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mercoledì 28 novembre 2012

Nasceu, hospedou, morreu

"... é uma pensão" Rumi

São populações de ratos aflitos na minha pele faminta. Gostam de pedaços e outros pedaços e se atiçam uns aos outros. Há porcos também. Nas minhas linfas. E há multidão de bactérias infecciosas e cheias de urgências. Me coçam, me coçam, me assanham. Um povo de vorazes, de atrozes, de roedores. Eu mordo tetas. Pela ponta dos meus dedos escapam devoradores de microdeuses. Em forma de agulhas. Eu lambo mãos.

Quais são os bichos em mim? Os musgos? Os minerais? Os orixás? Podia apertar a mão de cada um, dar beijos nas faces, mas são tantos... Cordeiros, muitos, ovelhas, ainda mais. Lobos. Hienas. Hienas escondidas. Hienas debaixo dos véus. Purpurina. Oxalá amanhã. Lao Tsé. Pregas e mais pregas, rendas, vieses, uma epidemia de invaginações. Cura-me. Uma horda de demônios na retina. Raros. Oblíquos. Sóis. Satélites com mensagens dos astronautas inventados. Meus avós. Meus avós inventados. Nada é meu. Eu roo. Afio meus dentes. Eu mordo as espécies.

Passo por todas as mãos. Me roçam. Uma hiena atrás da outra. Uma porca. Uma maldição. Um musgo gozando liquen. Um musgo gozando mais. Um cordeiro. Uma vaca. Uma cadela. As mãos cheias de dobras, de mão em mão. Uma teta. Uma terrorista. Me trisca as costas, me faz arder os ganglios. Um ácaro. Pétalas brancas. Uma loba. O capuz preto me abana desta selva de miasmas. É aqui Rhodes. Salto.

domenica 25 novembre 2012

Um relâmpago de Eber Inácio

tava tão vivo
mas tão vivo
que me lancei via satélite


(E outro:
eu tenho dentro de mim
uma formiga de açucar
que sabe o caminho
)

A gentileza das anomalias

A tristeza é uma espécie de asco
de asco de toda coisa, de todo tom, de qualquer gosto
deve ser minhas tripas as carrascas
ou meus genes os estraga-prazeres
e provavelmente o córtex, maquinando
que sua circunstância merece pús.
A tristeza é asco, é indiferença
por tudo o que não seja completamente outro,
quero ser agasalhado de anomalias
já que elas não fazem correr os trens
são luzes de vagalume, abelha pousada no lodo
são biografias.

É porque a vida é boa que ela é ruim
e há desejos, há ternuras, há promessas
e promessas falsas e há melancolia
há o fim da melancolia e o fim do fim da melancolia.
A tristeza é uma espécie de asco
pelos lugares certos da vida – ruim já que é boa.
A força estridente do que eu tenho nojo
A tristeza é uma espécie de vômito.




sabato 10 novembre 2012

Lata de Nescau (Raquel Viviani Silveira)

Em homenagem ao meu reencontro com Raquel Viviani Silveira depois de 10 anos
publico um poema clássico da sua fase ouropretana:


Megalópole urbanidade
Brisa cinza acre
Cheiro grosso.
Lilás sol desfalecido em lodo.
Olhos crispados.
Vermelho sangue melancolia.

Anseio do verde (verde céu
verde ar).
Caminho de piçarra.
Terra entre a unha.
Plenos pulmões e água fina.

Ouro Preto,
Aqui estou riachinho murmurante
Num barquinho de lata
De nescau.

domenica 21 ottobre 2012

This Be the Verse (Larkin)

Starting up a project on guilt. This is (again?) to inspire:

This Be the Verse
By Philip Larkin
They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another’s throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don’t have any kids yourself.

venerdì 19 ottobre 2012

Pacífico Sul pronto



Já chegando às livrarias.
Lançamento em Brasília (Café com Letras, dia 1 de novembro), em São Paulo (7 de novembro).

