In a beautiful piece by Hamdy Reda currently exposed in Art-el-Lewa, Gize, Egypt, one reads in the gorgeous calligraphy crafted by Sameh Ishmaeil (rumours have that the traditional calligraphy schools in Egypt are to get no new student anymore, no more Ishmaeils, is it acceptable?):
Take it easy
It is not here
It is not there
There is an eerie pun there in the Arabic original tells me Monica Udler. It is a sufi poem. It glows. By Ahmed Bakheet.
Visualizzazioni totali
venerdì 31 dicembre 2010
giovedì 30 dicembre 2010
A plog and the spiders
quickly, type something in this plog
a poetry log needs to be reinvented everyday
even when the computers fail, the world disconects wide and wild
or the web is taken over by immortal spiders
they are beyond any straight line, those spiders,
beyond the straight lines of the Peruvian government
and even the bent lines of the Egyptian government.
they have no deadlines
they're never dead
because this would be a straight line
they make me stratch from scratch
a poetry log needs to be reinvented everyday
even when the computers fail, the world disconects wide and wild
or the web is taken over by immortal spiders
they are beyond any straight line, those spiders,
beyond the straight lines of the Peruvian government
and even the bent lines of the Egyptian government.
they have no deadlines
they're never dead
because this would be a straight line
they make me stratch from scratch
domenica 26 dicembre 2010
Around Umayad
so there were those colours of Syria haunting me?
predicted, hidden
my guts never at ease in Damascus
predicted, hidden
my guts never at ease in Damascus
giovedì 16 dicembre 2010
around Ard-Al-Lewa in a toktok
It's a small four wheeled car, enough for the maze
in Ard-Al-Lewa, toktok
the sound of Cairo
but then again all the cars play the Noise (beep beep fon fon).
In the neighborhood, car come out any hole
and advertise themselves
streets full of people
smells full of people
there is a gallery in number 19. houses
of Hamdi
Big bottles of colourful cleaning fluids stand out in small parlours
they clean everything with their bright secondary colours.
in Ard-Al-Lewa, toktok
the sound of Cairo
but then again all the cars play the Noise (beep beep fon fon).
In the neighborhood, car come out any hole
and advertise themselves
streets full of people
smells full of people
there is a gallery in number 19. houses
of Hamdi
Big bottles of colourful cleaning fluids stand out in small parlours
they clean everything with their bright secondary colours.
martedì 14 dicembre 2010
To a magic carpet (going east)
December in, a year almost out
Me in Hackney Central Library where
there is a wifi connection and a crowded study area
i flirt with discipline.
The crisis reported in the other post in this blog?
Well, I met a person who gives poems for free in the Embankment
they all come in different colours
and the crawl in the floor like a magic carpet
indeed the set up is itself described as a magic carpet
and it is indeed a magic carpet.
It took those moods away - send them westwards
and i'm going east.
Ah, and, my friends, my scaphoid is now allegedly in one piece...
Me in Hackney Central Library where
there is a wifi connection and a crowded study area
i flirt with discipline.
The crisis reported in the other post in this blog?
Well, I met a person who gives poems for free in the Embankment
they all come in different colours
and the crawl in the floor like a magic carpet
indeed the set up is itself described as a magic carpet
and it is indeed a magic carpet.
It took those moods away - send them westwards
and i'm going east.
Ah, and, my friends, my scaphoid is now allegedly in one piece...
Relatório da Crise
Biblioteca local de Homerton
Novembro, antes da neve
11 horas, passam as horas,
passam desconhecidos na rua,
vivo esta vida porque nao há outra,
este dia sombrio porque nao há outro que passa
minhas colegas de biblioteca, a negra gorda beija a cambojana recatada
elas inspiram
mas os mediadores entre elas e eu
paralisaram
– galopo esta tristeza, nao tenho outro cavalo.
Todas as minhas estruturas derreteram
queria procurar vagalumes
Novembro, antes da neve
11 horas, passam as horas,
passam desconhecidos na rua,
vivo esta vida porque nao há outra,
este dia sombrio porque nao há outro que passa
minhas colegas de biblioteca, a negra gorda beija a cambojana recatada
elas inspiram
mas os mediadores entre elas e eu
paralisaram
– galopo esta tristeza, nao tenho outro cavalo.
