as sombras longas esbaldam
eu quero ficar baldio
com olhos enfeitados de sombras esticadas
e tortas.
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venerdì 30 luglio 2010
giovedì 22 luglio 2010
me confino
ando querendo sempre voltar para casa
me limito
mesmo em casa quero voltar para casa
me imito
deve ser vontade de caixão
me limito
mesmo em casa quero voltar para casa
me imito
deve ser vontade de caixão
martedì 20 luglio 2010
ou mais uns artigos da autoconstituição
Autoconstituição
Preâmbulo:
nada o nada em tudo
nada o quase nada também
nado uns cinco oceanos
Artigo 1:
sou uma partícula
de excesso solta. logo nem
tenho cabimento
Artigo 2:
eu próprio sou impróprio
sou só rios que me atravessam
e pedras de comer
Artigo 3:
não trato da vida
é ela que me trata – e até bem
mas ela é tratante?
Artigo 4:
amo fevereiros
sombra e luz do ano inteiro
num esplendor no chão
Artigo 5 (ou, minha vida em desessete capítulos):
nasci da W-3
revoguei as indisposições
flori de insensatez
Artigo 6:
gosto de ver rostos
corro para água corrente
pela poça, sou o céu
Artigo 7:
bem que adoro exceções
mal percebo os trens no trilho
só o espaço entre os vagões
Artigo 8:
eu quando transtorno
desenho em mim outra forma
depois a transbordo
Artigo 9:
demoro a descobrir
pra pegar e sair vivendo
que é de pó onde morro
Artigo 10
sonho em ser andróide
maquiar a tireóide ao espelho
pôr Freud do avesso
Artigo 11
na vida é iminente
que uma eminência imanente
me manda e me mente
Artigo 12
o que é que eu sou mesmo?
uma antena entre torresmos
ou uma lesma a esmo?
Artigo 13
singular, sem lugar
bóio entre casas, casamentos
não moro, esparramo
Artigo 14
prego ambivalência
amo a insolência indolente
mesmo a sonolenta
Artigo 15
sou confusionista
meus prazeres não tem prazos
confusões sem hora
Artigo 16
excreto quase tudo
exceto o excesso e o que falta
quando falta exceção
Artigo 17
se já venho a calhar?
penso sempre um calhamaço e
falo das migalhas
Artigo 18
gosto dos desejos
rimo remela e sapiência
bocejo e inspiração
Artigo 19
crio exageros novos
ordem é cão, caos 171
sou mato na cerca
Artigo 20
falo da palavra
ao vento, ao fogo, ao matagal
e com um ninho dentro
Artigo 21
amo papel em branco
solto na rua, já que há vultos
avulsos em tudo
Artigo 22
ordeno-me: odeie mesmos
até a si mesmo, ate a corda
e solte o braço
Artigo 23
detesto a precisão
de tabus e tabuadas
prefiro infiltração
Artigo 24
só respiro bem mal
sugo um ar todo empestado
saio cheirando torto
Preâmbulo:
nada o nada em tudo
nada o quase nada também
nado uns cinco oceanos
Artigo 1:
sou uma partícula
de excesso solta. logo nem
tenho cabimento
Artigo 2:
eu próprio sou impróprio
sou só rios que me atravessam
e pedras de comer
Artigo 3:
não trato da vida
é ela que me trata – e até bem
mas ela é tratante?
Artigo 4:
amo fevereiros
sombra e luz do ano inteiro
num esplendor no chão
Artigo 5 (ou, minha vida em desessete capítulos):
nasci da W-3
revoguei as indisposições
flori de insensatez
Artigo 6:
gosto de ver rostos
corro para água corrente
pela poça, sou o céu
Artigo 7:
bem que adoro exceções
mal percebo os trens no trilho
só o espaço entre os vagões
Artigo 8:
eu quando transtorno
desenho em mim outra forma
depois a transbordo
Artigo 9:
demoro a descobrir
pra pegar e sair vivendo
que é de pó onde morro
Artigo 10
sonho em ser andróide
maquiar a tireóide ao espelho
pôr Freud do avesso
Artigo 11
na vida é iminente
que uma eminência imanente
me manda e me mente
Artigo 12
o que é que eu sou mesmo?
uma antena entre torresmos
ou uma lesma a esmo?