Trecho (lá pela página 70 do livro, em minhas mãos agora):
O marido de Verônica teve muitas partes do seu corpo examinadas. O dermatólogo examinou longamente a pele da sua boca e do rabo dos seus olhos – concluiu que ambas estavam apenas levemente alteradas seguramente por estarem em contato com palavras quando acostumadas com coisas e vice-versa. A bioquímica colhera mostras de sua saliva e de suas lágrimas (produzidas com reagentes químicos e não com tristezas) e fora examinar ao lado. Ao paciente incomodava um pouco que a jovem pesquisadora da verdade não pudesse ser vista, em seu lugar ele persistentemente lia “descobridora de propriedades químicas das frases” o que era bastante perturbador, sobretudo quando ela começou a lhe fazer umas perguntas sobre se já lhe escapara pela boca algum evento quando ele não conseguia pronunciar frases.
- Nunca, ele respondeu, mesmo sem poder olhar a cara de quem perguntava, eu me engasgo com palavras, nunca com frases. Também nunca me aparecem frases inteiras nos meus olhos. Minhas esculturas não tem relação com as verdades ou as mentiras, são apenas aquilo que me passa pela cabeça; coisas e não o que elas fazem.
Ela examinava as miniaturas com bastante atenção; o que para o marido de Verônica era uma cena bastante estranha de ser vista: uma enorme descrição de uma pessoa manipulando objetos miniaturas de outras descrições. Era um retrato rápido dos sintomas que o afetavam; ele contou a Verônica que, ali, diante dos seus olhos, era uma descrição que segurava pessoas, cabeças e frontes. Ele se empenhava em descrever como lhe apareciam as letras segurando suas esculturas até que, depois de várias horas falando sem interrupções, engasgou. Toda a equipe médica presente no consultório naquele momento olhou fixamente para o paciente, a espera de ver um flagrante de sintoma. Foi dos demorados, mais de um minuto em contorsões labiais e com as bochechas inchadas acompanhadas de bruscos movimentos na garganta como se muita coisa estivesse passando por ali. O marido de Verônica se sentia como um artista observado no momento da composição, e seus olhos já não estavam nem cheios de susto e nem de surpresa, mas tinha uma face de quem se permitia orgulho de si mesmo. Ele mesmo tirou da sua boca uma miniatura de um conjunto de letras segurando sua própria cabeça. Não era uma imagem particularmente bonita; outras miniaturas tinham parecido ao autor mais belas, resolvidas – talvez feitas quando seu estado de humor estivesse mais tranqüilo. Porém toda a equipe se entusiasmou e queria examinar a peca o mais depressa possível. Em seguida levaram também esta escultura para o laboratório adjacente onde alguns membros da equipe tentavam determinar que tipo de neurônio era aquele que servia tão adequadamente as esculturas semânticas. A equipe já havia determinado que os neurônios eram tingidos por tintas de neurotransmissores que, de alguma maneira, adquiriam uma variedade de matizes que impressionava pela acuidade – deve ter alguma coisa que ver com a função transmissora destas substancias. No laboratório se debruçaram logo sobre a miniatura que acabava se sair; queriam determinar se havia traços das sinapses recentes pelos neurônios. Cada membro da equipe trabalhava com uma plêiade de hipóteses na cabeça; muito poucas eram dignas de serem mesmo formuladas e ainda menos eram discutidas com os demais.
Logo depois de expelir a miniatura da jovem pesquisadora em forma de letras, o marido de Verônica parou de vê-la com palavras. Isto chamou muito a atenção de Cynthia que, pela primeira vez, observava um sintoma que conectava os dois sintomas. Talvez, ela conjeturou com a rapidez que a curiosidade pelo caso lhe emprestara, a hipersemiose dos olhos – assim ela chamava por vezes a infestação de símbolos que acontecia na retina do seu paciente – fosse descarregada fazendo a língua sofrer de uma hiposemiose que fazia com que faltassem símbolos para exprimir, dentro da boca, o que o cérebro queria soltar. Era como se ela tivesse a opinião de que os símbolos saíram da língua e infectaram as pupilas e agora faziam as coisas, que deviam entrar no cérebro pelos olhos, escorregarem ate a boca. Cynthia chamou a equipe toda para contar o que alguns haviam presenciado e a maioria aparentou alguma surpresa; achavam que talvez um sintoma estivesse lentamente curando o outro. O marido de Verônica, a esta altura, não gostava que lhe falassem muito de cura – se acostumara a sua condição e apenas gostaria de entender mais como seus olhos e sua boca tinham ficado tão confundidas.
Depois de muitas horas de exames, perguntas e observações, ao cair da noite todos se reuniram para a tal ressonância. O marido de Verônica ficou muito tempo fazendo o exame – queriam ressonar seu cérebro em algum momento em que ele visse o que se lê ou fizesse o que se fala. Conseguiram que ele lesse uma barra de metal e que produzisse uma escultura bastante verossímil – segundo o depoimento de Verônica – de sua avó. (Havia um consenso entre os cientistas do cérebro de que era a avó que eles deviam pedir para o paciente tentar descrever com detalhes e por bastante tempo.) Os resultados do exame, disponíveis apenas tarde da noite, revelaram surpreendentemente pouco: o cérebro apresentava todas as características normais e não havia nenhum sinal de rotação. Apenas um exame detalhado e baseado em um algumas teorias relativamente pouco aceitas e controversas mesmo entre os médicos da equipe revelou uma anomalia: os neurônios que supostamente representavam junto ao cérebro as palavras ocasionalmente se comportavam de uma maneira anormal e que se assemelhava ao comportamento dos neurônios que, também supostamente, representavam junto ao cérebro as coisas. Esta pequena e discutível anomalia explicava muitas coisas, segundo os que acreditavam nas teorias que tornavam possível o exame, e, para alguns, era o único fragmento de explicação que eles dispunham. É claro que eles iam continuar investigando e que novos resultados estariam disponíveis em alguns dias – Cynthia manteria o paciente informado de qualquer nova suspeita e em breve teriam que encontra-lo outras vezes para exames complementares.

Disturbios nas Classes, a adaptação de Harold Pinter

Eis que, em homenagem à Flor de Insensatez, publico aqui (de novo?) os distúrbios nas
classes que performávamos nos idos dos tempos idos...

Distúrbios nas classes
(Adaptação livre de Troubles in the Works de Harold Pinter)




Na secretaria da escola, a gerente, Sra Fibra está em sua escrivaninha. Bate a porta e vai entrando o bedéu Avontades.