Todas as minhas estruturas derreteram
queria procurar vagalumes
sabato 27 novembre 2010
a 4-edged star is a square
i've been herding my shambles
scaphoid in pieces, eyes fixed on the Tartarus
checking the sight of the larvae
that sign a natural contract with the earth
and then crashes with the ice of Volcano
i've been trying to love the starts
knowing how Novembers leave a wrinkle on me
a wet and satisfied wrinkle, of course
when Novembers have gone through me
and filled the ever empty belly of Uranus
and i've been collecting dispositions
walking up and down Homerton High Street
between the hospital, the station, the library
and Ronky - where I could crack the ocean.
scaphoid in pieces, eyes fixed on the Tartarus
checking the sight of the larvae
that sign a natural contract with the earth
and then crashes with the ice of Volcano
i've been trying to love the starts
knowing how Novembers leave a wrinkle on me
a wet and satisfied wrinkle, of course
when Novembers have gone through me
and filled the ever empty belly of Uranus
and i've been collecting dispositions
walking up and down Homerton High Street
between the hospital, the station, the library
and Ronky - where I could crack the ocean.
sabato 6 novembre 2010
O homem; as viagens (Carlos Drummond de Andrade)
O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto — é isto?
Idem
Idem
Idem.
O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto — é isto?
Idem
Idem
Idem.
O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.
venerdì 29 ottobre 2010
noite branca do corpo
meus polegares doentios
nem catam nozes no pé
nem abrem vidros de azeitona
o membro todo superior e branco
encapa o escafóide fraturado
tremi demais: que fazer
e rasguei o osso
meus cacos de escafoide se juntarão?
ou minguo assim?
olho o leque, meus papéis lépidos, meu macaco
azul e de cristal
deus é paciência
minha sucata
nem catam nozes no pé
nem abrem vidros de azeitona
o membro todo superior e branco
encapa o escafóide fraturado
tremi demais: que fazer
e rasguei o osso
meus cacos de escafoide se juntarão?
ou minguo assim?
olho o leque, meus papéis lépidos, meu macaco
azul e de cristal
deus é paciência
minha sucata
giovedì 21 ottobre 2010
Velocidade angular (um esboço)
Na jugular de um orangotango otorrinolaringologista
tem uma marquinha, singular.
Nem é autêntica, foi feita com geometria e um poema do Ferreira Gullar
fora do lugar.
Quando corre o mais que humano, menos que animal
corre em círculos sem medir o fôlego
e sem fumar.
tem uma marquinha, singular.
Nem é autêntica, foi feita com geometria e um poema do Ferreira Gullar
fora do lugar.
Quando corre o mais que humano, menos que animal
corre em círculos sem medir o fôlego
e sem fumar.
domenica 17 ottobre 2010
Um poema de Monica Udler
Minha morte será o filho que não tive
E minha vida é essa gestação
Passeio grávida pelo mundo
Sem que ninguém note
Sem que jamais me esqueça
Meu ventre se estende por onde e entre
E o feto com afeto levo
Levo em mim o dia do parto-partida
Gero em mim a melhor morte possível
Conto meus dias contados
Acaricio minha promessa
Eu aqui fora
Tendo-a aqui dentro:
Criança-anciã
Dilata-se o colo do éter
E intumesce latente meu túmulo:
O colostro da liberdade
Escorrerá por suas paredes
E minha vida é essa gestação
Passeio grávida pelo mundo
Sem que ninguém note
Sem que jamais me esqueça
Meu ventre se estende por onde e entre
E o feto com afeto levo
Levo em mim o dia do parto-partida
Gero em mim a melhor morte possível
Conto meus dias contados
Acaricio minha promessa
Eu aqui fora
Tendo-a aqui dentro:
Criança-anciã
Dilata-se o colo do éter
E intumesce latente meu túmulo:
O colostro da liberdade
Escorrerá por suas paredes
sabato 2 ottobre 2010
William Carlos William on Election Day
Warm sun, quiet air
an old man sits
in the doorway of
a broken house--
boards for windows
plaster falling
from between the stones
and strokes the head
of a spotted dog
an old man sits
in the doorway of
a broken house--
boards for windows
plaster falling
from between the stones
and strokes the head
of a spotted dog
giovedì 9 settembre 2010
Prosa em convite especial esquizotrans
Saiu o Breviário de Pornografia Esquizotrans está a disposição. Adquira um exemplar exemplar ou diretamente na editora por 25 reais;
www.editoraexlibris. com.br
telefone (61)78132176
ou comigo escrevendo nome e endereço para hilantra
ou ainda em algumas livrarias, por exemplo no Café com Letras de Brasília, na 203 sul.