Artigo 13
singular, sem lugar
bóio entre casas, casamentos
não moro, esparramo
Artigo 14
prego ambivalência
amo a insolência indolente
mesmo a sonolenta
Artigo 15
sou confusionista
meus prazeres não tem prazos
confusões sem hora
Artigo 16
excreto quase tudo
exceto o excesso e o que falta
quando falta exceção
Artigo 17
se já venho a calhar?
penso sempre um calhamaço e
falo das migalhas
Artigo 18
gosto dos desejos
rimo remela e sapiência
bocejo e inspiração
Artigo 19
crio exageros novos
ordem é cão, caos 171
sou mato na cerca
Artigo 20
falo da palavra
ao vento, ao fogo, ao matagal
e com um ninho dentro
Artigo 21
amo papel em branco
solto na rua, já que há vultos
avulsos em tudo
Artigo 22
ordeno-me: odeie mesmos
até a si mesmo, ate a corda
e solte o braço
Artigo 23
detesto a precisão
de tabus e tabuadas
prefiro infiltração
Artigo 24
só respiro bem mal
sugo um ar todo empestado
saio cheirando torto
de onde vem este cheiro de ópio?
fui criado por um deus triste e quieto
sem despudor, sem vaidade, sem tabule
me fez feito de tabus e de tabuadas
com régua nos olhos, tatuagens nos pés.
sou de um cosmos em anargosmia
que se debate e anda pelas linhas retas
como um cachorro encabulado do dono
que o passeia sem nem ter o que fazer.
alieno-me, fujo para o meio da rua
sou atropelado.
sem despudor, sem vaidade, sem tabule
me fez feito de tabus e de tabuadas
com régua nos olhos, tatuagens nos pés.
sou de um cosmos em anargosmia
que se debate e anda pelas linhas retas
como um cachorro encabulado do dono
que o passeia sem nem ter o que fazer.
alieno-me, fujo para o meio da rua
sou atropelado.
giovedì 15 luglio 2010
A Yeats on Singularity spread by Manuel
"Never shall a young man,
Thrown into despair
By those great honey-coloured
Ramparts at your ear,
Love you for yourself alone
And not your yellow hair."
"But I can get a hair-dye
And set such colour there,
Brown, or black, or carrot,
That young men in despair
May love me for myself alone
And not my yellow hair."
"I heard an old religious man
But yesternight declare
That he had found a text to prove
That only God, my dear,
Could love you for yourself alone
And not your yellow hair."
Thrown into despair
By those great honey-coloured
Ramparts at your ear,
Love you for yourself alone
And not your yellow hair."
"But I can get a hair-dye
And set such colour there,
Brown, or black, or carrot,
That young men in despair
May love me for myself alone
And not my yellow hair."
"I heard an old religious man
But yesternight declare
That he had found a text to prove
That only God, my dear,
Could love you for yourself alone
And not your yellow hair."
venerdì 9 luglio 2010
Escola e Estilo (Mira Alves)
Tem escola
e tenho estilo
sou isto
e sou aquilo
o meu estilo?
Depende do meu
estado de espírito.
Estado de espírito?
Tenho todos.
MIRA vende Escola, Estilo e bons formigamentos pelas ruas de Brasília.
Comprem.
e tenho estilo
sou isto
e sou aquilo
o meu estilo?
Depende do meu
estado de espírito.
Estado de espírito?
Tenho todos.
MIRA vende Escola, Estilo e bons formigamentos pelas ruas de Brasília.
Comprem.
mercoledì 7 luglio 2010
As resoluções da Comuna (Paris, 1871) - Brecht
Alain Badiou conta que quando Brecht voltou a DDR, em 1948, ele apresentou como cartão de visitas uma peça sobre a Comuna de Paris: Os dias da Comuna. A peça não foi muito bem aceita - Darwish diria, para alguma coisa servem as derrotas. Na peça havia um canto sobre as resoluções dos Communards, que traduzo a partir da versão do Badiou:
Considerando que vocês nunca chegaram
a nos oferecer salários decentes,
nós mesmos agora tomaremos as fábricas,
Considerando que sem vocês
haverá o suficiente para nós.
Considerando que vocês escolheram
nos ameaçar com fuzis e canhões,
nós decidimos que uma vida miserável
era para nós pior que a morte.
Considerando que seja o que for que ele prometesse
nós não confiávamos no governo,
nós decisimos que a partir de agora
sob nossa direção
nós construiremos uma vida melhor.
Considerando que aos canhões vocês obedecem,
e é a única linguagem que vocês entendem,
nós iremos dever, com todo banefício,
virar os canhões contra vocês.
