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mercoledì 16 gennaio 2013

Testamento (ou apenas Testemunho)

Vim preparar para morrer.
Todos os dias.
Aprendi que não é retirada para o acabado,
é permanecer pela lama solta.
Não contemplando, mas arrastando nas pedras, como musgos.
Não sobrevivendo depois de sobreviver,
mas seguindo sem ter com o que seguir
sem ter carne, nem osso, nem uma grama de tutano.
Vim preparar para despedaçar.
Bater com os pés um ritmo centrífugo, explodir.
Eu e a mariposa devorada pelos abutres e também
eu e o sol, ficando prontos para se largarem de si,
já que nem tudo é vida.

Há o outro lado, me contam as horas, sonhadas ou vigiadas.
Há o lado explícito, material, incontrolável e voluntarioso
de todas as coisas - aquilo do que eu sou feito:
as peles que chamo minhas, minhas rugas, meus calos.
O lado bruto, a parte prima, que nunca seguirá um caudilho.
E que é a garça, a superfície plácida do lago em um dia quente
e até o vento súbito da madrugada com testemunhas.
Também as estrelas a menos que -87 graus celsius, os subterrâneos,
as valas comuns ensopadas de vermes, o feio, o sujo, o intragável.
Vim preparar a catábase.
E destilar o sangue próprio das catábases:
as moléculas que padecem as tripas dos ratos
e desabam nas pontas das conchas das praias na espuma.
Preparar para o pó.
Gosmento, jogado no lixo e que sobe aos ares.
Também meus pós preparam sua deriva
todos os dias sem substância, já desgovernados,
repetem os batalhões genéticos das moléculas
dos meus rins como quem vira Orfeu por um segundo
e se largam. Eles me preparam, me dobram, me enrugam.
Me vestem e me maquiam para ir para fora,
para fora da legislação.
E me devoram. Ganho intimidade com minha microbiota
que me conhece, por que é feita de minhas outras de dentro,
minhas parceiras de corpo e que se aprontam
para fazer de mim o outro delas,
o outro de dentro.

Vim me preparar para misturar com o resto.
Todos os dias.
Aprendi que não é sair para fora, o resto é cosmos.
Fazer um ninho na tempestade, no fogo, no chorume,
fazer sociedade com os elementos
e cultivar o foro menos íntimo.
Preparar para captar pela epiderme
mais do que a aspereza e a suavidade das bordas,
os desacordos, as pulsações, as síncopes
do resto das coisas. Os compassos que se interrompem,
o concerto grosso que se segue depois que o alaúde
se quebrou em detritos.
Shekhinah em diáspora.
Preparar para engolir terra pagã,
sem hóstia, mas cheia de microdeuses e mocréias
de boca cheia.
Preparar para virar: virar boca, e ser abocanhado,
entregue às traças.

Por isso peço aos que me amarem:
por favor com cuidado, o meu cadáver, deixem no começo do caminho;
pedaços aos corvos, aos vermes da terra,
às piranhas da correnteza, e também ao vento, ao fogo,
enterrem alguns ossos, me engulam se puderem, me enfiem no cosmos!
Quem tiver as vísceras prontas, sirva-se dos meus destroços,
façam banquete, temperem a carne com jalapeño, com rocoto, com o que gostam
e sirvam os roedores - os pequenos diabos dos vestíbulos,
os mestres de cerimônia, os tapetes vermelhos
do céu aberto.



2 commenti:

Guilherme Henderson ha detto...

belas palavras, e que não sirvam, algum dia, de epitáfio, risos

me lembrou zé celso

"O que você escreveria em sua lápide ?
Não vou ter lápide, quero ser devorado, numa farofa bem fininha de fácil digestão. Se estiver empestiado, quero virar fumaça? se niguém quiser me comer os ventos me espalharão na poluição do mundo." http://teatroficina.uol.com.br/posts/23

denise ha detto...

Melhor que o testamento de Chu Ming Ho para suas amadas heráclitas...