Além do mais, no esquizotrans.wordpress.com
E ponho aqui prosa. Trecho que ficou de fora do Breviário:
em vez de ganir pelo nada, fodo contigo
Chove barulhos lentos, minha pele cisca pelos meus nervos sem dor, sem dó e eu não tenho nenhuma resistência. Insistência pura, puta vontade de engolir fogo com as dobras do cotovelo, sem o velho coturno com cílios dos olhos, com a virilha, com a buceta funda desassossegada e eu tremida, vibrada, gemida, imaculada, prometida, ajambrada, película do fio do lábio grosso por linhas tortas. Vem sopro, vem espírito santo, vem calda quente, faz da minha barriga um papel laminado amassado apertado pelos dedos com unhas marcadas pela terra que fica dentro da fenda entre a protuberância e a reentrância em cada unha, uma marca côncava, aberta para dentro das mãos como se esperasse elas em um cadinho de barro. Chovia barulhos lentos, eu sozinha com meu cobertor que produzia calor em forma de minhocas pequenas, quase como larvas, quase como pequenas luzes azuis em uma estrada deserta – o padrão dos azulejos em que eu perco meus olhos, meus olhos fechados, eu encolhida e encaracolada, envolvida embriagada das cores do azulejo sobre a luz branca, o cimento entre os azulejos faz frio, chove barulhos lentos, minha vagina suga espraiada, escondida, esmagada, enrijecida entre minhas duas pernas que não têm nenhuma resistência e que fazem contato uma com a outra, dobra por dobra, as carnes dos meu ouvido roçando o travesseiro gordo, abundante, firme, gentil, eu agachada sobre as pilastras finas da cama, mas travestida, estendida, acobertada, esguia mas a ermo, sem beira, sem atenção, sem tema e sem coceira. Escuro, dentro da minha casa, dentro do meu cobertor, abrigante, bruto, meus dedos encolhidos com a cabeça cheia. Minha cabeça é um córrego esguio, um leito de pedras pontudas que são vítimas das minhas faltas de coragem, que são as vítimas das mucosas das minhas gengivas vermelhas sendo roçadas pela língua áspera do Lúcio, que é uma vítima dos meus braços que abraçam como eu prendo este cobertor e o esmago nos meus seios como se não tivéssemos pele e depois soltam, soltam porque são vítimas do musgo que deixo escorregando pelo chão depois que a paixão me devora e vai embora, vítima da água gelada que corre entre os meus desejos, que são vítimas do leito de pedras pontudas dentro da meu cerebelo íntimo que gane pelo nada. Dentro da minha boca duas uvas ovais, quase sem caldo, o suco grudado na pele e de dentro delas sai um vento, vindo de uma eternidade entrona, ouriçado, um vento que era súbito e sórdido e sólido e gentil.
Minha garganta grunhiu uns semitons fora da escala como se escarrasse uma bola de sebo que entrou pela carruagem errada, minha garganta comprimida, de esticada se fechou como se minha cabeça fosse entrar para dentro dos espaço leviano entre meus dois peitos – como se eu fosse um cisne adentrado por Leda, enganosa e entregue a sorte de uma ave que eu encorporava pelo pescoço, uma ave de pescoço ereto e eu embolotada, entulhada sobre meus peitos fechados como se quisessem possuir sozinhos as veias em torno do meu coração ríspido, higiênico. Minha carótida vibrava como se fosse ela o indicador luminoso do meu orgasmo – todo o meu corpo se entregava a veia, ao sangue espremido, apertado e que borbulhava; berrei como se a legião dos anjos me escutasse o prazer que é decibel do terrível que posso suportar com minhas unhas rasgando o colchão, o cobertor e o chão e minha nuca nua exposta a janela do quarto de onde me vê o vizinho, inútil, singelo e imundo. Nuca, o pedaço que eu queria mordido, mastigado do meu corpo que espera, espera pelo delírio que meus sentidos arrancam das dobras de Deus, das sobras daquele vento cisreal que ejaculou um dia o espírito santo; eu tosca, devota, cavala d’água em disparada sem punhal, cega e sonâmbula e esdrúxula – amando inteira, minhas palavras róseas que sangram e de dentro dos cobertores, de dentro das minhas partes cobertas aquele mijo com cheiro de ervas, de frutas, de uvas, de cerejas do éden misturado com minha gosma G e eu não berrava mais, mas queria mais da eternidade genérica, esférica, angélica, lisérgica, epidérmica, gutural. Queria e passou aquilo – meus lábios grandes enfiados por um tufão já nada ganiam, tubilhavam, uma pétala amarela balançando debaixo de uma lufada que ele foi embora e fez rápido; um touro na seda, estou sozinha todas estas vinte-e-quatro horas sem o santo graal roçando em torno do meu umbigo. Só a chuva passou aritmética, respirava profundo como se dentro do meu corpo já não houvessem armas.
www.editoraexlibris. com.br
telefone (61)78132176
ou comigo escrevendo nome e endereço para hilantra
ou ainda em algumas livrarias, por exemplo no Café com Letras de Brasília, na 203 sul.
