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mercoledì 26 agosto 2015

Jude (nova versão)

* Há anos venho cuidando deste poema. Ainda não sei se ele está pronto para o mundo. Mas hoje me pareceu que a ideia merecia outra tentativa.

Terra Mais Santa

por toda a minha vida tenho sido perseguido por um dedo em riste
que me fala que não tenho direito a nada a não ser que justifique
minha memória tem uma mesa cheia de petições negadas, pedidos indeferidos
espalhados pelas músculos de um ossada ousada e acanhada, curta e triste
as instâncias de tribunal em cada glândula, não deixam que ela se estique
e o coração, batendo com esporas nas costas, faz só os barulhos permitidos.

“convence-me que mereces o que queres ou queira outra coisa, desista”
falou-me tantas vezes um júri, martelando veredictos antes do meu braço mexer
aprendi a prender o fôlego todo até que haja suficientes credenciais
meus desejos viraram ordens mandadas, meus prazeres itens de alguma lista,
temo o que pode machucar, preparo que meus amores virão me abater
e não consigo respirar o oxigênio tranqüilo do que não acaba mais.

alguém venha e me conte que é possível
um campo de concentração que produza alegrias em medida industrial
prazeres casuais, júbilos constantes, injeções de euforia
benções, êxtases, orgasmos - todos frequentes e
para milhões de pessoas a cada dia, apenas para fazê-las estar bem
(as portas sempre abertas, é claro)
Auschwitz, Monowitz, Birkenau de felicidades a cada dia maiores
para multidões em frenesi sem entender porque foram escolhidas
para tanta bonança.

por favor, me ajude a juntar os tijolos.

lunedì 24 agosto 2015

O fio

Você pode me dizer por que as coisas estão por um fio?
Porque algum brio as colocou lá.

mercoledì 19 agosto 2015

Uma Bishop lida ontem no fifi na casa que ela tinha em Ouro Preto - Casa Mariana

Cego,
O girassol é amarelo.
Todo o resto é mentira.

Quibungos - ontem no fifi 7 de Ouro Preto



Quibungos: A vingança do pó
Hilan Bensusan


O que que você fez para merecer isto? O merecimento apela para uma transação ainda que implícita: aqui se faz, aqui se paga. Mérito. Quem tem mérito tem uma recompensa espiritual devida, diz a etimologia de meritum. Meritum tira merecimento, e tira ter direito, por exemplo, à merenda. Mérito diz respeito a uma contrapartida por um serviço prestado. (E demérito ao uma contrapartida a um estrago ocasionado.) Meritum aponta para uma dívida, portanto, a um estado em que há um crédito – ter um mérito é como ter um crédito. Porém não se trata apenas de ter um crédito em uma instituição, em um sistema financeiro ou em um cartório de registros específico. O mérito é cósmico – ele aponta para uma justiça de transações cósmicas, recompensas cósmicas, contrapartidas cósmicas, serviços cósmicos, estragos cósmicos. O mérito se insere em um sistema de reparação, aquilo que associa à origem do mal – o mal surge de alguma parte e, de modo recôndito ou explícito, da ação de alguém. O mérito invoca alguma agência – se o que se passa comigo tem mérito ou demérito é porque há algum responsável pelas contas destas transações cósmicas. Aqui se faz, aqui se paga. Porém, como formulava em sua primeira lei da ecologia humana Garrett Hardin, não se pode fazer uma coisa só. Hardin ele mesmo, depois de pregar o controle populacional por anos, se matou aplicando-se auto-eutanásia e deixando 5 filhos.

O discurso do mérito é o discurso da agência – e se o mérito está disperso, também está dispersa a agência. Uma ação pode ter mérito em uma praça – por exemplo, junto aos beneficiários de energia mais barata – e demérito em outra praça – por exemplo, junto aos rios, aos patos, à Gaia. É por isso que Isabelle Stengers fala da intrusão de Gaia. Não é, como deixa clara a ideia de Lovelock de uma vingança de Gaia, que a Terra chegou agora e instituiu sua jurisprudência. É que seu tempo é outro. Ou bem, seu tempo era outro antes do antropoceno. A intrusão de Gaia não é primordialmente a intrusão de uma vingança, nem uma declaração de guerra, nem mesmo a descoberta de uma outra forma de vida que se mistura ela mesma com a vida mesma no regime cósmico sublunar. A intrusão de Gaia é sobre a animação. Sobre o que é animado o suficiente para se sublevar, para que a força que faz abaixar a cabeça seja também a força que devora.

Merecimento é cósmico. O demérito – aquilo que surge de um estrago ocasionado – é também cósmico. Não é só uma dívida em algum banco ou praça, é algo que pode ser cobrado de alguma parte qualquer. Mérito e demérito são transações cósmicas, mas quando dizemos o que que eu fiz para merecer isso?, invocamos alguma agência contábil, e ainda não sabemos qual. Pode ser, por exemplo, o grande árbitro de tudo, uma agência que pondera nossas boas e más ações e, por necessidade, faz mal quando castiga, faz bem quando premia. E mais, faz mal de acordo com o demérito e bem de acordo com o mérito. E é possível que o árbitro leve em consideração algo mais do que as transações entre o bem e o bem, entre o mal e o mal: pode ser que dê o frio conforme o cobertor. Trata-se do juízo de Deus, cósmico o suficiente. E pode ser que, por exemplo, haja muitas cortes de justiça, muitas praças e não se pode fazer uma coisa só. Há tantas instâncias contábeis do mérito e do demérito quanto agências – uma natureza sem agências é uma natureza onde não há mérito, nem crédito, nem árbitro, nem vinganças.