Considerando que vocês nunca chegaram
a nos oferecer salários decentes,
nós mesmos agora tomaremos as fábricas,
Considerando que sem vocês
haverá o suficiente para nós.
Considerando que vocês escolheram
nos ameaçar com fuzis e canhões,
nós decidimos que uma vida miserável
era para nós pior que a morte.
Considerando que seja o que for que ele prometesse
nós não confiávamos no governo,
nós decisimos que a partir de agora
sob nossa direção
nós construiremos uma vida melhor.
Considerando que aos canhões vocês obedecem,
e é a única linguagem que vocês entendem,
nós iremos dever, com todo banefício,
virar os canhões contra vocês.
venerdì 2 luglio 2010
Una Paulina Vinderman
Otra vez cúpulas en ele poema, otra vez la ciudad
Las travesías se volvieron copias
de ciudades tocadas sólo por supervivencia,
para regresar a la mia.
Como si ella contiviera todos los números, los secretos,
las passiones del mundo.
Alguna vez una calle me devuelve el desierto
y cuando oscurece,
las sombras de las bolsas de basura
son instalaciones de museo, que sólo puedo ver
cuando mi memoria agotada olvida el mar, aquellas grúas
detrás de las cercas, la mujer de turbante azul que
me vendió la caja mágica y la oportunidad
de atesorar mis miedos como mariposas atrapadas
en la belleza de su oro
Hay que aprender la asfixia como se aprende un idioma.
Nadie llorará por la ausencia de las alas contra el cielo.
Las travesías se volvieron copias
de ciudades tocadas sólo por supervivencia,
para regresar a la mia.
Como si ella contiviera todos los números, los secretos,
las passiones del mundo.
Alguna vez una calle me devuelve el desierto
y cuando oscurece,
las sombras de las bolsas de basura
son instalaciones de museo, que sólo puedo ver
cuando mi memoria agotada olvida el mar, aquellas grúas
detrás de las cercas, la mujer de turbante azul que
me vendió la caja mágica y la oportunidad
de atesorar mis miedos como mariposas atrapadas
en la belleza de su oro
Hay que aprender la asfixia como se aprende un idioma.
Nadie llorará por la ausencia de las alas contra el cielo.
23 versos de Economía de Tihuantinsuyu (de E. Cardenal)
No tuvieron dinero
el oro era para hacer lagartija
y no monedas
los atavíos
que fulguraban como fuego
a la luz del sol o las hogueras
las imagenes de los dioses
y las mujeres que amaron
y no monedas
Millares de fraguas brillando en la noche de los
Andes
y con abundancia de oro y plata
no tuvieron dinero
supieron
vaciar laminar soldar grabar
el oro y la plata
el oro: el sudor del sol
la plata: las lágrimas de la luna
Hilos cuentas filigranas
alfileres
pectorales
cascabeles
pero no dinero
el oro era para hacer lagartija
y no monedas
los atavíos
que fulguraban como fuego
a la luz del sol o las hogueras
las imagenes de los dioses
y las mujeres que amaron
y no monedas
Millares de fraguas brillando en la noche de los
Andes
y con abundancia de oro y plata
no tuvieron dinero
supieron
vaciar laminar soldar grabar
el oro y la plata
el oro: el sudor del sol
la plata: las lágrimas de la luna
Hilos cuentas filigranas
alfileres
pectorales
cascabeles
pero no dinero
uma questão de poder
ontem trepei com o demônio
por toda a tarde
sabia que ela vem sem hora marcada
sabia que ela não volta
sabia que ela faz dobraduras na minha carne
ofereci ao demônio um papel timbrado
ele ficou sonâmbulo, analfabeto e gozou
imperdível
peguei uma corda grossa, mas que não arranha a pele
comecei a amarrar, obstinado
o caminho mais curto não é o mais reto
é aquele com o vento mais favorável à minha vela
sou um navegador que sabe dar meus nós nas cordas
e não quero que te machuque a minha ausência, meu deus
deus irrecusável
terminei o nó nos pulsos e ouvi o balbucio do meu nome
era preciso ter fé
no insensato
libertar a tinhosa, a tremedeira
não te machuques, fique sendo meu devoto
ou meu carrasco
no chão encharcado
por toda a tarde
sabia que ela vem sem hora marcada
sabia que ela não volta
sabia que ela faz dobraduras na minha carne
ofereci ao demônio um papel timbrado
ele ficou sonâmbulo, analfabeto e gozou
imperdível
peguei uma corda grossa, mas que não arranha a pele
comecei a amarrar, obstinado
o caminho mais curto não é o mais reto
é aquele com o vento mais favorável à minha vela
sou um navegador que sabe dar meus nós nas cordas
e não quero que te machuque a minha ausência, meu deus
deus irrecusável
terminei o nó nos pulsos e ouvi o balbucio do meu nome
era preciso ter fé
no insensato
libertar a tinhosa, a tremedeira
não te machuques, fique sendo meu devoto
ou meu carrasco
no chão encharcado
mercoledì 23 giugno 2010
Manifesto Viado (de Felipe Areda)
manifesto*
andava na rua e ao lado...