Além do mais, no esquizotrans.wordpress.com
E ponho aqui prosa. Trecho que ficou de fora do Breviário:
em vez de ganir pelo nada, fodo contigo
Chove barulhos lentos, minha pele cisca pelos meus nervos sem dor, sem dó e eu não tenho nenhuma resistência. Insistência pura, puta vontade de engolir fogo com as dobras do cotovelo, sem o velho coturno com cílios dos olhos, com a virilha, com a buceta funda desassossegada e eu tremida, vibrada, gemida, imaculada, prometida, ajambrada, película do fio do lábio grosso por linhas tortas. Vem sopro, vem espírito santo, vem calda quente, faz da minha barriga um papel laminado amassado apertado pelos dedos com unhas marcadas pela terra que fica dentro da fenda entre a protuberância e a reentrância em cada unha, uma marca côncava, aberta para dentro das mãos como se esperasse elas em um cadinho de barro. Chovia barulhos lentos, eu sozinha com meu cobertor que produzia calor em forma de minhocas pequenas, quase como larvas, quase como pequenas luzes azuis em uma estrada deserta – o padrão dos azulejos em que eu perco meus olhos, meus olhos fechados, eu encolhida e encaracolada, envolvida embriagada das cores do azulejo sobre a luz branca, o cimento entre os azulejos faz frio, chove barulhos lentos, minha vagina suga espraiada, escondida, esmagada, enrijecida entre minhas duas pernas que não têm nenhuma resistência e que fazem contato uma com a outra, dobra por dobra, as carnes dos meu ouvido roçando o travesseiro gordo, abundante, firme, gentil, eu agachada sobre as pilastras finas da cama, mas travestida, estendida, acobertada, esguia mas a ermo, sem beira, sem atenção, sem tema e sem coceira. Escuro, dentro da minha casa, dentro do meu cobertor, abrigante, bruto, meus dedos encolhidos com a cabeça cheia. Minha cabeça é um córrego esguio, um leito de pedras pontudas que são vítimas das minhas faltas de coragem, que são as vítimas das mucosas das minhas gengivas vermelhas sendo roçadas pela língua áspera do Lúcio, que é uma vítima dos meus braços que abraçam como eu prendo este cobertor e o esmago nos meus seios como se não tivéssemos pele e depois soltam, soltam porque são vítimas do musgo que deixo escorregando pelo chão depois que a paixão me devora e vai embora, vítima da água gelada que corre entre os meus desejos, que são vítimas do leito de pedras pontudas dentro da meu cerebelo íntimo que gane pelo nada. Dentro da minha boca duas uvas ovais, quase sem caldo, o suco grudado na pele e de dentro delas sai um vento, vindo de uma eternidade entrona, ouriçado, um vento que era súbito e sórdido e sólido e gentil.
Minha garganta grunhiu uns semitons fora da escala como se escarrasse uma bola de sebo que entrou pela carruagem errada, minha garganta comprimida, de esticada se fechou como se minha cabeça fosse entrar para dentro dos espaço leviano entre meus dois peitos – como se eu fosse um cisne adentrado por Leda, enganosa e entregue a sorte de uma ave que eu encorporava pelo pescoço, uma ave de pescoço ereto e eu embolotada, entulhada sobre meus peitos fechados como se quisessem possuir sozinhos as veias em torno do meu coração ríspido, higiênico. Minha carótida vibrava como se fosse ela o indicador luminoso do meu orgasmo – todo o meu corpo se entregava a veia, ao sangue espremido, apertado e que borbulhava; berrei como se a legião dos anjos me escutasse o prazer que é decibel do terrível que posso suportar com minhas unhas rasgando o colchão, o cobertor e o chão e minha nuca nua exposta a janela do quarto de onde me vê o vizinho, inútil, singelo e imundo. Nuca, o pedaço que eu queria mordido, mastigado do meu corpo que espera, espera pelo delírio que meus sentidos arrancam das dobras de Deus, das sobras daquele vento cisreal que ejaculou um dia o espírito santo; eu tosca, devota, cavala d’água em disparada sem punhal, cega e sonâmbula e esdrúxula – amando inteira, minhas palavras róseas que sangram e de dentro dos cobertores, de dentro das minhas partes cobertas aquele mijo com cheiro de ervas, de frutas, de uvas, de cerejas do éden misturado com minha gosma G e eu não berrava mais, mas queria mais da eternidade genérica, esférica, angélica, lisérgica, epidérmica, gutural. Queria e passou aquilo – meus lábios grandes enfiados por um tufão já nada ganiam, tubilhavam, uma pétala amarela balançando debaixo de uma lufada que ele foi embora e fez rápido; um touro na seda, estou sozinha todas estas vinte-e-quatro horas sem o santo graal roçando em torno do meu umbigo. Só a chuva passou aritmética, respirava profundo como se dentro do meu corpo já não houvessem armas.
Iscriviti a:
Post (Atom)