Vinganças e justiças invocam uma à outra. Nemesis é muitas vezes enviada de Dike e associada a Erinyes; elas atuam muitas vezes em bando. A indignação, a retribuição, a punição – as deusas do crédito e do mérito, do débito e do demérito; as deusas de um universo capaz de fazer promessas. Elas são guardiãs das promessas cósmicas. São agências contáveis – são instâncias de memória. Erinyes vem do sangue da genitália de Urano que caiu na terra quando Chronos o castrou. Dike é filha de Zeus e Themis (Hesíodo), mas talvez também de Nomos e Eusebia. Nemesis é filha da Nyx. Elas surgem do Tempo, do Céu, do Comando, da Ordenação e da Noite. São também as guardiãs de uma necessidade: de dia se faz sob o céu, diz o comando, de noite se paga sob o céu. Ou seja, elas invocam a agência no cosmos – a arché, comando e começo. Trata-se de um sistema que não é aquele de um agrupamento de humanos, diz respeito a todo o resto – méritos e deméritos são adquiridos no comércio com qualquer humano e com qualquer não-humano. A justiça é talvez o lado de dentro da vingança. Clamar por vingança é querer justiça – os justiceiros, que estão se movendo do lado de dentro, são os que se engajam nas vendettas. Olho por olho, dente por dente, sangue por sangue: o demérito cósmico nos faz despreocupar com a sorte dos demais, e nos tranquilizar com a nossa sorte – basta que a mereçamos. E começamos a fazer o cálculo diário das obrigações e permissões, o cálculo dos deméritos e das vinganças – e aquele dos prêmios. Nosso cálculo, já aqui, tem que ser ele também cósmico.

Até onde podemos estragar ou prestar serviços – e acumular méritos e deméritos? Talvez haja zonas de trégua – onde não haja agência, não há instância contábil, nem há crédito, demérito, dívida, dádiva. Onde não há agência não há genuíno comércio, de nenhuma espécie. Uma natureza inanimada é o exorcismo de Nemesis (e de Dike, e de Erinyes) – apenas uma agência que impõe sobre todo o resto suas leis, seus comandos. Nada, sob o manto da natureza inanimada, tem protagonismo para poder contar mérito, ter dívida, merecer ou se vingar. O inanimismo é um exercício de subserviência ontológica – os inanimados são aqueles que jamais transitam na vingança. A natureza, por outro lado, é uma espécie de Pax Americana onde ninguém reclama, ninguém protesta, ninguém concede – e ninguém merece. Viver na natureza é viver sem méritos. Aquilo que é tratado como natural, fica fora do espaço da justiça; fora de qualquer âmbito de reivindicação, de qualquer protesto. O que é posto na inanimação é retirado de qualquer política. A produção de inanimação é portanto um empreendimento teratogênico – e gera atrocidades congênitas. Arremessar alguma coisa ao pó é um empreendimento de quem cria cuervos. Os monstros que emergem do exorcismo da agência são como lava: ninguém pode medir, dizia Nietzsche, a inflamabilidade de um corpo. Exorcizar a agência é esmagá-la em uma economia restrita onde tudo é recurso – uma economia de proprietários e seus dividendos.

As propriedades, elas mesmas, transmitem mérito ou demérito para quem as tem, porém elas são imunes umas às outras já que não entram em nenhum contato que não seja aquele estabelecido pela leis gerais. Meritum, em certo sentido, se assemelha a munus – o termo em volta do qual Roberto Esposito apresenta uma etimologia pra comunidade e para imunidade e, com isso, apresenta as bases de uma biopolítica. Munus – ou munia – indica uma tarefa, ou um dever – ou ainda uma obrigação de prestar um serviço. Munus é um serviço aos outros, e aquele que o pratica adquire um meritum diante dos outros a quem este serviço é executado. Uma comunidade é uma distribuição de serviços e deveres – os agentes se entrelaçam porque tem alguma coisa em comum (um serviço conjunto que serve a todos). Por outro lado, aquilo que está imune está dispensado deste intercâmbio – não presta serviço, não demanda serviço. A natureza é o jeito de imunizar algumas coisas – a elas não se deve nada, elas não distribuem mérito ou demérito. Recursos não participam de comunidades, recursos não tem uma biopolítica – são servos ontológicos atrelados a uma suposta inanimação estrutural e a uma economia restrita em que a eles nunca cabe a preponderância.