o grito que era constante...
do senhor que se julga decente,
honesto, cidadão, bom, importante,
do político sincero e decoroso,
do casto padre recatado,
do justo pastor honrado,
do pai dedicado e amoroso,
e outros que por juízo, julgamento, razão,
política, conceito, poder, absolvição,
perdão, mágoa, medo, indignação,
ódio, revolta, raciocínio, incompreensão
olhavam para mim e viam a cisão
do que diziam ser certo, natural, correto
olhavam pra mim e passavam direto
se arrastavam para a rua do outro lado,
se afastando do que dizem ser errado,
enquanto o lábio trêmulo murmurava,
com uma voz ríspida, rouca e brava,
um xingamento que de longe cortava:
viado!
dizia que eu rompia a lei de deus,
a lei da família e da natureza,
da comunidade, da humanidade, da certeza,
da identidade, da verdade, da clareza,
dos valores compartilhados, seus e meus,
mesmo que nem todas acreditassem nesse deus,
a ele deviam se submeter,
sempre
ser colocadas no lugar, aprender
sempre sempre
as pessoas devem seguir reto e a moral prevalecer
sempre sempre sempre
e eu não posso ser o que sou
foi o que disse o som uníssono que ecoou:
viado!
porque ser isso é ser dejeto,
animal,inumano,abjeto,
indigente, miserável, excreto,
a quem o ódio deve ser o único afeto.
eu não posso ser o que sou.
foi o que disse a professora que brigou
quando percebeu o menino feminino,
pouco masculino, afetado,
que não reagia, que não respondia
com a violência esperada de um macho
– deve ser a falta de referência, acho.
falta um pai, tio presente, um padrasto,
alguém que o leve a um puteiro para deixar de ser casto.
– deve ser influência da TV, acho.
daquele ator afetado, das músicas modernas,
dos cantores, das artistas, das badernas.
– que tal fazermos um despacho?
exorcizá-lo, benzê-lo, rezá-lo,
curá-lo, tratá-lo, interná-lo.
– talvez precise de psicólogo, de aconselhamento.
está só querendo atenção, carinho, acalento.
– precisa de surra, ferro quente,
porrada, tapa pra ser valente.
– precisa ser comido para aprender,
se é isso que gosta, agora vai ter.
– precisa ser apedrejado,
levar tiro, paulada, açoitado,
ser esfaqueado, morto degolado,
ter o corpo queimado, o rosto deformado.
ter o corpo jogado no lixo,
ser tratado que nem bicho,
porque é isso que é...
é bicha!
é viado!
no brasil, pelo que diz a mídia
um dos meus é morto a cada dois dias
deve ser mais,
mas de vida que não importa,
morte não faz notícia nos jornais.
os policiais, ladrões, boyzinhos, pais,
colegas, vizinhos, pessoas normais,
amigos, amantes, pessoas banais,
lembram que a homofobia mata,
que a discriminação maltrata
que preconceito solapa, ata e cala.
lembram que eu devo tomar cuidado,
estar atento com quem ando, converso e falo.
me masculinizar, não dar pinta.
não beijar quem eu amo em público,
não importa quanta vontade sinta.
mas tem hora que esqueço,
sou o que sou e pronto.
mas logo o homem a quem afronto,
me lembra, xinga e diz que mereço.
com a veia do pescoço em palpitação,
desvia os olhos dos filhos de minha direção
e grita alterado e em consternação:
viado!
e como a vida de quem não importa tanto importa,
por não ser direita, por ser torta,
por não ser bem cuidada, várias se dispõem a cuidar.
e as pessoas se reúnem, comentam, fofocam,
vigiam, monitoram, regulam, controlam
– será que ele é?