Fibra: Ah, Avontades, entre, entre, por favor. Sente-se.
Avontades: Obrigado, obrigado, sra Fibra.
Fibra: Recebeu minha mensagem?
Avontades: Recebi, recebi, acabo de recebe-la...
Fibra: Bom, bom, aceita um café?
Avontades: Não, obrigado, sra Fibra, hoje não...
Fibra: Bem, eu escutei dizer que há uns distúrbios nas classes...
Avontades: É, é, eu acho que se pode chamar assim...
Fibra: Bem, agora, pelos céus, sobre o que é esta coisa toda?
Avontades: Bem, eu não sei exatamente como eu posso descrever, sra Fibra...
Fibra: Ora, Avontades, eu preciso saber o que é antes de poder fazer alguma coisa a respeito.
Avontades: Bem, é simplesmente uma questão de que as crianças, bem, elas parecem que... ficaram contra as salas de aula...
Fibra: Ficaram contra?
Avontades: É, parece que elas não gostam mais tanto das... salas de aula.
Fibra: Não gostam? Mas nós temos as melhores carteiras da cidade, e temos também os melhores quadros negros, os melhores professores, os melhores gizes... os melhores apagadores! E a escola? Temos a melhor cantina, o melhor pátio, uma piscina... e as crianças estão insatisfeitas?
Avontades: Bem, as crianças estão gratas pela cantina, pela piscina, pela disciplina [pigarro]... pelo giz, pelo apagador, mas simplesmente elas não gostam mais das salas de aula...
Fibra: Mas as salas são lindas, eu estou neste negócio por toda a minha vida e nunca vi salas mais lindas!
Avontades: São lindas mesmo, sra!
Fibra: Mas quais são as salas que elas não gostam?
Avontades: Bem, por exemplo, a sala de instrução de boas maneiras à mesa com aqueles guardanapos de pano com espetos nas costas...
Fibra: Minha sala de instruções de boas maneiras à mesa? Qual é o problema com ela?
Avontades: Acho que as crianças simplesmente não gostam mais dela.
Fibra: Mas o que exatamente elas não gostam na sala?
Avontades: Ah, acho que talvez seja... a decoração...
Fibra: Mas aquela sala é perfeita!
Avontades: Elas simplesmente não acham...
Fibra: Estou estupefata!
Avontades: E não é só esta sala, por exemplo, a sala de ensinar as meninas a parecerem desprotegidas com a coleção de sapatos de salto alto da Victor Hugo...
Fibra: A sala de ensinar as meninas a parecerem desprotegidas com a coleção de sapatos de salto alto da Victor Hugo! Isto é absurdo, aquela sala é a perfeição, é linda!
Avontades: Sim, sra!
Fibra: Onde elas podem encontrar uma sala de ensinar meninas a parecerem desprotegidas melhor que esta?
Avontades: Sra Fibra, há salas e há salas...
Fibra: Sim, Avontades, há salas e há salas, mas onde há uma sala de ensinar meninas a parecerem desprotegidas melhor que esta?
Avontades: As crianças simplesmente não querem ter mais nada com a sala.
Fibra: Alucinante. O que mais? O que mais, Avontades, não tem sentido esconder nada de mim, a esta altura!
Avontades: Bem, elas fazem muita cara feia para a sala de ensinar os meninos a não chorar que já vem com carteiras que dão 50V de choque para cada lágrima derramada...
Fibra: A sala de ensinar os meninos a não chorar que já vem com carteiras que dão 50V de choque para cada lágrima derramada! Isto é absolutamente ridículo! O que elas podem ter contra a sala de ensinar os meninos a não chorar que já vem com carteiras que dão 50V de choque para cada lágrima derramada?
Avontades: As crianças estão em uma forte agitação contra a sala, sra! E a sala de ensinar a olhar sempre para a autoridade que fala não importa o que ela fale que está equipada com gás paralisante também anda bastante impopular...
Fibra: O que?
Avontades: E tem a sala de ensinar a sentar e ficar quieto e calado com a tal palmatória automática gigante que para todos os alunos que ousarem fazer um passo de d-d-d-ança...
Fibra: Como assim? Elas não gostam mais da nossa sofisticadíssima sala de ensinar a sentar e ficar quieto e calado com a tal palmatória automática gigante que para todos os alunos que ousarem fazer um passo de d-d-d-ança? Isto não faz sentido!
Avontades: Elas não gostam tanto...
Fibra: Mas é uma sala adorável, aconchegante...
Avontades: Elas parecem ter um horror a aconchegante sala de ensinar a sentar e ficar quieto e calado com a tal palmatória automática gigante que para todos os alunos que ousarem fazer um passo de d-d-d-ança.
Fibra: Estou estupefata! Nunca vi isto! Não me diga também agora que elas não gostam da nossa sala importada de ensinar a jamais tocar no cabelo dos colegas da frente, de trás e de ambos os lados que já vem com cabelos eletrificados para auxiliar o ensino?
Avontades: Elas odeiam e detestam esta sala importada de ensinar a jamais tocar no cabelo dos colegas da frente, de trás e de ambos os lados que já vem com cabelos eletrificados para auxiliar o ensino.
Fibra: Mesmo com os cabelos eletrificados levemente coloridos?
Avontades: E sem os cabelos eletrificados levemente coloridos.
Fibra: Sem os cabelos eletrificados levemente coloridos?
Avontades: E com os cabelos eletrificados levemente coloridos.
Fibra: Não com os cabelos eletrificados levemente coloridos?
Avontades: E sem os cabelos eletrificados levemente coloridos.
Fibra: Sem os cabelos eletrificados levemente coloridos?
Avontades: Sem os cabelos eletrificados levemente coloridos e com os cabelos eletrificados levemente coloridos.
Fibra: Sem os cabelos eletrificados levemente coloridos e com os cabelos eletrificados levemente coloridos?
Avontades: Sem e com!
Fibra: Mas, vejam vocês [pausa] É uma coisa que eu não consigo entender... Mas diga-me, Avontades, onde elas gostariam de estudar se elas não gostam mais de nossas salas de aula?
Avontades: Em barquinhos, no mar.





