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sabato 25 aprile 2015

Extensão 2 (ou: Todas Nós Pós-Carbônicas)

Axioma 1: Os mapas decepcionam as viagens.
Axioma 2: Os calendários enrugam os dias.
Axioma 3: Mortalidade é ficar esperando (quem sabe faz a hora não espera acontecer?)
Corolário: O avesso da morte é um composto.

Assim se resolve aquele problema de três vinténs acerca da vida e da morte, problema aberto desde Beckett e portanto desde sempre. Vale três vinténs:
Vivos e mortos - e atormentados mesmo que servis - ficam no mundo. Ninguém vai embora, ninguém veio embora. Ninguém vai além. Não é algures e nem nenhures. Só fingem que servem os armários (e os horários, e os calendários): tudo é vestígio.

venerdì 24 aprile 2015

Poema que explica suas asas com versos (em composição há anos)

(Para o Sarau do Coletivo de Poetas, hoje)

Eu escrevo para poder tocar sua mão sem tocar sua mão.
Eu escrevo porque é a mão da sua mão que me toca.
Eu escrevo para inventar um espaço com as palavras da violência.
Eu escrevo para que minha voz fique esperando sua hora de ser ouvida.
Eu escrevo para que não ter que me intrometer.

Eu escrevo porque as palavras respiram nos encontros.
Eu escrevo para que haja palavras entre nós.
Eu escrevo para expressar, apressar, confessar, arremessar.
Eu escrevo porque não sei construir outros túneis entre as nossas retinas.
Eu escrevo para que o que eu sinto não vire só gargalhadas.
Eu escrevo para segurar as horas, segurar os dias, segurar as pontas, segurar meu próprio braço.
Eu escrevo para que o que eu sinto não vire só lágrimas.

Eu escrevo porque uma palavra pode salvar o mundo (por um segundo).
Eu escrevo para denunciar as rimas e as métricas que vejo por toda parte.
Eu escrevo porque prefiro viver em um lugar incompreensível com poemas do que em um lugar incompreensível sem poemas.
Eu escrevo para tentar passar a mão no seu coração, mesmo sabendo que pode ser que encontre só pedras.
Eu escrevo para soprar um ar nos seus pensamentos, mesmo sem dizer nada.
Eu escrevo porque há papéis em branco.
Eu escrevo para ficar sem dizer nada sem ficar sem fazer nada.
Eu escrevo para que o que você possa ser muitos vocês, eu possa ser outros eus e nós possamos nos perder nesta multidão.
Eu escrevo para me ver livre, pronto, falei, agora vou escrever um verso para me ver livre deste alívio.

Eu escrevo para correr riscos em uma linha reta.
Eu escrevo para desperdiçar tinta, papel, seu tempo, ao invés de só desperdiçar oxigênio.
Eu escrevo porque cada verso pode valer mais do que todos os poemas.

Eu escrevo para você encontrar uma desculpa para escrever.

Eu escrevo para não fazer diferença. Faz diferença fazer diferença?
Eu escrevo porque minhas pupilas esbarraram nas Possibilidades da Wislawa Szymborska e no Umbigo do Nicolas Behr.
Eu escrevo para girar na órbita do umbigo das possibilidades.
Eu escrevo porque as palavras germinam quase sem adubo.

Eu escrevo para fazer você mostrar os dentes.
Eu escrevo porque é de tinta, se fosse de pistache eu comeria.
Eu escrevo porque assim me sinto pronto para te dar explicações se você pedir.
Eu escrevo porque se não escrevesse minhas mãos invejariam meus olhos e meus dedos invejariam meus dentes. Seria a guerra de todos os órgãos contra todos os órgãos.
Eu escrevo para você poder sentir o prazer de não ler.

Eu escrevo para colocar um marcador no meio desta tarde ensolarada.
Eu escrevo para parar de ficar contando quantos minutos se passaram sem escrever nada.
Eu escrevo para encher o mundo (e este papel) de entrelinhas. Se eu pudesse escrever entrelinhas faria só com elas o meu testamento.

Eu escrevo porque o planeta é pequeno demais para não ter versos
Eu escrevo para que você tenha cabimento.
Eu escrevo porque senão teria que viver abraçado a uma árvore, que nunca me olha.
Eu escrevo para que o tempo passe bem.
Eu escrevo para que alguma palavra conquiste a sua confiança e te faça companhia.

Eu escrevo para sentir o conforto de estar cercado de versos por todos os lados.
Eu escrevo para que as coisas recebam das palavras pelo menos um leve aperto de mão.
Eu escrevo porque as palavras me escapam por todos os poros.
Eu escrevo para reencontrar as palavras também aqui, mais tarde.
Eu escrevo para que não haja apenas moléculas de oxigênio entre nós.
Eu escrevo para poder conversar os assuntos encerrados.