A vingança é uma marca da animação – mas de uma animação tão disputada que pode ser a animação do próprio inanimado como atesta o comando de fidelidade ao pó: voltarás a ele e assim ele se vingará de tudo o mais que fizestes desde que dele saístes. Quando dele saístes, ele tornastes um recurso: o teu pó, a ousada alçada da tua ossada. Mas o pó clama a Chronos, que corta a genitália de Urano e deixa marcas de sangue na terra. É o decorrer dos dias que vinga – é o futuro que é o juiz. Mesmo onde não há animação, decorre o tempo e decorre sobre o chão. O chão e o tempo tem seus vulcanismos, os vulcanismos monstruosos das agências exorcizadas. O próprio pó que guarda em si a ameaça de um mundo animado onde aqui se faz, aqui se paga, onde regem as forças que calculam e distribuem méritos e deméritos. E se o pó, aquilo que é natural e inanimado, se erigir em um manifestação de Cthulhu, em um parlamento dos outros, retorcendo as coisas em um vulcanismo monstruoso como aquele que dá forma ao que passou anos sedimentando, faz sujeito do que estava por anos apenas asssujeitado?

Além do tempo e do chão, a lava animada da vingança também se faz de associação. O plural de inanimado nem sempre é inanimado: as alianças reconfiguram as forças e são as sociedades de moléculas que produzem agência – pelo menos se agência têm, por exemplo, os humanos. As associações são o que transforma pó em osso, osso em ossada, ossada em núcleo de uma alçada. Pó, pó, mais pó e pronto, enquanto durar esta rede de pós, aparece animação. Aos inanimados acontece o que acontece aos fracos, eles se associam. O monstruoso é a associação que não é reconhecida – aquela que agrega pessoas a mais pó, a agência que vem de ingredientes servis, o Golem que cresceu e que quando desaba se vinga daquele que o fez nascer e morrer. A larva da animação está por tudo o que pode ser acoplado, em tudo o que em uma conexão pode produzir vingança. Tudo guarda assim a semente de uma vingança – mais primeva e rústica das animações. E como as associações não se mantêm entre aqueles que se desmerecem, a matriz de mérito e demérito periga se espalhar por todo tijolo posto a serviço e por todo mandamento emitido. O espaço do mérito é também um espaço messiânico: o espaço da salvação. Derrida insinua que todas as coisas guardam uma messianicidade. Cada uma delas pode ser decisiva em um contexto onde nenhuma outra coisa poderia encaminhar uma saída; cada gota pode ser a gota d'água que dispara a vingança ou que remedia a sede.

Uma tonalidade recorrente da trama da vingança é a tonalidade da surpresa. De onde menos se espera: a vingança é um prato que se come frio. Ela demora. Ela pode demorar porque ela depende da castração feita por Chronos – e ela depende muitas vezes de que ela não seja mais esperada. Ela é de um tempo que não é esperado. Não se vinga o que se deve em um registro conhecido e estabelecido. Neste caso, trata-se de justiça, ou de finanças, ou pelo menos de contratos. A vingança é da hora do que está para além do esperado, do que está para além do repetido que é o futuro previsto. A vingança é da ordem do acidente: o monstruoso da tsunami e o da revolução. A origem da vingança é a origem do monstruoso: o monstruoso mesmo é da ordem do inesperado, do acidente, do que não cabe no repetido que é o futuro. O monstruoso é o mutilado – a vingança é o que retorce as normas da justiça já que é a justiça do lado de fora. É este o elemento mais incisivo do caráter cósmico da vingança, ela não atende a regras comerciais, nem espera o trabalho do reconhecimento. Ela nem sequer espera trabalho algum, ela é afeita aos becos, às moitas – Heráclito, dizem, disse mais recentemente que a política se esconde em moitas de natureza. Pois é assim a agência disfarçada do inanimado: imprevista. A vingança insere no presente a ordem do mérito e do demérito: não é apenas dos acordos que fizemos que virão os dias por vir, é também dos serviços que prestei, dos estragos que ocasionei. Do mérito e do demérito. O futuro, ou o prato que resfria, é também cósmico.

Uma personagem central da trama da vingança é a presença dos outros. Ela sempre vem, em algum sentido, de fora. Das esposas. Das putas. Das bichas. Das bruxas. Das abjetas. Das escravas. De Gaia. De Cthulhu, dos pássaros de Hitchcock, dos porcos de Porcile, da microbiota contra a antibiota, dos Triebe recalcados, dos ressentimentos terceirizados, dos excluídos do pensamento e das cabeças abaixadas. E, de súbito, aparecem aqueles que agora se vingam – que retomam um tempo, que fazem alianças cósmicas, que pareciam inanimados. Este é o ato da vingança: inesperadamente aparece uma outra matriz de méritos e deméritos e é isso então que eu fiz para merecer isso. A emergência de uma vingança é a emergência de uma outra narrativa – de uma outra protagonista e de uma outra narradora e de uma outra justiça. É esta a abjeção: aquilo que era apenas barro virou matéria rebelde, o que era matéria-prima virou devoradora. O dia da caça. O merecimento pergunta por uma agência contábil: sob os olhos de quem mereço o que aconteceu? A trama da emergência de uma nova animação é a trama do que surge daquilo que foi imunizado e que agora aparece desmerecendo o que antes estava apartado do jogo cósmico das retribuições ou que simplesmente aparece fazendo a pergunta que inaugura a política: por que existe alguém e não apenas ninguém? Ou ainda: que que você fez para merecer isto?