Manifesto pela Ballecketteira


Ballet é o corpo. Beckett é a alma. Balleckett é a condição humana com os cotovelos e joelhos em movimento. Somos todas inacabadas; somos todas nem começadas – nos tornamos todas beckettescas. Ballet é a alma. Beckett é a virilha. O ponto de partida de muitas felicidades humanas é uma conversa. O ponto de partida da conversa é uma substância beckettesca que existe em cada gengiva, em cada clavícula e em cada calcanhar. Ballet é calcanhar. Entre o plágio e a referência existem apenas três pétalas de diferença. Vamos condenar a alguns anos de trabalhos forçados estas pétalas que tremem. Nunca temos coragem de copiar assinando o próprio nome. Nós, balleckettentes, trememos mais que as pétalas, somos varas verdes. Não assinamos o próprio nome em parte alguma. Assinamos o nome dos outros. Vamos condenar a alguns anos de trabalho forçado estas pernas que tremem: trabalho forçado pela construção de um mundo que seja 97% feito de água, fogo, terra, ar e aquela coisa macia com a qual se fazem entrelinhas dos textos de Beckett. Por isto nos juntamos pelos pores do sol, exigimos a abolição do capitalismo às 8 da noite de amanhã, instauramos o inferno do caos para substituir o inferno da ordem e ficamos a cada dia mais convencidas das seguintes noções:
1.A falta de dinheiro é um mal. Mas pode se tornar um bem.
2.A falta de falta de dinheiro é um mal. Mas pode se tornar um bem também.
3.Aquilo que já foi perdido, já foi perdido.
4.Não temos tempo para besteiras, temos alguns minutos para becketteiras.
5.Existem duas necessidades impostas pelas forças da existência: a necessidade que temos e a necessidade que temos de ter necessidade.
6.A intuição nos faz fazer bem umas loucuras.
7.Que podemos dizer da vida que nunca foi dito? Muitas coisas. Por exemplo, que ela nem sempre é um gomo solitário de mixirica madura.
Se nós fossemos bailacketterinas confundiríamos todos os princípios com os meios e esqueceríamos os fins. Assim como somos, tenham paciência. Nossos joelhos são nossos cotovelos, nossas rugas são nossas pernas, nossas cópias piratas de palavras de Beckett são nossas sapatilhas de ponta. Não queremos nada a não ser sacudir todos os átomos que sustentam a sensatez estabelecida. Não queremos nada a não ser explodir todas as células dos pensamentos prontos. Não queremos culpar a razão por nada, mas ela vai ter que se comportar por que nós não vamos nos comportar por ela: dançamos a suspeita vaga e indolente de que não tem sentido ter sentido. Improvisem provisoriamente: não adiem para o momento certo – o momento certo é o memento errado – queiram. Deixem para as estrelas as luzes apagadas e pelas as formigas pisem com a ponta dos umbigos. Improvisem tudo. Corpo é alma. Ballett é Beckett. Soltem estes grilhões coreografados. Ninguém nunca fez mais do que bailar becketts disfarçados. Arranquem os disfarces, saiam do chão com um plié, um eleve, um camier, um mercier.
Queremos os gestos puros ao invés dos gestos ratos, apinhados de ninharias. Queremos os gestos desordenados, despedaçados, despreparados, desmiolados, desintegrados, dissimulados, desconectados e, de preferência, desabitados. Não há limite para a improvisação, nem nas mãos, nem a coluna dorsal te conta que deves calar os pássaros e escutar a voz do noticiário na televisão. Não preste atenção – finja. Não finja – finja que finges. Queremos os gestos que não caberiam em nenhuma pista de dança, em nenhum palco de dança, em nenhuma dança. Queremos dançar os gestos que jogamos fora – só porque eles não prestam para nada.

sabato 29 settembre 2012

El cielo de Argenzola

“Porque ese cielo azul que todos vemos, ni es cielo, ni azul.
¡Lástima grande que no sea verdad tanta belleza!”
Lupercio Leonardo de Argenzola, (1559-1613)

Los hermanos Virgilio y Homero Expósito, comenzaban en 1956 el tango Maquillaje, con este epígrafe. Y continúa el tango de los Expósito:

“No...
ni es cielo ni es azul,
ni es cierto tu candor,
ni al fín tu juventud.
Tú compras el carmín
y el pote de rubor
que tiembla en tus mejillas,
y ojeras con verdín
para llenar de amor
tu máscara de arcilla...”

Y yo tan triste y no se porque me pilla
soudain un squelette qu´un savant
peut-être moi, pourquoi pas?
qui a fait de l´or ne puisse jamais
de mon être extirper l´élement corrompu.
Les bains de sang, les bains de sang!
Mi boca se llena de agua
de donde viene el agua?


venerdì 28 settembre 2012

Give us Gods (D. H. Lawrence)

Give us Gods


Give us gods, Oh give them us!
Give us gods.
We are so tired of men
and motor-power. -

But not gods grey-bearded and dictatorial,
nor yet that pale young man afraid of fatherhood
shelving substance on to the woman, Madonna mia! shabby virgin!
nor gusty Jove, with his eye on immortal tarts,
nor even the musical, suave young fellow
wooing boys and beauty.