Eu escrevo porque gosto das montanhas de livro na falta de montanhas de pedra.
Eu escrevo para que as maçãs passadas não fedam sem conseqüência.
Eu escrevo porque as palavras me puxam pela mão e eu não resisto à tentação.
Eu escrevo para tentar ser um motorista desatento conduzindo os sonhos que eu esqueci.
Eu escrevo porque não tenho armário para guardar todas as coisas.

Eu escrevo para que meus olhos não sejam a única testemunha.

martedì 14 aprile 2015

no banheiro do meu pai

um rosto prostrado no vidro
deitado no leito de leite
do mar
porque
o mar
é um pedaço de outrora esticado

grande sertão, de Vicente de Paulo Siqueira

diadorim
vai
no seu
caminhão
levando
carvão
de montes
claros
à zona
do aço

giovedì 26 marzo 2015

Ouvindo sobre Rolêzinhos no Invisíveis da boca de Maurinete Lima

"O plano é seguido milimetricamente desde a escravidão."

Meu medo com os garotos que vão ao rolézinho, diz a mãe
É que o garoto não sabe mais qual é o seu lugar.
O objetivo: se dar bem com as garotas, e eles vão lá fazer política.
É fazer política? Política se faz, ou se deixa escapar?
Celebridade, tá entendendo?
Vai trabalhar, vagabundo, não sabendo o que eles estão fazendo
Uma coisa que os mais velhos não tivemos coragem de fazer.
- A ousadia de atravessar a ponte, de estar no lugar que não lhe é destinado.
Eu vim comprar, diz o Garoto, eu vim comprar, pra me certificar eu vim com mil manos. Os mil manos entortam o shopping. Entornam o segredo.
A segregação.

Por isso que o Jessé Sousa, o Criolo e o outro foram suprimidos,
Algum dia. Tiramos milhões de pessoas da pobreza pra ficar no mesmo lugar
O rolêzinho é assim: vamos pensar o que foi a Bolsa Família.
Eles tão querendo beijar 17 meninas dentro de um lugar de moral quadradinha,
Beijar, fazer amigos e comer no Mc.
E é tão pouco. Causando no shopping, sempre teve.
Cada um tinha seu rolêzinho.

Por que que as tionas são tão tristes?

Com o poder de consumo eles agora vão ao shopping.
A cidade continua apartada.
Meninos e meninas entre 13 e 17 anos acabam por colocar em xeque o apartheid social em que vivem.
O rolêzinho revela que o shopping é uma bolha moral
já que os jovens revelam que vão ao shopping para se divertir
e alguns se tornam mapeados.

Multas de 5 mil a 10 mil para a frequência nos shoppings.
A justiça, desta vez, corrobora. Não é a segurança, é o ministério público.
O ministério privado.
- Fazer desordem, são 80 mil seguidores no facebook – eles entram nas lojas e eles não podem entrar na loja que todo mundo avança.
O shopping não é nem público e nem privado, é público e é privado.
Não pode comprar, não vocês.
Acelera? – diz o rolêzinho
Essa catraca junta um valor, um valor que não pode ser parcelado,
ao contrário do tênis.
Um dos frequentadores do shopping Itaquera, que morreu 2 meses depois,
Diz que deixará de frequentar o shopping porque não tem dinheiro para pagar as multas.

Genocídio. Em vários graus. Que se matem uns aos outros.

Nossa sociedade, nossa sociedade, fala trezentas vezes desta nossa sociedade.
Não são graus, são estágios.
O primeiro estágio é dentro da escola.
A escola não envolve tudo o que ele sabe. Chama tamburete o banco?
Os subalternos falam todo o tempo, falam negro, falam nordestino?
Na escola: você é burro, você não entende nada.
Todos os professores diante de todas as aulas: você é burro. Bahiano.
“Eu acabo me sentindo menor” me diz o 7 a 14 anos.
Quem tava fora da faixa – tinha 9 e carecia ter 7 – nem se apresentava à escola.
Conheça o seu lugar.

Tudo o que você sabe não é nada, aqui.
Aperreada, vó? Deve ser palavrão, minha mãe proibiu palavrões.
Como que eu sei plantar?
Você sabe, e é uma coisa que é proibida a você.
É macaxeira e tamburete mesmo.
Tem nordestino no sangue de todo toca-discos.
A minha avó, eu tinha uma avó... sim do Ceará.
A Roberta, como a mãe casou com um branco,
Ela queria ir pra televisão, ser paquita.
Foi recusada como paquita.
E aí fez a festa – vai te catar.
Ela se achava branca, e o maior susto foi não ser. Não ser paquita.
O cabelo se herda da mãe - acha a mãe branca.