Os Bantos tem um nome para um tipo especial de monstro – e com o nome uma lenda, um pedaço de ontologia dos afetos e um chamariz para algum sentimento. É o Quibungo. O quibungo é uma imagem do assustador, e o assustador nos põe a examinar nosso mérito e nosso demérito: que que eu fiz para merecer isto? O quibungo pertence à categoria geral dos monstros devoradores – os bichos-papões. Ou seja, ele não discrimina o que come por meio de que castigo quer exercer – ele engole tudo. A classe dos devoradores tem como matriarca – ou pelo menos como patrona – o chão, que transforma resíduos em coisas novas que terminam na boca do chão. É de onde saem os frutos, os tubérculos e dos grotões as águas. É chão o engolidor de tudo que é sublunar, é Gaia na sua forma Nanã, a mãe antiga. A lama que devora porque cobre as vísceras da Terra – o Tártaro. O quibungo pertence a classe dos que devoram indiscriminadamente, é como um chão, uma lama, uma pele movediça. Onívoro, porque come tudo. E ele pertence também à classe dos monstros de sopetão: os que aparecem a qualquer hora, inesperados. É portanto um monstro devorador e de sopetão – quem o vê de frente, não vê mais que um rosto – muro branco e buraco negro, mas antes muro negro e buraco cintilante. O quibungo é negro como tudo o que é banto. Ele se apresenta de frente como um rosto humano, como um rosto que é um outro que pode ser aniquilado mas que pede que não o aniquilem. Um rosto de olhar e de palavra. Um rosto que se apresenta, que se expõe, que se entrega. Porém na nuca, o quibungo traz suas mandíbulas devoradoras. Na nuca, que é a parte do corpo que se expõe apenas quando a cabeça abaixa, quando a agência fica soterrada.

A nuca do quibungo é a cara da vingança. A nuca: uma articulação do ânimo, da altivez, da subserviência – e uma articulação do recôndito, do sopetão. Outra vez, o sopetão, ou o acidente, carregam uma monstruosidade – fora do ordinário. A vingança é uma irrupção e sua tectônica pertence àquela das urgências. Ela instaura um outro ritmo porque instaura uma outra agenda, uma outra matriz de importâncias e um outro tempo. O quibungo aparece nos relatos coletados por Nina Rodrigues como um monstro que coleta pessoas (sobretudo crianças – uma forma de comer um prato frio) e as enfia na goela da nuca. No relato da caçada ao quibungo, o quibungo come as crias da cachorra sempre, e então ela se disfarça e esconde as novas crias. O coelho informa ao quibungo que a cachorra está disfarçada vestindo uma saia e sentada sobre um buraco onde estão seus filhotes. Segue-se uma caça onde os homens matam o quibungo e a cachorra mata o coelho. No outro relato, um homem chega com uma espingarda e mata o quibungo e recupera seus filhos de dentro da goela da nuca do monstro. O quibungo é uma marca do terror, do terrorismo. Ele escolhe suas vítimas, a vingança é uma urgência e só enquanto urgência ela se articula com a contingência. As oportunidades aparecem ao Quibungo – mas ele parece ter uma direção. Ainda que uma direção monstruosa como o cuidado de quem executa a vendetta ao esquadrinhar toda uma localidade para se certificar de que não tenha sobrado nenhum daqueles que precisam ser justiçados. A ira da vendetta é cósmica: ela não conhece limites como nenhum vulcanismo conhece fronteira.

A boca devoradora do Quibungo está na nuca. A nuca é uma espécie de fronteira. A nuca é o lugar onde a coluna se conecta ao crânio, é onde há um vão entre a parte do monstro que planeja e a parte que o mantém ereto. A nuca é onde a cabeça começa a ficar erguida e onde começa a se reclinar – é o vão onde a ação e o pensamento se desconectam. No quibungo, ele é um buraco que morde como uma boca – dentada. É o órgão da altivez, da negação e, também, é onde no quibungo irrompe a negação da negação. É na nuca que a decisão econômica acerca da servidão ou da violência, da sobrevivência ou da rebeldia tem lugar. Ela é o órgão da emancipação, e a emancipação no quibungo é dentada. Trata-se de uma nuca dentata. Uma nuca de devoração, com os dentes da vingança. Os hindus contam que o demônio Adi queria vingar seu pai e se apresentou a Shiva como se fosse Parvati, mas com sua vagina cheia de dentes pontudos. A vagina dentata também aparece nos relatos de súcubes que são seguidoras de Lilith e que seduzem os homens e devoram-lhes a genitália. A devoração da genitália, como arrancar a genitália é marca da vingança na Odisséia. Entre os intrumentos anti-estupro, aliás, há aqueles que procedem pela vingança dentata como o rape-axe de Sonnet Elhers que é uma camisinha feminina dentada. A vingança é uma mordida. A mordida que é a marca de uma animação recôndita, de uma animação desconsiderada. A vagina não é só território a ser ocupado – ela tem o protagonismo do que mostra os dentes. Assim também o quibungo, que mostra os dentes através do órgão da servidão (e da rebeldia). O protagonismo do pescoço negro aparece também na forma da nuca dentada. Da servidão que se vinga devorando.

