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domenica 23 dicembre 2018

Notas para o futuro coletivo (23/12/18)

Quando tudo isto acabar, anotem, vamos ter que reinventar os tribunais de justiça.
Vamos ter que abolir a perseguição política
nos julgamentos, abolir o viés contra Lula, contra Marielle,
contra a classe-cor-tipo-força de Lula, de Marielle.
Quando tudo isso acabar, vamos ter que reinventar as campanhas políticas.
Vamos ter que tirá-las das telas das máquinas,
e colocá-las no motor das ferramentas, nas madrugadas de quem acorda cedo,
nas águas limpas, nas massas cinzentas entocadas
- vamos ter que abolir a propaganda, também de pipoca,
de sabão-em-pó, de seriados, da loja de roupa.
Vamos ter que acabar com o apelo, com a demanda,
com o pedido mesmo. Que cada decisão seja feita,
sem que as alternativas sejam apresentadas,
ou anunciadas, ou listadas mesmo.
Atender a um apelo é um enorme risco
de distorção, de manipulação, de falsa informação.
Quando tudo isso acabar, vamos ter que destituir a corrupção,
fechar as frestas por onde passam propinas,
passa a comissão mais rápida que o jato, que a luz, que o fisco,
impedir que a lavagem de dinheiro se atravesse nas transações,
tornar ilegal a propriedade privada de terras, máquinas e bolsos,
e também de sacolas, contas bancárias e bolsas.
Vamos ter que abolir as cercas.

Quando tudo isto acabar,
quando for o tempo de sobreviver à guerra,
sem ter que se preparar para a próxima guerra.



sabato 1 dicembre 2018

Sr. N.


Há anos, sempre há anos:

Eu preciso te contar uma coisa. Há meses que estou tentando encontrar a melhor maneira de te falar, e já desisti – nao há melhor maneira, todas as maneiras são as piores. De toda maneira o que eu vou te contar vai fazer você se sentir desprezível, talvez até inútil. Você vai sentir muita raiva e depois vai se sentir impotente, frágil. E durante todo este turbilhão de agonias eu imagino que você vai se sentir enganada. Mas eu não posso mais esperar. Eu preciso falar agora. Eu quero que você entenda, mas sei que isto vai demorar muito, que nao se trata de falta de amor. Há muito amor, e ainda assim...

Quero te falar do sr. N, astuto, sutil, feito de pequenas entregas em direção a precipícios, fundos e enfeitados. Senhor, eu digo, já que ele é anfitrião. Mas não é senhor de barba, nem de bigode, nem é careca, ainda que muitos tentem agarrar-lhe pelos cabelos quando ele escorrega e escapa. Não é senhor. Nem é bicho, nem é senhora, nem é um objeto. Nem é nada não, mas também não é coisa alguma. O sr. N talvez nem exista completamente, ele paira. Feito de subsistências minuciosas, deslizes, e coberto inteiro com a textura dos lábios – afiados, escorregados – e com mordida. N é ambulante, andarilho, sereno. Não paira como os ventos demorados e nem como as núvens quando a chuva está se armando, não, nem como uma doutrina ou uma religião as avessas, não. Como paira? Eu não sei, nunca soube. Mas ele tem uma mescla de indiferença e atenção para com todas as pessoas que lhe visitam, e algumas ficam anos em suas dependências. Anos, e vão se tornando frágeis ainda que tenham nos músculos a força para carregar pianos – esquálidos, eles ficam. Com os desejos abatidos. Ralos. Um leite largado do pote.