Mas estes aí, sem saber das toneladas que pesam os séculos, estão fazendo política corpo a corpo.
Atravessando o murão.
Itaquera fica na zona leste, faz o projeto do consumo, e o exclui.
Ruído. 8 de dezembro de 2013
6 mil adolescentes – e o shopping fechou duas horas mais cedo.
O tumulto, a polícia. O segundo... o terceiro...
O shopping fechou. Já não há mais shopping.
Há quando as catedrais eram brancas.
Não houve registro de furtos.

Vamo colá tumultuando a porra toda, curtindo uns funk e pegando geral.

Classe C em ascensão? É leite C que a gente tomava?
Já entramos nas caixinhas?

mercoledì 18 marzo 2015

Old lights

I turned too fast to the corner, the road was still wet
the car got out of control
the old car, i mean, the car from the old days
spun around, bumped into the pavement where no wanderer wanders.
the car was my parent's
we were ready for communism.
no one rang me, no one called me, no one was waiting for me
i was alone, as my substance asked me to,
and there was no mobile phones, no internet
just an exhausted hardware industry
and promises of transparency, of restructuration
by a worn out chief from the Kremlin
trying to present himself as glasnost-glamourous,
Gorby was from yet another time, and full of our vices
and full of our glories
we were ready for communism.
i felt bad for the car wasn't mine
my dad thought he worked somehow and they somehow
gave him money - there was no cause, no effect.
i learned in school there was no cause, no effect.
except when we got used to things
except when we expect
and we saw no point in expecting for
we were ready for communism
my mom wanted to promote the impossible dialogues
the priest with the teenager,
the road designer with the food carer,
the discipline with the spirit,
my dad and my craving for something else.
she dared, she tried, she deferred,
she was ready to disappear in the name of the right neon lights,
she was ready to tell me that what matters is where we're going -
we were ready for communism.
to be sure, my dad cherished property
my mom thought the future was next week,
and i mixed up football championships and forgiveness as a duty,
because i wanted to forgive
the big rocks and the mountains for their shining
i said: it is too late to learn, if learning is a mission,
the mission should be something else, should be respectful of these lights
i pointed at the lights of dusk, i thought a mandate was a matter of few days
for what else could it be, the sky was turning dark in seconds
and we were ready for communism.
maybe because there were no singing birds
no unicorns, no lonely stars, no news from across the sea
that would come to us everyday. there was just our functions,
that could be communist, that could be leading somewhere
for we would sit at the garage at the evening,
like all those suburb families in America,
and I would hear my parents say, only in constriction
that they were the old ones, that a youth was needed
and I would feel that I was no youth, I was waste unless
i would be ready for communism.
It was about time, yes, the passage of hours,
fix the car, pay the bill, have dinner
and wait for the family landline phone to ring for even the television,
the corporate television (there was no other), was waiting for communism
even in the wrong tune.
The family landline phone, of course, rang.



sabato 14 marzo 2015

Sublunar

No ouvido, quando eu a abracei, a pitangueira me disse trêmula:
de que lado, de que lado?
Do lado de baixo, eu respondi.
Há escaramuças?
Ela olhou a lua, a pitanga branca,
sem semente, e de lá quase que imediatamente
caíram os selenitas desertores
com seus avatares voadores
subliminares.

martedì 10 marzo 2015

Chutzpah: devoção à intrepidez do mundo

Chtuhlu, quando faz um apelo tépido às indignidades escondidas,
é chutzpah.
Existir, destinar, diferir - é abuso.
Intrépidas as coisas, inanimadas.
Como não escutar que todas elas escutam na voz de Suely
uma Joanna D'Arc aos berros,
em um headphone cromado leminski privado:
- Inspira. Conspira. Confira. E faz isso bem de manhãzinha.

sabato 28 febbraio 2015

Suely

Conheci a Suely por muitos anos. Através de muitos caminhos; um caminho me levava a ela, e também outro, e um bem diferente também. Parecia a praça da matriz - mas também uma saída para o mar. Uma vez subimos em um ficus enorme na 405 norte - que derrubaram sem pudor já há alguns anos - e ficamos com Miguel a discutir o que tem valor e o que vale a pena. São coisas contagiantes? Contagiosas? Mas só nos últimos dias do ano passado brotou uma amizade. Ela parecia ser feita de uma substância com a qual se faz os ímpetos solitários porque solidários, megalomaníacos porque minúsculos mas precisos. Um bálsamo.