Give us gods
give us something else -

Beyond the great bull that bellowed through space, and got his throat cut.
Beyond even that eagle, that phoenix, hanging over the gold egg of all things,
further still, before the curled horns of the ram stepped forth
or the stout swart beetle rolled the globe of dung in which man should hatch,
or even the sly gold serpent fatherly lifted his head off the earth to think -

Give us gods before these -
Thou shalt have other gods before these.

Where the waters end in marshes
swims the wild swan
sweeps the high goose above the mists
honking in the gloom the honk of procreation from such throats.

Mists
where the electron behaves and misbehaves as it will,
where the forces tie themselves up into knots of atoms
and come untied;

Mists
of mistiness complicated into knots and clots that barge about
and bump on one another and explode into more mist, or don't,
mist of energy most scientific -

But give us gods!

Look then
where the father of all things swims in a mist of atoms
electrons and energies, quantums and relativities
mists, wreathing mists,
like a wild swan, or a goose, whose honk goes through my bladder.

And in the dark unscientific I feel the drum-winds of his wings
and the drip of his cold, webbed feet, mud-black
brush over my face as he goes
to seek the women in the dark, our women, our weird women whom he treads
with dreams and thrusts that make them cry in their sleep.

Gods, do you ask for gods?
Where there is woman there is swan.

Do you think, scientific man, you'll be father of your own babies?
Don't imagine it.
There'll be babies born that are cygnets, O my soul!
young wild swans!

And babies of women will come out young wild geese, O my heart!
the geese that saved Rome, and will lose London.

mercoledì 26 settembre 2012

Uma etiologia do delírio pansexual - texto para a performance de amanhã no Ovulário da Valeska

Amanhã no ICC sul, AT 141, às 12:15 performo este texto, vestindo tomates, couves e bananas:

Uma etiologia do delírio pansexual
ou: como desejar objetos sem ser sujeito deles
e nem sujeito a eles

Sexo. Sexo certo. Sexo errado. Sexo errático. Sexo errante. Sexo errorista. Erótico. Uma errância. Todo delírio é sexual, dizem. Toda compulsão é sexual, dizem. Toda convulsão é sexual, dizem. Toda voragem é sexual, dizem. Toda patologia é sexual, dizem. Toda terapia é sexual, dizem. E dizem mais: sexo é o início, o fim e o meio. É o meio, é o meio, é o meio – Audre Lorde, a poeta do erótico desinteressado, repete que na conexão pela conexão é que mora Eros. Mas qual é o fim? Papai? Mamãe? Papai-Mamãe? O destino traçado precisamente pelas linhas, não das mãos – quem legitima a quiromancia? – mas das genitálias – uma genitomancia ou uma pubimancia? O destino traçado pela anatomia? Pelo balanço de hormônios – intocável? Uma combinação de hormônios, gestos, performances, roupas, práticas, sanções e linhas do corpo que tornem o sexo tolerável? O fim, qual é o fim, o sexo dócil, disciplinado, coreografado e de passos marcados? A patologia é sexual, dizem, e o fim da terapia, é sexual. De que sexo a que sexo vamos? O início, o fim e o meio. Qual é o início? A tormenta, a histeria, a neurose, o delírio, a obsessão – ou seja, sexo, sexo, sexo. Olhamos para as atormentadas, para os histéricos, para os neuróticos, para as delirantes, para os obsessivos e vemos sexo. Muito bem, que sexo vemos?

E quanto ao fim? O fim às vezes parece ser um enorme círculo incestuoso em que a espécie usa suas ferramentas eróticas para permanecer, para subsistir, para fechar o cerco contra o alienígena. Uma família humana. Onde está o sexo, perguntamos a família. E ela responde: ali, perto dos gametas, perto dos óvulos, perto da porra. E quando diz que tudo é sexo quer dizer que tudo se inicia na anatomia da genitália – e na correnteza de estrogênio, de testosterona, de progesterona, de feromônios – e termina na comunhão entre os humanos, de preferência para fazê-los crescer e multiplicar. Termina com o destino traçado e que precisa só de uma mãozinha para produzir homens naturais, mulheres naturais. O diagnóstico é sexo: ocorre alguma coisa naquela genitália que erra. Ou erra a cabeça que se acopla à genitália. É nela, e nos pensamentos inconscientes que ela carrega, que se busca o começo da patologia já que ela faz miragem, faz viragem, faz instinto, faz convulsão. Todo o corpo é uma alegoria da genitália: a genitália é o locus hocus-pocus de toda voragem, de toda compulsão. E ela é local sagrado de toda profanidade.

