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martedì 9 ottobre 2018

O acontecimento Bolsonaro



Tentando pensar na situação calamitosa do pensamento da co-existência no Brasil. Alguns começos de caminho:
1. Bolsonaro, como acontecimento que cria uma bancada ex-nihilo, inventa governadores, produz um salvo-conduto para todos os microfascismos que borbulham nas ruas e, em geral, abre uma torneira de representação do ultrajante, não é o inominável. Não se trata de um nome que não se deve pronunciar. Mas antes de uma instância da solidificação de muitos comportamentos que estão por toda parte no Brasil. Bolsonaro é um agregado de desejos. Ou antes, um mosaico de desejos. O nome dele é neo-fascismo talvez, mas o neo-fascismo é alguma coisa com a qual convivemos há muito tempo. Tomamos atitudes diferentes em relaçao à ele; as vezes o calamos à força ou ao constrangimento, as vezes o mandamos para a escola literal ou menos literalmente, as vezes o dissolvemos em reagentes que o deixam 'mais ou menos'. Mas uma vez que a estrutura económica do país é de um fascismo brutal – o fascismo rizomático do Capital – não há estranheza no acontecimento Bolsonaro. Há novidade na sua forma explícita. Há novidade na forma explícita de uma coisa que era recôndita.
2. Mesmo com respeito à sua novidade, algumas coisas devem ser consideradas. Primeiro, não se trata de algo surpreendente se considerarmos que o Brasil foi inventado e é mantido para ser uma espécie de bantustão. Ou seja, a soberania nacional do país é precisamente o que o atrela à subserviência econômica. O patriotismo brasileiro é da mesma natureza da defesa da autonomia, dentro da África do Sul do apartheid, de Venda, de Transkei ou de Ciskei; ou seja, é um patriotismo que endossa o estatuto que o regime prevalecente oferece e, precisamente por isso, fica dependente de suas economia – meu dinheiro, minhas regras. Se um bantustão resolve ser um país independente, a Africa do Sul (ou a ordem mundial) cortam sua linha de subsistência. Sobreviver sem esta linha, é muito difícil – os casos do Haiti e de Biafra ilustram. Mas ter uma independência nominal é vantajoso para todo o sistema – e quanto mais patriotismo, mais colaboracionismo. Na medida em que o Brasil se torna um pouco mais independente na ordem mundial, nada melhor para a ordem mundial do que o aparecimento de um patriotismo bantustão.
3. Também não há novidade no fenômeno política-produto ou campanha-propaganda. Vladimir Putin inventou a ideia de que o melhor para manter o fascínio de um público – como no teatro – é que ele não saiba o que é verdade e o que é representação estratégica. Na disputa do Brexit no Reino Unido e na eleição de Trump esta ideia endossada e transformada em procedimento pela Cambridge Analytica foi levada mais adiante. Numa campanha eleitoral, o que importa é que o público veja o que quer ver, que cada nicho tenha seu Trump, seu Leave, seu Bolsonaro. E o acontecimento Bolsonaro é como a coca-cola neste sentido. Ela se apresenta como um produto, e não como um discurso – sua batalha, digamos com a Pepsi, não pode ser a de um debate entre executivos, mas é uma batalha de propaganda. Para cada nicho, o produto de acopla de uma maneira diferente. Assim com Bolsonaro, cada nicho tem seu Bolsonaro. Fazer um contra-discurso contra esta hidra não funciona – o candidato Bolsonaro não é um discurso. Ele é polimórfico e sua perversidade está em interessar precisamente mais a ordem mundial agora nesta época em que o realismo capitalista está prestes a preferir a ditadura constitucional à democracia. Melhor que tomem às decisões os consumidores – com seus múltiplos e contrastantes interesses – e não os cidadãos. Afinal de contas, o mercado é uma inteligência social de decisão. O mercado chega na política transformando os cidadãos em consumidores. Cada Bolsonaro, como cada lata de coca-cola, funciona de um jeito para o seu consumidor. Unidade? Descartável. (É preciso ter cuidado com as aparições gerais do candidato, mas nada do que ele disser não pode ser desmentido como uma espécie de representação estratégica.)
