que poderia significar essa vitória? Penso em um outro filme, de dois anos antes, de Pasolini: Saló. Na república de Saló, o último bastião do fascismo fascista, os corpos eram inteiramente colocados à disposição. Havia os senhores, sombrios ainda que histriónicos, e haviam corpos – os déspotas eram como os dispositivos. Não posso afirmar – que coisa se pode afirmar no lixo? - que a vitória de Hitler é uma vitória de Ge-Stell, ou dos dispositivos. Talvez seja uma vitória de um par opositor: o corpo anatómico à disposição de um lado, o corpo solto de qualquer fato do outro – o corpo mapeado de um lado, o corpo próximo do outro. Nos dois elementos do par, há uma verdade no corpo, uma verdade da qual se pode aproximar ou cartografando ou deixando que ela floresça e, assim, carregue as bordas de seu rio com ela. O corpo se ocupa em ser.

Em Quelques réflexions sur la philosophie de l'hitlerisme, escrito em 1934, Levinas associa a filosofia do hitlerismo à prevalência do corpo. Não se trata mais, ele escreve, de que a vida de um agente humano se separe do seu corpo e possa manter com ele uma distância que permita uma decisão, mas o agente se torna não um refém mas um entusiasta e um intensificador, ou um exaltador das verdades do seu corpo. O agente é aquele que decide propagar sua verdade já que sua verdade é sua. (Um pouco como os tantos advogados dos fatos, entusiastas dos fatos que não hesitam em fazer uso deles para terminar qualquer discussão.) O hitlerismo segundo Levinas é a tese de que no corpo – no sangue, na comunidade do solo – há verdades, e há que se ser fiel ao ser. Se trata, como ele escreve anos depois em um pós-escrito, de uma possibilidade que a filosofia ocidental não fez o suficiente para barrar e que se inscreve na prevalência do ser. Há alguma coisa no corpo que é próprio e suficiente, e que de alguma forma demanda um espaço para si, um lugar ao sol – como um recurso que precisa ser utilizado ou guardado ou como uma coisa que precisa ser deixada livre para coisar. Há no corpo uma trama da primazia daquilo que é. [bota o jaleco]

Ouço o alarido todo. Eros e Dyonisos tem uma verdade – uma verdade que está no corpo, nas suas potências, nas suas capacidades, nas suas confabulações. Talvez a contraposição de Heidegger entre a proximidade e a cartografia – entre a coisa que coisa e Ge-Stell – se insira em uma batalha contra o ocidente contemporâneo que Heidegger enxergava no hitlerismo. Na cultura contemporânea – que é cada vez mais a farmácia contemporânea e que é um fascismo fatista – é como dispositivo que aparecem Eros e Dyonisos. Porém eles não se escondem muito bem nos meandros dos fatos – eles deixam marcas em outros lugares por onde eles ficam sendo perseguidos. Deixam alaridos. É que eles não gostam do fastio da escassez que rondam os fatos, do miudinho, dos cercamentos – eles são patrícios da abundância. Perseguidos, eles parecem pandas em cativeiro, incapazes de se acender e desafiando os dispositivos – administram viagra nos pandas, filmam pornografias com os pandas e projetam nas telas dos zoológicos para eles porque eles não se excitam em cativeiro. Die Gefahr, Die Gefahr: escrevi uma vez que o erótico é o avesso do medo. O dionisíaco é talvez o avesso do dispositivo. Mas o que é esse avesso? Eros é filho do expediência. Ele não é algo de próprio e recôndito, é algo que ocorre no contato. Dyonisos é amigo do descontrole. Ele opera nas multidões, no contágio e reside talvez nas garrafas de vinho, mas em nenhuma molécula em particular.

[tirando o jaleco] Nos depósitos de lixo, eu encontro marcas de Eros e Dyonisos como os últimos vaga-lumes. Pasolini fala de um fascismo inexorável e sem precedentes que sucedeu ao fascismo democrata-cristão e o fascismo fascista: um fascismo que não é mais representação através de gesto que agradam os caudilhos, mas corpos à disposição dos caudilhos – como na Repubblica di Saló. Já não há mais outras luzes, não há mais outra forma de vida recôndita. É assim a era da farmácia contemporânea: de um fascismo fatista. No entanto, em “Amor no Lixão”, parte do Breviário de Pornografia Esquizotrans que escrevi com Fabiane Borges, a personagem que vai procurar Eros no depósito de lixo diz: nunca deixei de achar que lixo é relíquia dos exageros. O lixão aparece como um espaço de composição, de gambiarra, de bricolagem e por isso de êxtase. Não é a promiscuidade do lixo, mas a invocação – não o chorume, mas o vento quente de que fala Sappho. Mais que no contágio, talvez os vaga-lumes estejam nos pedidos. O cheiro do lixo se impõe, Eros e Dyonisos tentam. Eros e Dyonisos são agentes da sedução, da saída do caminho, da abundância que se contrapõe à agenda de cada um que se ocupa com um quinhão de ser. Eles tentam. Eros e Dyonisos, feitos de tentação, são interrupções. Se há algum vaga-lume cintilando por meio dos fatismos, é o da interrupção, de uma convocação, de um pedido. Agamben uma vez pensou na potencialidade em termos do que podia Akhmatova quando ela dizia que não tinha capacidade de escrever um poema para uma causa – não tinha dentro dela essa capacidade, essa potencialidade, e é por isso que o faria. O pedido invoca a expediência e a expediência é não é feita do que é feita os fatos, é feita do que provoca os fatos. Os vaga-lumes não estão no mapa, mas há tramas que rasgam o mapa.


lunedì 15 agosto 2016

Jesús going

Um grande amigo de um grande amigo, Jesús, que se foi e se disse assim:

La añoranza del mañana

mercoledì 10 agosto 2016

Credo

A Deusa, aquela das mensagens impossíveis,
que outrora contou aos eleatas que nada não é,
veio ter comigo no fim de noite,
na aurora, se diria.
Hora da virada.

Ela disse-me assim: a próximidade
é para gigantes; ou ela se torna
a vazão dos imperativos - a necessidade
que engendra sempre outra necessidade.
Ela disse com o sussurro das coisas grandes
que ficam escondidas à luz do sol
(e mais escondidas ainda sem luz alguma).

O espírito é vasto para ter luxos,
e seu vulnerável não corrói seus espaços;
ele é feito de pedidos, de ingratidão possível;
o esqueleto também é vasto para ter luxos,
virado para o lado de fora.
O avesso do gigantesco não é o ínfimo,
é a mesquinharia.
Protocolar.

Já a megalomania é como Ela,
como a Deusa, como a Natureza,
como a Senhora das Nuvens de Chumbo,
como o Silêncio: anfitriã.

Próximos são os anfitriões,
entendo a Deusa, os que carregam
a força dos imperativos e que não imperam,
entendo na hora do sol nascer, os que carregam
a força do contentamento e que não desabrigam.
Os que são maiores que a lei.