Marx tinha um gosto pelas forças produtivas. Elas são capazes de perturbar as sociedades as mais continentes. Na sua Crítica à Filosofia do Estado de Hegel, ele aponta para o contraste que institui o sexo humano em seu caráter sancionado, normatizado e endossado: o contraste com o sexo não-humano. Não se trata de apontar para o sexo dos porcos e seus longos orgasmos, nem para o sexo do pólen, idílico e produtivo, nem para o sexo dos anjos, eles tão intersexuais quando expõem suas pregas. Libélulas em bambus fazem. Centopéias sem tabus fazem. Os louva-deuses com fé fazem. Dizem que bichos de pé fazem. As taturanas também fazem com um ardor incomum. Grilos, meu bem, fazem. E sem grilo nenhum; Com seus ferrões, os zangões fazem. Pulgas em calcinhas e calções fazem. Tamanduás e tatus fazem. Corajosos cangurus fazem. É certo que cada uma destas bestas, gigantescas ou minúsculas, fazem de um jeito. E, porém, o sexo humano é coisa diferente – animal, bestial, oral, vaginal, anal, mas coisa diferente. Diferente: distinta e separada. O vão entre o sexo humano e o sexo não-humano é o que faz a diferença entre a grande família humana e todo o resto, não todo o resto do mundo, mas todo o resto de nós. Tamanduás, tatus, coelhos, cangurus, pulgas em calcinhas e calções são transformados em alegorias de um sexo centrípeto, concentrador, familiar. Todo delírio será trazido de volta à casa, ao quarto, à vida familiar passada e futura: sexo é o início, o fim, e o meio. Mas o sexo não-humano não é o sexo bestial, mas é antes toda a vida microsexual do inconsciente. Marx, como comenta Lyotard, aponta para a castração devida para entrar na espécie humana como agrupamento com normas sexuais e sanções sociais – com uma matriz de desejo e nojo. Trata-se de uma operação sobre as partículas microsexuais que transitam pelo nosso corpo, pelo nosso inconsciente, pelas nossas pernas, pelos nossos frenesis, pelos pêlos, pelas dobras, pelas pontas dos dedos. O sexo não-humano de Marx é a tectônica subcutânea do sexo humano, seus ingredientes e, também, o que há em seus bastidores.
O que fazer com os teus desejos? Com que pedaços do mundo dá pra fazer alguma coisa com teus desejos? Há uma engenharia das pequenas convulsões para fazê-las marcharem para uma ordem unida – o sexo humano. Marx não diz apenas a ordem hetero ou cis é uma ordem unida. O sexo humano que põe a seu serviço o sexo não humano registra os desejos como produção em prol da comunhão humana. Monique Wittig sobre sexo: a categoria de sexo é totalitária e para se provar tem suas inquisições, seus tribunais, suas leis, suas torturas, suas mutilações, suas execuções, sua polícia. Ela molda a mente como o corpo já que ela controla as produções mentais. Ela captura nossas mentes de uma forma que não conseguimos pensar fora dela. E se as produções mentais não envolvem sexo – aquele sexo sancionado – elas estão errantes: é preciso consertá-las ou, é claro, reinterpretá-las. Colocar os desejos e seus pequenos fluxos em linha, para isso a pornografia, para isso a família e, talvez, para isso a terapia. Vejam Wittig: ela intenta criar uma sujeita lesbiana, alheia ao sexo a que estão sujeitas as mulheres. E prega que paremos de falar de sexo para pararmos de falar de mulheres. E com isso poder deixar soltas as partículas desejantes, as minúsculas voragens, os embriões de compulsões – é que assim essas pulsões nanosexuais podem se acoplar a outras coisas, a outros gestos, a outros acontecimentos. Já Marx, denunciando o silenciamento do sexo não-humano, estaria insinuando uma pregação para que paremos de falar de sexo para que paremos de falar de humanos. É o alistamento do sexo não-humano a serviço do sexo humano que nos coloca a serviço da humanidade e de sua substancialização.
Giorgio Agamben, em seu O Aberto, traçou alguns dispositivos do que chamou de máquinas antropológicas – os mecanismos que procedem à separação do que é humano e do que não é (do que é bestial, animal, sub-humano). A quarta pergunta de Kant – Was ist Mensch? – é a abertura de um jogo de capturas. As diferentes máquinas antropológicas sancionam quem é humano suficiente, quem pertence a grande família, quem pode, enfim, ser tratado como um de nós – a partir do que pode então pertencer a muitos outros nóses, os de classe, nacionalidade, gênero, cor, correligionários e membros de um clube seleto. A primeira triagem é da máquina: gente, gente, não-gente, gente... A máquina antropológica que produz o sexo humano faz a triagem do que é feito com os microeros que circulam nos corpos. Tá genitalizado, familializado, trazido ao escopo sancionado de todo delírio? Ou é delírio desgovernado, substância sexual centrífuga, fissura fugidia? São estas microconvulsões dignas de uma vida casada, quotidiana e tributável? Os mecanismos de sanções desta máquina são muito entrincheirados: uma amante procura um amante, casados ambos e querendo alguma coisa mais do que pagar os mesmos impostos todos os anos. E se encontram: não se casam, mas são casáveis. E aparece também a repressão – não a repressão ao sexo não-humano, mas a repressão ao sexo humano: passar a mão na piroca do bofe, não fica bem, lamber um tomate, isso pode ser, beliscar a bunda da