– se não é ainda vai ser...
vai ser o que não pode ser...
pois é o que nem mesmo é.
viado!
viado!
viado!
ora, não pense que me calo,
que apanho quieto e não falo,
que baixo a cabeça, saio e choro,
que corro, fujo e me apavoro.
não se engane, macho.
ora, não pense que desisto,
que me entrego, não revido,
que converto, me reverto,
que me torno o que você quer eu seja,
para você ter certeza de que não é
viado!
tem medo de que?
de que lhe contamine.
de que lhe perverta, transforme, corrompa.
que o desnaturado lhe desnature.
que os degenerados ameaçem seu gênero,
seu gene, gêneses, geração.
tem medo porque?
porque odeia o diferente
ou porque tem que me odiar para fazer de mim seu diferente?
não posso estar perto,
para que esteja certo,
do que é e não pode ser
viado!
pois então, deixa que eu me aproximo
chego perto, olhos nos seus olhos e digo
não adianta esmurrar, bater, matar,
você não vai conseguir nos calar,
nem a mim, nem a meus irmãos e irmãs,
gays, bichas, travestis, sapatas, lésbicas, transexuais,
proliferação de dissidentes, diversas, anormais.
gente que não é o que você é,
porque não quer ser,
porque não precisa ser,
porque não é e não vai tentar ser.
o que diz ser tormento,
pecado, crime, doença, desvio,
e usa como insulto, afronta, ultraje, ofensa e xingamento,
eu me digo com orgulho e anuncio:
se ser humano é ser isso,
afastar, odiar, temer,
matar, destroçar, corroer,
digo com força, coragem e viço
prefiro não ser
e ser
ser de outro jeito, por outra vida, por outra via...
...do jeito que sou e quero ser
viado!
felipe areda, viado e militante do coletivo de micro-políticas feministas corpus crisis.
*publicado em “O Miraculoso”. Brasília, maio de 2010. 3ª Ediçã
andava na rua e ao lado...
o grito que era constante...
do senhor que se julga decente,
honesto, cidadão, bom, importante,
do político sincero e decoroso,
do casto padre recatado,
do justo pastor honrado,
do pai dedicado e amoroso,
e outros que por juízo, julgamento, razão,
política, conceito, poder, absolvição,
perdão, mágoa, medo, indignação,
ódio, revolta, raciocínio, incompreensão
olhavam para mim e viam a cisão
do que diziam ser certo, natural, correto
olhavam pra mim e passavam direto
se arrastavam para a rua do outro lado,
se afastando do que dizem ser errado,
enquanto o lábio trêmulo murmurava,
com uma voz ríspida, rouca e brava,
um xingamento que de longe cortava:
viado!
dizia que eu rompia a lei de deus,
a lei da família e da natureza,
da comunidade, da humanidade, da certeza,
da identidade, da verdade, da clareza,
dos valores compartilhados, seus e meus,
mesmo que nem todas acreditassem nesse deus,
a ele deviam se submeter,
sempre
ser colocadas no lugar, aprender
sempre sempre
as pessoas devem seguir reto e a moral prevalecer
sempre sempre sempre
e eu não posso ser o que sou
foi o que disse o som uníssono que ecoou:
viado!
porque ser isso é ser dejeto,
animal,inumano,abjeto,
indigente, miserável, excreto,
a quem o ódio deve ser o único afeto.
eu não posso ser o que sou.
foi o que disse a professora que brigou
quando percebeu o menino feminino,
pouco masculino, afetado,
que não reagia, que não respondia
com a violência esperada de um macho
– deve ser a falta de referência, acho.
falta um pai, tio presente, um padrasto,
alguém que o leve a um puteiro para deixar de ser casto.
– deve ser influência da TV, acho.
daquele ator afetado, das músicas modernas,
dos cantores, das artistas, das badernas.
– que tal fazermos um despacho?
exorcizá-lo, benzê-lo, rezá-lo,
curá-lo, tratá-lo, interná-lo.
– talvez precise de psicólogo, de aconselhamento.
está só querendo atenção, carinho, acalento.
– precisa de surra, ferro quente,
porrada, tapa pra ser valente.
– precisa ser comido para aprender,
se é isso que gosta, agora vai ter.
– precisa ser apedrejado,
levar tiro, paulada, açoitado,
ser esfaqueado, morto degolado,
ter o corpo queimado, o rosto deformado.
ter o corpo jogado no lixo,
ser tratado que nem bicho,
porque é isso que é...