A cabeça que abaixa e levanta, pela nuca, guarda uma tensão mandibular: no quibungo ela se abre como uma boca – dentes que devoram. O quibungo tem uma segunda boca, uma boca recôndita, subjacente: a boca que se cala ou que engole. Quando a cabeça se ergue, a boca fica fechada. Quando ela se abaixa, ficam seus dentes abertos, a boca da nuca escancarada e, de acordo com o tamanho da força que abaixa a cabeça, por ali pode ser engolida qualquer coisa. Na nuca o quibungo tem a boca dos seus ossos, de sua medula. E a boca está na nuca porque por ali passa a escolha pela sobrevivência. E é pela nuca que se cortam cabeças; através dela se enforca, se guilhotina. Por ela se decepa, se decapita – é na nuca que o corpo se torna acéfalo. A cabeça cortada, por sua vez, pode adquirir uma animação sem nuca, uma animação sem movimento – e o corpo acéfalo sem orientação. O pescoço marca uma vulnerabilidade. Vulnerabilidade, porque carrega. Saint Denis é este bispo que carrega a própria cabeça, fazendo com as mãos a tarefa da nuca. A nuca apenas segura a cabeça – mas é justamente disso que se trata, orientar o corpo. Conectando a coluna vertebral ao cérebro, a nuca é onde está o atlas, que carrega nas costas o globo.

O atlas é a primeira vértebra cervical e também a primeira vértebra da coluna. Está conectado com o processo odontóide – ou seja, o atlas é o reverso da boca, é as costas da mandíbula. A nuca é assim como um prolongamento da boca, como aquilo que se come e se dejeta fosse prolongado naquilo que ergue e que rebaixa. O eixo da boca à nuca é um eixo de vulnerabilidades. Em ambos os lados, um vão que permite movimentos de enorme força – a força da devoração, a força da humilhação. São os músculos potentes que executam as tarefas da sustentação. O atlas é aquilo que deixa a cabeça cair, o a mantêm, e para isso precisa da flexibilidade de uma boca que abre e fecha, de uma dupla articulação que sedimenta e desaba, que acumula e solapa. O vão do reverso da boca no atlas do quibungo é dentado. É a boca da surpresa e a boca da vingança: ela devora para se vingar. A boca das costas é o reverso da boca da frente porque ela devora – e destrói o que está do lado de fora – não para produzir o que está dentro, mas antes destrói o que está fora – e para isso coloca coisas para dentro. No Congo e em Angola, o quibungo é simplesmente um lobo. E ele é da classe dos lobos – e dos lobisomens, das cucas. Mas na Bahia, o quibungo virou antropófago. Ele se tornou um bicho-papão negro que engole para se vingar.



Desta antropofagia se aproxima Marcelo D'Salete na sua novela gráfica Cumbe. O quibungo habita a fazenda, perto dos mocambos onde ficam os escravos – é por ali que circula o quibungo, sua monstruosidade não é povoamento das matas, é artifício da escravidão, da desanimação. O quibungo aparece nos desenhos de D'Salete como parte de um vulcanismo negro, e um vulcanismo antropófago que está pronto para se contrapor às práticas colonizadoras nos becos, nas quebradas, nos breus. Ao mesmo tempo, o quibungo é antopofágico porque se posta como monstro negro pós-colonial, como resíduo de devoração de uma boca que contra-diz o que lhe disseram quando fizeram o lobo virar um ente inanimado. Esta boca reversa poderia dizer alguma coisa assim, com Oswald de Andrade: Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago: o Visconde de Cairu: é verdade muitas vezes repetida. Mas não foram os cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo porque somos fortes e vingativos como o jabuti.

O quibungo é um monstro pós-colonial e antropófago. Ele tem a cara da vingança – da vingança do que foi feito pó. Daquilo que foi engolido e que, sim, tem uma boca subjacente, uma boca na retaguarda. Pensar o quibungo é pensar que há sujeito no abjeto e que há muito mais matrizes de mérito e demérito do que congregam os sistemas de justiça. O quibungo é uma intrusão – como a de Gaia, como a do suposto inanimado, como a do pó – é uma intrusão do inesperado. Neste sentido, ele é um vingador para a pós-colonialidade, com sua antropofagia e com seu vulcanismo negro. Ele é monstruoso, mas esperar calorosamente por ele é esperar pela deglutição que vem.


domenica 2 agosto 2015

Confissão sem lugar

Eu, eu mesmo, aquele que nasceu comigo,
não encontra um lugar de repouso entre as pessoas.
É redemoinho, nadando com esforço de sobrevivência
de um recife para outro, de uma beirada para outra,
onde está a chaminé, a varanda na soleira?
Sempre gostei dos estrangeiros,
que me ensinavam que eu não era de onde eu era,
que nem eu vinha de onde eu vinha.
Ali de onde o desalojado vem, não vem ninguém.
Sempre gostei dos desabrigados,
os que sentem a nostalgia de um abrigo,
de um país, de um lugar.
Gostava daquela nostalgia porque as coisas
na nostalgia ficam próximas
mas não podemos tocar.
Os países distantes são os que moro
porque são distantes - e eu não encontro.
Corro de um braço a outro,
de uma voz a outra,
e todas as vozes me expulsam
e todos os braços me exiliam.
Não paro de ir sem descanso de uma margem à outra -
não acho a margem.

martedì 28 luglio 2015

Being Up For Grabs: an anarcheology

Being Up For Grabs é meu livro que sai em breve. Para celebrar, copio aqui uma das três anarqueologias nele presente.