mina, melhor mais tarde, morder a couve – o que pode haver de errado nisso? Você tem fome de quê? Você tem sede de quê? Você tem sanha de quê? Não é o que você faz com o seu cotovelo, diz o Mestre Repressivo, mas onde você arrasta teu grelho, já que repressão é produção. A história do alistamento das partículas microsexuais tem suas nódoas: há as mulheres postas em nicab – as mulheres são sexo – e os guaranis nus – em nós tudo cara. Um discurso contra a transformação do sexo não-humano em sexo humano é um discurso de emancipação: da emancipação dos corpúsculos eróticos. Deleuze e Guattari, claro, tem um slogan pronto para o projeto de emancipação: à chacun ses sexes. Poderia ser também: retome suas fissuras, solte suas feras, libere suas voragens. Ou ainda: delírios, vocês não tem nada a perder senão seus grilhões. É que a máquina antropológica aqui faz um pacto com o capeta das voragens para que a humanidade possa constituir uma filiação. Sim, os desejos são centrífugos, são dia-bólicos, descentralizadores, mas... a filiação precisa dela. Viveiros de Castro chama isso de aliança demoníaca. É como a piada do meu irmão que pensa que é uma galinha: eu preciso dos ovos.
Pensar nos infinitesimais do desejo é uma estratégia que tem uma longa história. Leibniz falava dos pequenos deslocamentos que se produziam antes de qualquer acontecimento. Uma tectônica. Estas micropopulações abrem virtualidades – plêiades de possibilidades para alguma outra coisa acontecer. Teu pequeno desejo por um tomate, tua pequena ânsia por uma banana, por um mergulho, por uma textura, por um cheiro. De onde vêm? De toda parte. É o vento quente que é amante – dizia Sappho. De que armário você precisa então sair? Bissexual? Trissexual? Transexual? Pansexual? Dendrosexual? Hidrossexual? Pirosexual? Aerosexual? Geosexual? Os desejos – microscópicos e com a duração de um triz – podem ser regulares – ao meio-dia sempre tenho a fissura de lamber folhas amarelas – porém não seguem ordens, nem da natureza. E não têm regras. O nosso reconhecimento dele – quando nós os interpelamos e eles viram a cara – é que satisfaz regras. É que a polícia delega a cada sujeito os porretes, algemas e sirenes para sujeitar seus desejos. Ao invés de sujeito aos desejos os sujeitos ficam sujeitos dos desejos. Mas o desejo escapa. Errância. Como sair do armário e levar consigo as pequenas fissuras enclausuradas para que elas construam alguma outra macrossexualidade? Para sair do armário, é preciso encontrar a etiologia desses delírios longe da família, longe do sexo humano – talvez longe de tudo menos daquilo que eles são: vontades de espalhamento. Voragens são vertigens – vertigens se cura, mas elas merecem um cuidado: não existe desejo seguro, não existe desejo que dispensa cuidado – sine cura. Tudo é curável, mas tudo é contagioso. Ninguém aprende a ser gay – ou hijra, ou goiabinha, ou pansexual – mas ninguém nasce sabendo. Há que se contar com os fluxos que passam por nós, eles são delírios e não batem continência para as legiões enfileiradas, as famílias respeitadas ou para os baluartes da sanidade.
A cada um seus sexos. De que armário você quer então sair? Homossexual? Polisexual? Metrosexual? Cibersexual? Subsexual? Dendrosexual? Hidrossexual? Pirosexual? Aerosexual? Geosexual? Annie Sprinkle and Elizabeth Stephens são ativistas da ecossexualidade. Elas trepam com aquilo que o Greenpeace quer que seja deixado em paz. Elas têm orgasmos com os elementos. Trepam nas árvores para trepar com elas e ensinam a gozar com gravetos, com correntezas do rio, com ventos súbitos, com mudanças de temperatura. Elas estão a serviço dos microtons sexuais. Sim, e a serviço da Pachamama, que elas não querem mãe, elas querem amante. Pega a pachamama, trisca na pele dela, roça a pachamama – a pachamama é feita de chão e feita de lagarto roçando em jaguar roçando em condor roçando em tartaruga. É amante e é deusa, deusa do roça-roça. Annie e Elizabeth são teosexuais. Devotas. Hereges. Elas fazem rituais que são orgias e insinuam que o sexo humano perdeu o contato com os elementos – virou uma clausura, um amontoado incestuoso: uma família. Perdemos o aberto, perdemos o sexo do início – das luzes e das trevas – do meio – do vento batendo no vão entre os dedos do pé e perdemos a pujança de colher os delírios no campo. Exorcizar o sexo não-humano foi também criar o trabalho, aquilo que é coisa tão humana a fazer com a natureza. Marx entendia que ver o sexo não-humano e a produção natural ia nos unir a um corpo inorgânico comum. Ecologia, ecologia queer. Catriona Mortimer-Sandilands escreve em favor de uma retomada das potências dos elementos em erotizar e em politizar a vida sexual das pessoas. O delírio com o não-humano é uma força política, uma força perturbadora da matriz cis-heterossexual já que coloca as partículas microsexuais para se acoplarem com outros corpos, com outras temperaturas, com outras formas. É como se ela apostasse: vá ao mato e teus desejos vão se embaralhar. Mas rale nos galhos tortos, mergulhe pelas cachoeiras sem pensar que as pedras têm as formas das tetas das mulheres, dos dorsos dos homens ou a temperatura da tua família: elas têm texturas de pedras. São outras. Outras.