Quando começou o ano escrevi para ela, "e então, quando começamos a terapia"? Vou demorar ainda para entender a resposta. Fui ao seu funeral - uma bactéria escolheu sua cabeça, e se alojou por ali. Deve ter encontrado a tal doçura nas conexões. Não conhecia sua família, ninguém. A neta eu conheci em um dos caminhos que levavam a ela - mas já tinha tempo. Quando em volta do corpo exposto, eu vi a Suely - vestida de preto e com toda a sua vivacidade, seu acolhimento, seus compassos. Pensei, deve ser a irmã. Irmãs são assim, recapitulam até as singularidades singularíssimas - e temperam com outro pó. Mas parecia que aquela irmã era a Suely pó por pó. Olhei para o resto da multidão quando de repente me olha ela, e faz um outro gesto de Suely e me abraça. Um abraço demorado como aqueles da Suely, de benção, cumplicidade e braços abertos. Era um abraço da Suely. Apenas, talvez, mais demorado; acontecem aos abraços demorarem mais nos funerais. Em seguida, nenhuma palavra. Também o silêncio é uma coisa que se passa nos funerais. Alguém passou por ela e disse: também quero um abraço seu. Corri para o Maurice e perguntei: quem era aquela que eu abraçava, a Suely? Solange, ele disse, sua irmã. Parece mesmo muito com ela. Mas de onde ela me conhece? Maurice vaticina: as coisas entre o céu e a terra de que tantos falam ficam soltas nestas horas, você sabe. Pergunto ao Fininho, o dono do café que a Suely frequentava. Não, ele diz, ela nunca foi ao café - nem sequer morava na cidade. Pergunto a Letícia: elas são parecidas, mas muito diferentes; bom para a Solange que ela deixou que o abraço da Suely lhe contagiasse. Depois do longo aplauso que fizemos todos à vida da Suely - um pôr-do-ser - aparece sua mãe que, diferente de Suely e de qualquer irmã, continha como um ovo a força de passar um entardecer em um platô de uma árvore. Já do lado de fora, aparece Solange, irmã de Suely - fala com o Fininho mas não comigo. Pois claro, não me conhece. Ela não está mais com a mesma roupa, né Fininho, eu pergunto. E ele: não reparei.

Ao final, nas despedidas, Solange está dentro do carro e eu aceno para ela. Ela me manda um beijo. O carro funerário tinha já partido, eu acho, para o crematório. Saio ao lado do Fininho do cemitério. Ele me diz: na última troca de mensagens que eu tive com a Suely ela disse "vou passar no café", e eu respondi: "oba", mas foi ela que mandou a última mensagem: "talvez".

Quem não precisa de dicionário para ler seu diário?


lunedì 23 febbraio 2015

Acalanto de Reb Azar (em construção)

Os grãos de areia grudados no joelho
serão os mesmos que você limpa com as mãos?
Assim são as palavras, o coelho que sai da cartola
não é aquele que entrou na plantação
e a carambola que cai no chão
não é o avesso da caraminhola.

A questão é a versatilidade
A resposta é a breve claridade
A interrogação é um pacto com o futuro
Cada passo em falso é uma subversão.

Tem a pergunta precária
E tem o seu contrário, o interrogatório
A coragem não está na resposta
Satisfatória
Tá na sabotagem discreta
De quem desmonta o crematório.
Porque a coragem não intimida,
não é pesticida, não tira vida

Cada ideia tem apito e machucado
Faniquito e chocolate granulado
Pensamento é bicho de monte
A liberdade está em encontrar a fonte
No meio da batida das horas
inventar jabuticaba e amora

Já a hospitalidade é o encontro dos caminhos
Mais do que a solidariedade,
ela é a espera sem certeza.

Cada palavra é um cavalo alazão
Leva longe como a confabulação
Mesmo quando fazemos a ronda
É sua onda que não nos deixa no chão.

O caminho da sabedoria
É redondo como a melancia

Impróprio

E se a pressa florear mais do que uma revoada de nibelungos?

Dirigindo um carro alugado em uma oficina de Simões Filho,
vou seguindo as indicações para Canudos
onde vou encontrar dois galegos, um condicionador de chocolate
e uma museu feito de espigas de milho.
Piso no freio e ao lado dele não tem outro pedal.
Não tem pedal de correr, só de ficar.
Olho a paisagem onde tem um regato, uma árvore de cenoura,
e o barro marcado com pés soberanos.
No radio dizem que aboliram a propriedade privada
e a propridade pública
na Grécia - ou no Curdistão.
Se tudo ficar impróprio, não tenho mais que seguir na estrada.
Já cheguei. E posso comer as cenouras até dos galhos mais altos.

Lição de carnaval para a cria: o amor

O amor tem muitas tabuadas
Porque tem muitos fluxos e muitos luxos.
Muitos azeites.
Muitas esperas.
Muitas cascas e uma pequena castanha
que é o avesso da demora.
Mas não tem restrição.

E tem que morar nos controles de passaporte;
isso é muito difícil.
para mim que moro nos controles de passaporte
e no amor.
Devrim, para mim, é muito difícil.
Para você espero que seja um vento na cabeça.