4. Além de um produto do capital na era do capitalismo realista, o acontecimento Bolsonaro também surge dos porões íntimos de quem monopoliza oficialmente a violência no país. A polícia é não apenas ignorante, truculenta e preconceituosa, mas também partidária – ainda que seu partido não estava totalmente no parlamento até as eleições. As forças armadas são mantidas e reproduzidas no esteio de um servilismo à ordem internacional – e a uma mentalidade de Bantustão. Os armados do Brasil, ao invés de garantir a liberdade económica de suas populações, garantem a soberania nominal que é precisamente o que interessa à ordem económica racista vigente. Policiais em posto de comando ou militares de alta patente são notórios desconhecedores não apenas da Brasiliana (o corpo de textos de uma discussão já secular sobre o que pode ser o Brasil) e dos rudimentos das discussões internacionais contemporâneas mas também dos princípios básicos que poderiam nortear suas ações – quase todos preferem proteger os estrangeiros brancos, heterossexuais e cissexuais do que a maioria dos brasileiros. A candidatura Bolsonaro mostra claramente que com as armas nas mãos de pessoas assim, não há coexistência não-violenta em um país como o Brasil. O acontecimento Bolsonaro é o acontecimento da falha da universidade em incorporar as academias militares para que os generais e comandantes possam ser doutores em história da América Latina oh em teoria queer. Pelo menos assim, eles seria expostos a um contra-pensamento. O acontecimento Bolsonaro mostra como a universidade é rarefeita: ela não tem o poder de contágio de fazer convergir para ela quem quiser pensar. (Talvez precisamente porque o pensamento do Capital é rarefeito, distribuído e não convirja, nem sequer para um fórum comum.)
5. O acontecimento Bolsonaro se gesta na estrutura jurídica do país. Não apenas o establishment jurídico abriu os caminhos para Bolsonaro (com Moro, com a complacência com o golpe Cunha, com a prisão de Lula) mas fez isto na completa banalidade do mal – como se estivesse a proceder o seu business as usual. Houve um juiz da suprema corte dizendo que em abril de 1964, na tomada do poder por homens fardados e armados, houve um movimento e não um golpe – e cita um historiador como referência que em seguida desmente que pense ou concorde com os termos que o juiz escolheu. É certo também que os agentes de justiça são mal-formados. No caso deles, as universidades os formam em seus campi, mas não os expõe a seus torvelinhos: eles não entram nos laboratórios, não discutirem teorias gerais, não montam intervenções urbanas, não são levados a entenderem as capacidades dos seus corpos, não praticam a fricção dos argumentos e nem estão expostos à tantas tonalidades de respeito aos outros. Mas não é apenas o fracasso da universidade que o acontecimento Bolsonaro indica aqui. Ele indica o classismo geral do establishment jurídico. Os agentes de direito agem quase sempre com seus preconceitos de classe (e de raça, e de gênero). A justiça do Capital é sempre biopolítica – e é biopolítico o acontecimento Bolsonaro. E a vida das pessoas – que implica a morte de parte delas e a morte de outras pessoas – tem coincidido com a vida da ordem. O acontecimento Bolsonaro é o acontecimento da reação – precisamente no sentido da reação a qualquer mudança ou invenção. O acontecimento Bolsonaro é um acontecimento no espaço da ordem: a segurança humana na sua forma de segurança armada.
6. Contra um acontecimento neste sentido – um sentido de exceção ao rumo constituído das coisas como pensa Alain Badiou – só se coloca um outro acontecimento. Pode haver um contra-acontecimento? Pode acontecer um renascimento do acontecimento Lula? Uma fagulha Haddad? Algo vai acontecer em três semanas, até o dia 28 de outubro?

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