é bicha!
é viado!
no brasil, pelo que diz a mídia
um dos meus é morto a cada dois dias
deve ser mais,
mas de vida que não importa,
morte não faz notícia nos jornais.
os policiais, ladrões, boyzinhos, pais,
colegas, vizinhos, pessoas normais,
amigos, amantes, pessoas banais,
lembram que a homofobia mata,
que a discriminação maltrata
que preconceito solapa, ata e cala.
lembram que eu devo tomar cuidado,
estar atento com quem ando, converso e falo.
me masculinizar, não dar pinta.
não beijar quem eu amo em público,
não importa quanta vontade sinta.
mas tem hora que esqueço,
sou o que sou e pronto.
mas logo o homem a quem afronto,
me lembra, xinga e diz que mereço.
com a veia do pescoço em palpitação,
desvia os olhos dos filhos de minha direção
e grita alterado e em consternação:
viado!
e como a vida de quem não importa tanto importa,
por não ser direita, por ser torta,
por não ser bem cuidada, várias se dispõem a cuidar.
e as pessoas se reúnem, comentam, fofocam,
vigiam, monitoram, regulam, controlam
– será que ele é?
– se não é ainda vai ser...
vai ser o que não pode ser...
pois é o que nem mesmo é.
viado!
viado!
viado!
ora, não pense que me calo,
que apanho quieto e não falo,
que baixo a cabeça, saio e choro,
que corro, fujo e me apavoro.
não se engane, macho.
ora, não pense que desisto,
que me entrego, não revido,
que converto, me reverto,
que me torno o que você quer eu seja,
para você ter certeza de que não é
viado!
tem medo de que?
de que lhe contamine.
de que lhe perverta, transforme, corrompa.
que o desnaturado lhe desnature.
que os degenerados ameaçem seu gênero,
seu gene, gêneses, geração.
tem medo porque?
porque odeia o diferente
ou porque tem que me odiar para fazer de mim seu diferente?
não posso estar perto,
para que esteja certo,
do que é e não pode ser
viado!
pois então, deixa que eu me aproximo
chego perto, olhos nos seus olhos e digo
não adianta esmurrar, bater, matar,
você não vai conseguir nos calar,
nem a mim, nem a meus irmãos e irmãs,
gays, bichas, travestis, sapatas, lésbicas, transexuais,
proliferação de dissidentes, diversas, anormais.
gente que não é o que você é,
porque não quer ser,
porque não precisa ser,
porque não é e não vai tentar ser.
o que diz ser tormento,
pecado, crime, doença, desvio,
e usa como insulto, afronta, ultraje, ofensa e xingamento,
eu me digo com orgulho e anuncio:
se ser humano é ser isso,
afastar, odiar, temer,
matar, destroçar, corroer,
digo com força, coragem e viço
prefiro não ser
e ser
ser de outro jeito, por outra vida, por outra via...
...do jeito que sou e quero ser
viado!
felipe areda, viado e militante do coletivo de micro-políticas feministas corpus crisis.
*publicado em “O Miraculoso”. Brasília, maio de 2010. 3ª Ediçã
horror ao horizonte
Sonhei com um poema que dizia de novo em folha
que pedra não era de.pedra.dade...
dizia assim, com pontos entre as palavras,
e soltava uma fumaça que protestava
contra os atributos das coisas, contra as coisas.
Acordei com a fumaça.
Quando sonho com coisas em geral, vejo pedras.
Não vejo besouros, dobras ou gotas de esperma.
E a pedra é grande, ela abriga a realidade toda, é coisa.
Acordei como uma escrava fugida capturada.
Açoitada, mas excitada com a fuga.
Túgido.
Há outras paragens
onde parar.
Sobrou o horizonte dos versos, longos, repletos
do poema da pedra.
Que coisa.
que pedra não era de.pedra.dade...
dizia assim, com pontos entre as palavras,
e soltava uma fumaça que protestava
contra os atributos das coisas, contra as coisas.
Acordei com a fumaça.
Quando sonho com coisas em geral, vejo pedras.
Não vejo besouros, dobras ou gotas de esperma.
E a pedra é grande, ela abriga a realidade toda, é coisa.
Acordei como uma escrava fugida capturada.
Açoitada, mas excitada com a fuga.
Túgido.
Há outras paragens
onde parar.