Apocrypha from the Sahagún Colloquia and the bringers of movement (3)

In 1524, twelve Franciscan friars arrived in Mexico to make sure the conversion of the pagans was going in a suitable direction after Cortez’s Conquista. Some years later, they convened in Tepeculco under Bernardino de Sahagún with twelve tlamatinime, priests and wise men of the place, to discuss, in Nahuatl, matters of how things are. The manuscript made by Sahagún and his indigenous collaborators transcribing the colloquia came to light years later, but always in an incomplete format. The material that circulated featured subservient and easily convinced natives. But, out of Sahagún’s material – composed of two books (one of thirty and the other of twenty-one chapters) – only the first fourteen chapters were available. The missing chapters included parts where the natives described their creed more thoroughly. Sahagún, himself a historian of the so-called New Spain1 and considered one of the first anthropologists2, has changed the structure of his book of colloquia quite dramatically throughout the years.3 It is unclear what precise effect he hoped his transcriptions would have, but the manuscript that ended up circulating (and was later published4) does little more than portray the tlamatinime as ready to convert to Christianity.

There is a considerable amount of controversy about the historical accuracy of the document. Some say that it is no more than a piece of literature, ultimately having evangelical purposes, while an increasing number of scholars grant it historical veracity. The issue, however, has become more complicated in the last few years, as two supposed fragments of the transcriptions of the colloquia have emerged. They were found in a monastery in Popocatépetl, Veracruz, in relatively good condition. They display the Spanish version and parts of the Nahuatl version of the two fragments. They have supposedly been copied by hand from the original transcriptions and preserved for centuries, hidden in the obscurity of the monastery library. The authenticity of the fragments is under all sorts of religious, historical, ethnographical and anarcheological scrutiny. A factor in favor of their legitimacy is that they both express mostly the views of the tlamatinime, with almost no substantial counter from the twelve friars. This, however, is not decisive. The monks could have kept the manuscripts for several reasons unrelated to it being historically factual.

In any case, the first fragment includes two lines present in the published version in chapter 7 of the first book – lines 1017 and 1018. It seems to fit well in chapter 7, specifically between lines 1016 and 1017, and could have been removed for censorship... The lines of the fragment are therefore referred to as VII-1016-2, VII-1016-3 and so forth, VII-1016-1 being the line published as 1016. The second fragment seems to fit somewhere in the lost chapter 16, also of the first book. As the chapter is otherwise entirely lost, the lines are referred here as XVI-?-1, XVI-?-2, etc. What appears here has been translated from the Spanish version.

VII-1016-2 because every sun rises and sets,
the sun that creates a day
as much as its absence that creates a night
the sun that creates years, generations, eras.
VII-1016-6 One sun after the other.
It was in Teotihuacan
that our present horizon emerged.
This is the fifth sun,
a sun that doesn’t rule by water, air, earth or fire
VII-1016-11 like the previous ones, but by movement.
Its navel nothing but the friction
of one ruler against another
and its Chicoóztoc5 is not one but many.
The sacred place shines in different mountains
VII-1016-16 and in valleys, lakes, cities and holes.
The gods of the fifth sun
are moving forces, they don’t have addresses,
they have roads.
They erode.
VII-1016-21 They digest. They burn. They flood.
It was the Fifth Sun that burned away the previous four;
it is not a static sun
but one that has a different light each day.
As those who destroyed all the other stabilities,
VII-1016-26 they liberators.
We suspect that this is why some macehuals,
common people, welcomed you in their spasms;
because you were also dissolvers,
destroyers of a rule,
VII-1016-31 you brought changes, shifts, alterations, new starts.
Little some of us knew
That you were bringing
a celebration of the un-moved.

The spirit of the huehuehlahtolli6
VII-1016-36 is that a god frees us from an order,
from another need.
A god is what shakes the perennial.
None of them can rule all because
since Nanahuatzin7 went to fire in Teotihuacan,
VII-1016-41 other gods have bumped into their realms.
gods of the ancient customs
were not those that command,
but those that disrupt.
We need them to displace the commanders.
VII-1016-46 We invoke them to shake what is about,
to bring up the riot and to go away.
We invoke them because without disruption,
we wouldn’t have been born,
we wouldn’t have grown.
VII-1016-51 They make us move.

The tzitzimine, by contrast, are the keepers.
Those who preserve.
The gods come and exorcise
the devils of fixity
VII-1016-56 because they come unnoticed.
This is why gods are several –
the world is full of chains,
VII-1016-59 full of traps.
VII-1017 That’s why gods are invoked,
VII-1018 that’s why we pray for them.

So you see that your gods didn’t protect you
from the holy hands of the Conquerors.
They couldn’t because they are not out there
and if they were, they would have recognized
XVI-?-5 the presence of a greater Force
and perhaps they would be first to bow their heads.

And then some priests have contested:
Much as there are turmoil and havoc
amid our peoples since you have arrived,
XVI-?-10 we should see your arrival as an event
of the Fifth Sun.
We are in the horizon of disruption
and our gods are revered
because they are those who unsettle the affairs.
XVI-?-15 They are those who undo the chains
and leave things unheld
and, as such, open to new rulers;
for no God can both free us and protect us.
To unchain is to erode a determination.
XVI-?-20 To protect is to cherish it.
Whatever we worship in the Fifth Sun
is to be worshiped not as shelter but as roads.
Our gods are here to free us,
and those who advertise their protection
XVI-?-25 are in deviant ways –
even though we are entitled to wish protection
when our land is invaded by murders like you.