O dispositivo de instaurar o sexo humano instaura o trabalho. Máquina antropológica. E o trabalho da manutenção dos corpos: comer. Não trepamos mais com as folhas, com a couve, com o tomate, mas digerimos estas carnes para nos manter. Mas a comida é quase uma torneira aberta para os fluxos microssexuais dos bastidores dos desejos sexuais – na comida eles ficam largados ao léu. Mesmo pensando na banana como uma trosoba, na uva como uma xana, há mais ali, há umas texturas indisciplinadas, uns cheiros não-alinhados. E elas atiçam. Elas têm uma sanha. Mesmo devoradas. Um fio solto no tear da máquina antropológica sexual: a comida, que precisa ser comida, conta com uns fragmentos de sexo não-humano. Ela é devoradora. La grande bouffe. Apenas algumas partículas dos elementos soltos, mas elas atordoam.

sabato 22 settembre 2012

à estação que chega

21 de setembro
Quando começava o encontro do curso de Manoel de Barros
e falávamos do guarda-chuva de D. H. Lawrence, de buca l´ombrello e do caos
Choveu.
Li poemas entre pulinhos, querendo pronunciar coisas sem nome.
Que saiba o blog e o mundo que chegou uma estação naquela hora.

Que ela me ajude a construir uma casa azul para cada entrelinha
e uma sarjeta pra acalentar as rimas ricas.

* Em Brasília a primeira chuva da primavera é um Rosh Hashanah, uma viragem, uma mudança de era.

Siga as ordens (Antler)

Esta tradução que fiz de Follow Orders de Antler, que eu pretendia usar na sessão de
hoje do curso sobre Manuel de Barros mas esqueci em um flash miniatura, foi usada na abertura de Desmonte a Carroceria e Fabrique a Primavera há algumas primaveras. Hoje a primavera chegou em grande estilo em Brasília (veja próxima postagem).

Arraste o arco-íris para o interrogatório.
Use chave de fendas nas núvens, se for necessário.
Prenda o vento por não ter destino certo.
Leve um lago para o quartel-general por protelar coisas importantes.
Condene a 30 anos de trabalhos forçados.
as flores que têm pétalas que tremem.
Transforme florestas tropicais em desertos.
Ponha desertos atrás das grades porque os poetas podem ver o mundo em um grão de areia.
Acuse as dunas de areia de se espalharem por toda parte.
Acuse os montes de neve de derreterem por toda parte.
Ordene que os pássaros se calem e ouçam a sua canção.
Investigue os flocos de neve até que eles se desfaçam em lágrimas.
Acuse uma banana de ser um banana.
Acuse um abacaxi de ser um abacaxi.
Acuse um pepino de ser pepino.
Reviste as mangas rosas por parecerem suspeitas.
Amordace os gafanhotos.
Arranque fora todo milímetro de solo.
que se recuse a ser coberto de asfalto.
Faça o rio São Francisco testemunhar contra o rio Amazonas.
Processe os processos naturais por serem indisciplinados.
Multe os raios e trovões por se estabelecerem sem licensa.
Multe a vista do alto dos arranha-céus por fazer as pessoas parecerem formigas.
Adverta os flamboiants que parem de chamar atenção.
Acuse as florestas cheias de folhas de esconderem drogas.
Amordace os elefantes porque eles bolinam seus narizes.
Faça um urso jurar sobre a Bíblia para far testemunho.
Bana a banana porque ela te lembra alguma coisa...
Substitua todas os reflexos da lua por lâmpadas de 100 watts
Abata o abacate, culpe o cupuaçu,
azucrine a azeitona, inquira o quiabo.
Ordene que o espaço entre as estrelas e o espaço entre as moléculas troquem de lugar.
Obrigue tartarugas a andar com placas rodoviárias.
Force os girassóis a pagarem sua conta de luz.
ou o sol será desconectado.
Obrigue os cavalos a fazerem cavalos-de-pau.
Mande que artifício e orifício sejam invertidos.
Ordene que os poemas fechem as portas e mudem para o nordeste
onde as palavras trabalham pela metade do que elas são pagas aqui.
Mostre o dedo para o vento porque ele é fresco.
Gesticule pelas florestas como você fez muito mais dinheiro do que todas as árvores.
Exiba para as montanhas que você ganhou mais que todas na bolsa de valores.
Diga à morte que você vai prender a sua respiração até que seu desejo seja atendido.
Sentencie as sombras das árvores a pena de morte por terem seduzido milhões de jovens.
Torture o oceano até que ele fale.
Faça miniatura das grandes árvores, domestique flores selvagens,
cubra-as todas de plástico, ponha os botões sobre fios de cobre.
Compre a água, compre a terra, compre o céu.
Venda a água, venda a terra, venda o céu.
Bata na noite porque ela é negra.
Cuspa no sol porque ele é amarelo.
Massacre o alvorecer porque ele é vermelho.
Faça gráficos sobre quantas formigas você consegue matar.
Faça emboscadas para as cachoeiras e mutile elas até que ninguém as reconheça.
Assassine o último beija-flor no seu tempo livre.
Contrate jagunços para aniquilar golfinhos e leões marinhos
enquanto você limpa as suas unhas.
Entre na sua limosine de muitos metros
jogue mil dólares
e grite ao motorista:
"Próximo universo, por favor."

venerdì 21 settembre 2012

Naturezinha tal como vai pra Darcynha

Bastaria à natureza um javali devorado por um leão?

Sim:

A natureza é grandona, balocha, pesada
Na verdade é uma massaroca melada
Cheia de lama, barro, areia e carrapixo
Não sabe o que fazer com o que a gente joga no lixo
Boba, gorda, chata – deixa tudo encharcado
Só tem lago, grama, nunca faz desenho animado


A natureza faz a gente passar calor
Morde, pica, arranha e faz murchar a pobre flor
Deixa que eu sue, que o sol me queime
Produz cigarra, grilo, mas nem um videogame
De repente bate um vento e me deixa com ranho
E todo dia me suja e eu tenho que tomar banho


Não:

A natureza é mansinha e é toda colorida
Faz meu gato ronronar, o cachorro dar lambida
Faz pitanga, manga, uva e banana
E quando está quente faz um vento que me abana
Faz ondinhas no mar e florzinhas no campo
E enche as noites de vagalume e pirilampo

A natureza faz praia e cachoeira
Parece que nunca perde tempo com besteira
Inventa sempre um bichinho bem divertido
E quando tá tudo em silêncio manda um zumbido
Faz grama, lama e galho pra brincar de pique
Moita pra se esconder, sombra pra piquenique

Esta versão infantil do "Bastaria à naturez um Javali devorado na África" sai na revista Darcy para crianças.