Sobrou o horizonte dos versos, longos, repletos
do poema da pedra.
Que coisa.
sabato 12 giugno 2010
Blake's Proverbs of Hell
No dia dos namorados, um trecho de casamento, do Marriage of Heaven and Hell de William Blake, Proverbs from Hell.
In seed time learn, in harvest teach, in winter enjoy.
Drive your cart and your plow over the bones of the dead.
The road of excess leads to the palace of wisdom.
Prudence is a rich ugly old maid courted by Incapacity.
He who desires but acts not, breeds pestilence.
The cut worm forgives the plow.
Dip him in the river who loves water.
A fool sees not the same tree that a wise man sees.
He whose face gives no light, shall never become a star.
Eternity is in love with the productions of time.
The busy bee has no time for sorrow.
The hours of folly are measur'd by the clock, but of wisdom: no clock can measure.
All wholsom food is caught without a net or a trap.
Bring out number weight & measure in a year of dearth.
No bird soars too high, if he soars with his own wings.
A dead body revenges not injuries.
The most sublime act is to set another before you.
If the fool would persist in his folly he would become wise.
Folly is the cloke of knavery.
Shame is Prides cloke.
Prisons are built with stones of Law, Brothels with bricks of Religion.
The pride of the peacock is the glory of God.
The lust of the goat is the bounty of God.
The wrath of the lion is the wisdom of God.
The nakedness of woman is the work of God.
Excess of sorrow laughs. Excess of joy weeps.
The roaring of lions, the howling of wolves, the raging of the stormy sea, and the destructive sword, are portions of eternity too great for the eye of man.
The fox condemns the trap, not himself.
Joys impregnate. Sorrows bring forth.
Let man wear the fell of the lion. woman the fleece of the sheep.
The bird a nest, the spider a web, man friendship.
The selfish smiling fool, & the sullen frowning fool shall be both thought wise, that they may be a rod.
What is now proved was once only imagin'd.
The rat, the mouse, the fox, the rabbet; watch the roots; the lion, the tyger, the horse, the elephant, watch the fruits.
The cistern contains: the fountain overflows.
One thought fills immensity.
Always be ready to speak your mind, and a base man will avoid you.
Every thing possible to be believ'd is an image of truth.
The eagle never lost so much time, as when he submitted to learn of the crow.
The fox provides for himself. but God provides for the lion.
Think in the morning. Act in the noon. Eat in the evening. Sleep in the night.
He who has suffer'd you to impose on him knows you.
As the plow follows words, so God rewards prayers.
The tygers of wrath are wiser than the horses of instruction.
Expect poison from the standing water.
You never know what is enough unless you know what is more than enough.
Listen to the fools reproach! it is a kingly title!
The eyes of fire, the nostrils of air, the mouth of water, the beard of earth.
The weak in courage is strong in cunning.
The apple tree never asks the beech how he shall grow; nor the lion, the horse, how he shall take his prey.
The thankful reciever bears a plentiful harvest.
If others bad not been foolish, we should be so.
The soul of sweet delight can never be defil'd.
When thou seest an Eagle, thou seest a portion of Genius. lift up thy head!
As the catterpiller chooses the fairest leaves to lay her eggs, so the priest lays his curse on the fairest joys.
To create a little flower is the labour of ages.
Damn braces: Bless relaxes.
The best wine is the oldest, the best water the newest.
Prayers plow not! Praises reap not!
Joys laugh not! Sorrows weep not!
The head Sublime, the heart Pathos, the genitals Beauty, the hands & feet Proportion.
As the air to a bird or the sea to a fish, so is contempt to the contemptible.
The crow wish'd every thing was black, the owl, that every thing was white.
Exuberance is Beauty.
If the lion was advised by the fox. he would be cunning.
Improvement makes strait roads, but the crooked roads without Improvement, are roads of Genius.
Sooner murder an infant in its cradle than nurse unacted desires.
Where man is not, nature is barren.
Truth can never be told so as to be understood, and not be believ'd.
Enough! or Too much.
The ancient Poets animated all sensible objects with Gods or Geniuses, calling them by the names and adorning them with the properties of woods, rivers, mountains, lakes, cities, nations, and whatever their enlarged & numerous senses could percieve.
And particularly they studied the genius of each city & country, placing it under its mental deity;
Till a system was formed, which some took advantage of & enslav'd the vulgar by attempting to realize or abstract the mental deities from their objects: thus began Priesthood;
Choosing forms of worship from poetic tales.