Many tsitsimine have come to us recently.
They advertise security
XVI-?-30 or redemption, or a superior order.
They cannot resist the heat of the Fifth Sun.
Yet they make their bites,
like you do with all this small tsitsimine
that you brought to infect us
XVI-?-35 and kill us and make us feel unprotected.

The huehuehlahtolli is all for what unchains,
for holier is what makes us escape,
and sacred is forgiving.
Our gods are those who forgive,
XVI-?-40 forgo and forget.
Like in your Bible the debt is cancelled
after a number of years
and promises are forgotten.
Such are the acts of our gods in the Fifth Sun.
XVI-?-45 They are forgivers.
They are many, they are everywhere
because they don’t dwell in small numbers,
and because this sun brings dispute,
our ancient tlamatinime
XVI-?-50 had different liturgies
and they spot movement
in different places
and fixity in different places
depending on taste, season, transport.
XVI-?-55 For movement itself cannot be caught,
except in movement.

This is why, as you have noticed,
hesitation, deception,
lack of decision and of certainty
XVI-?-60 are appreciated by some of us, priests.
Under the Fifth Sun, they are virtues,
because they manifest movement.
Even though they are painful
they bring about what redeems us
XVI-?-65 and show us the road out.
So I advise you: beware.
We live in the horizon of uncertainty,
and no Conquest will dispel it.
As for us, we seek and treasure
XVI-?-70 what we don’t know.
It is less heavy on us.
We distrust what seems to merely repeat,
for the Fifth Sun is the sun
of what is loose.

Marianne Moore's Poetry

Poetry
by Marianne Moore

I, too, dislike it: there are things that are important beyond
all this fiddle.
Reading it, however, with a perfect contempt for it, one
discovers in
it after all, a place for the genuine.
Hands that can grasp, eyes
that can dilate, hair that can rise
if it must, these things are important not because a

high-sounding interpretation can be put upon them but because
they are
useful. When they become so derivative as to become
unintelligible,
the same thing may be said for all of us, that we
do not admire what
we cannot understand: the bat
holding on upside down or in quest of something to

eat, elephants pushing, a wild horse taking a roll, a tireless
wolf under
a tree, the immovable critic twitching his skin like a horse
that feels a flea, the base-
ball fan, the statistician--
nor is it valid
to discriminate against “business documents and

school-books”; all these phenomena are important. One must make
a distinction
however: when dragged into prominence by half poets, the
result is not poetry,
nor till the poets among us can be
“literalists of
the imagination”--above
insolence and triviality and can present

for inspection, “imaginary gardens with real toads in them,"
shall we have
it. In the meantime, if you demand on the one hand,
the raw material of poetry in
all its rawness and
that which is on the other hand
genuine, you are interested in poetry.


Source

martedì 21 luglio 2015

Substâncias na carne


Notícia de On Raw and Grilled Substances em pisicinema

mercoledì 8 luglio 2015

Ars poetica: leve

Só para não enxergar os bréus do beco
eu entro nele com uma lanterna,
como se eu estivesse procurando.
Quem procura sempre está protegido
já que debruçado sobre o mundo
e com os olhos no que a lanterna ilumina,
já reconhece que lhe falta algo.
Quem procura não exibe seu excesso -
ainda que tenha uma lanterna no beco.
Escuto o que os homens do beco dizem: são os detalhes,
os detalhes que deixam as coisas pesadas.
Leves, eu penso, são os desenhos de bico de pena
sobre um papel branco, um traço.
Tirados todos os detalhes, sobra o beco.
Um beco em papel branco com riscos pretos.

Moro nele.

Meu beco pensado é não é pesado porque é
feito de traços vagos.
Coloco ele no meio dos edifícios solenes da universidade
entre a crítica literária e o desenho industrial,
bem na frente do laboratório de teoria de tudo.
Ele é feito de lembranças perdidas
no avesso dos métodos, do conhecimento estabelecido e da precaução
e por isso mesmo está a altura do universo.

Chamo umas sambistas reais e lhes imagino uma cuíca.
Elas pisam leve no chão do beco
e remexem a prescrição.

lunedì 29 giugno 2015

Movediços (em piscinema)

No sábado fiz a instalação-piscinema com Movediços:

Movediços

As minhas irmãs folhas também ficam ao relento como nós, meu pai, e agora
Agora que você morreu, penso em você cada dia mais como um homem
Como um homem que é gente––que entende, reparte e é soprado pelo vento.
Tenho vontade de ter guardado tudo em um baú de ardósia
––tudo: a casa da raposa, o sol atrás da serra, as palavras trocadilhadas
e tuas pequenas admirações por mim que me pinicavam e o sorvete com um copo d’água.
Tudo.
As minhas irmãs gotas de chuva também escorrem até a terra como nós, meu pai e agora
Fica deixado o meu coração, sem o enorme casco de tartaruga que o segurava,
sem um mapa do mundo, sem o conforto de casa, com a nostalgia com frustração.
Tenho vontade de repartir tudo com você em uma praia com pedras grandes
––tudo: minhas dúvidas incrustadas, minhas dúvidas curadas, as pessoas confortáveis,
os alhos refogados, meus desejos de diferença, de casualidade e minha janela.
Tudo.
As minhas irmãs pedras também encontram quem as leve longe como nós, meu pai e agora
Agora não reparti quase nada, fiquei trancado com minhas narrações mirabolantes,
sem te ouvir. Penso tantas coisas sobre você e imagino culpas e recompensas.
Tenho vontade de refazer tudo com você, você não sendo tão Pai para mim,
eu não sendo tão pequeno filho, dando epiciclos em volta da nossa relação preciosa.
Tudo e do que restou ficar quase nada... apenas as tuas raras gargalhadas.
Quase nada.
As nossas irmãs estrelas também desaparecem depois de brilhar para sempre para nós
E agora, meu pai, passo dias sem a tua areia movediça que foi meu ninho,
E movediços eram os teus olhos, mesmo prostrados, mesmo contentes.
Tenho vontade de deixar que movediço seja nosso planeta, nossa estratosfera, meu pai,
E te abraçar com firmeza; conchas diferentes, mas no mesmo mar, nossa casa
––conchas: minha coragem, tua persistência, meus sapatos furados, teus iogurtes.
Quase nada.

2004

venerdì 19 giugno 2015

E ainda preferir esperar?

Hoje, meu bem, me mandaram três vezes reinventar o universo.
Sabe aquele auto-falante que tem em cima de todos os postes -
dos de eletricidade, dos que seguram o céu, dos que seguram a lua no meio das estrelas -
aqueles que dão uma mensagem para todas as coisas de manhã e outra de tarde?
Pois bem, eles hoje falavam comigo.
Primeiro foi a voz de uma catástrofe que ficou na minha cabeça -
o acidente não tem futuro porque o desastre não se escreve nos astros.
Depois foi Paul B. Preciado, a Beatriz: seja dissidente, seja herói.
Nenhum desejo pode ficar sem fármaco e só a norma dispensa experimentação.
Mais tarde foi o próprio Bispo do Rosário catalogando pregos, dobras, brigas;
nada é teu se não for lambido, mordido, engolido, cuspido por você.
Veio um anjo de asas grandes e me carregou e depois me pousou no solo,
a palavra "tormenta" me acompanhou em todos os momentos deste rapto, do desespero
de ter me tornado imprestável para o acolhimento
até a serenidade súbita.

domenica 14 giugno 2015

Não foi só um cavalo

Dona Electra, profetisa e quituteira, lê as cartas, as mãos, as borras do café
de toda a família Didi-Huberman depois do almoço; ela se senta
contra o sol, como se seus colares e broches e brincos e adereços
fossem escudos de Salomão, que convencem porque aberram:
- O que significa, eu lhe perguntei, sonhar com meu neto assim,
já de barbas brancas e subido em uma árvore da beira do Rio do Monge
e deixando no galho mais alto sua sunga verde?
O neto, ela imaginava, ágil, firme e holobionte,
teria talvez ficado pelado quando vigoroso desceu à superfície do chão.
Kinderland, me ouvi pensando, enquanto aguardava a pitonisa, já que seus olhos
se retiraram para o galho mais algo da castanheira e as pupilas
refletiam um sol mordaz mas que nos seus olhos ficava doméstico.
- É uma parte desprendida de você, um lampejo da tua vontade que não se curva
nas encruzilhadas, não calcula sua boa-vontade, e que já está muito acima da terra
onde você se arrasta. É um bom sonho, te ensina uma técnica da liberdade.
- Ensina, eu concordei. Mas por que, mãe Electra, eu preciso desta lição
agora que eu pinto estas grandes telas, todas de uma cor só, e minha experiência
se tornou completamente inconclusiva?
Ela fez um volteio com a cabeça, a feiticeira, não sei se para se livrar de mim
ou para me hipnotizar. Já não via na sua imagem um enxame de vaga-lumes e nem a pinga,
o maço de cigarro aberto, a caixa de fósforos comprada ainda ontem, a curva de 90 graus
entre os dois paralelepípedos. Ela não queria confissões. Eu só via a khora.

No outro dia, no café-da-manhã eu tomo um chá de cascas de abacaxi para minhas vísceras
já que elas me acordaram de noite pensando no desemprego: ter que rifar meu saxofone.
Ouço uma melodia das Pussy Riots, com as caras tapadas de não sei quantas cores,
uma melodia mixada. O rio tem afluentes.
Sinto minha cabeça cercada de pedaços de coisas próximas por todos os lados.
Meu couro cabeludo sempre foi líquido: clara de ovo, caco de vidro, nostalgia.
As Pussy Riots elas invadiram a catedral, há muitos anos atrás.
A catedral que era uma piscina soviética. E eu sou museu?




sabato 13 giugno 2015

Georges e Alfred

Para que o mundo seja habitável, há que desrespeitar todas as coisas.
O universo tem horror a qualquer ordem estabelecida.
Economia - no sentido do imperativo da habitação - é a teologia
do broto da praga.
A pergunta da encíclica: quem fez, para quem fez?
E se houver, atravessando a lei geral da subsistência, uma aventureira?
Cavala encilhada por uma vulva vagabunda - dois lábios vertidos e revertidos,
sem querer persistir mas arfando um nexo anexo ao dos administradores.
Ela, Marcela e concrescente, nunca é quixote
e tem nome de bruxa.