And at length they pronounc'd that the Gods had order'd such things.
Thus men forgot that All deities reside in the human breast.
In seed time learn, in harvest teach, in winter enjoy.
Drive your cart and your plow over the bones of the dead.
The road of excess leads to the palace of wisdom.
Prudence is a rich ugly old maid courted by Incapacity.
He who desires but acts not, breeds pestilence.
The cut worm forgives the plow.
Dip him in the river who loves water.
A fool sees not the same tree that a wise man sees.
He whose face gives no light, shall never become a star.
Eternity is in love with the productions of time.
The busy bee has no time for sorrow.
The hours of folly are measur'd by the clock, but of wisdom: no clock can measure.
All wholsom food is caught without a net or a trap.
Bring out number weight & measure in a year of dearth.
No bird soars too high, if he soars with his own wings.
A dead body revenges not injuries.
The most sublime act is to set another before you.
If the fool would persist in his folly he would become wise.
Folly is the cloke of knavery.
Shame is Prides cloke.
Prisons are built with stones of Law, Brothels with bricks of Religion.
The pride of the peacock is the glory of God.
The lust of the goat is the bounty of God.
The wrath of the lion is the wisdom of God.
The nakedness of woman is the work of God.
Excess of sorrow laughs. Excess of joy weeps.
The roaring of lions, the howling of wolves, the raging of the stormy sea, and the destructive sword, are portions of eternity too great for the eye of man.
The fox condemns the trap, not himself.
Joys impregnate. Sorrows bring forth.
Let man wear the fell of the lion. woman the fleece of the sheep.
The bird a nest, the spider a web, man friendship.
The selfish smiling fool, & the sullen frowning fool shall be both thought wise, that they may be a rod.
What is now proved was once only imagin'd.
The rat, the mouse, the fox, the rabbet; watch the roots; the lion, the tyger, the horse, the elephant, watch the fruits.
The cistern contains: the fountain overflows.
One thought fills immensity.
Always be ready to speak your mind, and a base man will avoid you.
Every thing possible to be believ'd is an image of truth.
The eagle never lost so much time, as when he submitted to learn of the crow.
The fox provides for himself. but God provides for the lion.
Think in the morning. Act in the noon. Eat in the evening. Sleep in the night.
He who has suffer'd you to impose on him knows you.
As the plow follows words, so God rewards prayers.
The tygers of wrath are wiser than the horses of instruction.
Expect poison from the standing water.
You never know what is enough unless you know what is more than enough.
Listen to the fools reproach! it is a kingly title!
The eyes of fire, the nostrils of air, the mouth of water, the beard of earth.
The weak in courage is strong in cunning.
The apple tree never asks the beech how he shall grow; nor the lion, the horse, how he shall take his prey.
The thankful reciever bears a plentiful harvest.
If others bad not been foolish, we should be so.
The soul of sweet delight can never be defil'd.
When thou seest an Eagle, thou seest a portion of Genius. lift up thy head!
As the catterpiller chooses the fairest leaves to lay her eggs, so the priest lays his curse on the fairest joys.
To create a little flower is the labour of ages.
Damn braces: Bless relaxes.
The best wine is the oldest, the best water the newest.
Prayers plow not! Praises reap not!
Joys laugh not! Sorrows weep not!
The head Sublime, the heart Pathos, the genitals Beauty, the hands & feet Proportion.
As the air to a bird or the sea to a fish, so is contempt to the contemptible.
The crow wish'd every thing was black, the owl, that every thing was white.
Exuberance is Beauty.
If the lion was advised by the fox. he would be cunning.
Improvement makes strait roads, but the crooked roads without Improvement, are roads of Genius.
Sooner murder an infant in its cradle than nurse unacted desires.
Where man is not, nature is barren.
Truth can never be told so as to be understood, and not be believ'd.
Enough! or Too much.
The ancient Poets animated all sensible objects with Gods or Geniuses, calling them by the names and adorning them with the properties of woods, rivers, mountains, lakes, cities, nations, and whatever their enlarged & numerous senses could percieve.
And particularly they studied the genius of each city & country, placing it under its mental deity;
Till a system was formed, which some took advantage of & enslav'd the vulgar by attempting to realize or abstract the mental deities from their objects: thus began Priesthood;
Choosing forms of worship from poetic tales.
And at length they pronounc'd that the Gods had order'd such things.
Thus men forgot that All deities reside in the human breast.
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