N abriga. Seus hóspedes passam a viver na provisoriedade. Mesmo os apetrechos mais robustos das vidas mais consolidadas vão parecendo precárias; o que há mesmo fica parecendo sem propósito e, computadas todas as estatísticas do que há por aí, prescindível. O sr. N nos faz sentir dispensáveis e dispensável quase tudo o que fazemos – a não ser, é claro, persistir para continuar sendo dispensável. Eu digo nós porque também eu sou hóspede. Também eu passo na sua mansão, que é gigante, muitas tardes, muitas noites, muitas madrugadas. Eu senti instantaneamente seu poder sobre mim, mas pensei que conseguiria contê-lo, transformá-lo, torná-lo ameno, aliado. Mas eu me enganei. Todos nós nos enganamos. Fomos nos tornando cobaias dos desatinos dele. Porque não sabíamos e não sabemos ainda onde reside a força. Talvez seja essa sua forma de se fazer ausente, de se mostrar indiferente, e ao mesmo tempo tão aprazivel e sedutor. Notei que já não poderia resistir aos seus monstruosos encantos há algum tempo, quando vi meus projetos de vida escorrendo pela chuvarada, mergulhando nos bueiros da cidade molhada. Me senti desprotegido, e como criança que ve nos braços do agressor seu próprio consolo, recorri a ele para me reencontrar. Quase não sobrou nada daquele homem que conhecestes. O homem que acreditava nas coisas que via ou que sonhava. Eu fui ficando mais pobre, mais obediente, mas não conseguia dizer nada, porque ninguém nunca perguntava. Nunca notava nada, e até gostavam das minhas mudanças. Meu abatimento se tornou jardim de inverno para os conhecidos, onde passeavam quando se entendiavam. Primeiro eu odiava sua ignorancia, seu descaso, depois notei que eu próprio estava distanciado demais pra poder lutar pelo que quer que fosse. Sr N me conduzia a uma vida apagada, tirava minha energia enquanto me acariciava. Me deu algum prazer, isso é verdade, comi os mais deliciosos pratos em suas nádegas. Me senti bonito e desejado, coisa que você nunca desconfiou que eu gostasse. Me pegou no colo como se pega bezerro, passeou comigo por lugares inviáveis com total coragem e sempre respeitado. Foi aos poucos que notei que ele assumiu meu desejo, pelo jeito que me mandava. Ficava esperando as ordens dele. Os gostos dele. O olhar severo ou cheio de cumplicidade. Sr N me dava instruções suficientes para te manter calada. Nada me importunava quando estava sob suas ordens, também nada me atraía. Minha fraqueza foi se tornando normalidade. Minha maldade foi ficando ingenua. Minhas perversoes se tornaram amenas, simplórias. Toda minha raiva contra o mundo virava piada em sua boca e me encabulava. De modo que fui aprendendo também ironia e sarcasmo, sem mover um dedo ou piscar os olhos. Me tornei um cão de guarda fiel aos desejos dele. Tudo o que eu amava ficou em segundo plano, minha casa, meu talento, minha sensualidade. Sr N fez bem pra minha saúde por um tempo, parei com as noitadas, com as traições, com as jogatinas, mas junto com isso foram acrescentados outros vicios.

Tudo em mim ficou passageiro, temporário, acidental. Tudo em N ficava com este odor raro que é fétido, que é decomposto, que é calamidade e é tentação. Tinha uma textura de obviedade, mas apenas do óbvio inescapável, aquilo que não só fica ululando mas também nos pega pelas garras, nos deixa ao léu das paredes sem porta. Uma hipnose subcutânea e também um queijo, um aroma que dilui as resistências. Um gruyère, flácido, tênue e cheio de cheiro; um cogumelo de latrina. N prende seus hóspedes pelas tripas, pelo tubo digestivo. E eu me sentia amarrada porque os anjos que haviam em toda parte morreram e o céu, que sempre foi distante, virou um cemitério distante. Pensei até que N fosse uma espécie de Deus, impávido, ausente e omnipresente. Não era. Era talvez o estalajadeiro de um castelo que foi feito com intenções sublimes e fraudulentas. Mas N não era só o burocrata, era também o arquivo, o molho de chaves, o balcão. Quando foi que eu comecei a deplorar minhas vísceras? Como eu disse, foi uma coisa lentíssima, um engano cheio de atrasos. Primeiro eu me enchi de esperanças – achava que ia fazer de N o que eu fazia com meus desejos, ele seria mais um, ainda que tardio. Nada. Passei nesta época a ficar fervoroso: já não me importava meus desejos, era meu hóspede que, eu tinha esperança, ia ainda, não sei, sentar na minha mesa como um companheiro, sabe? Uma vez conversei com uma mulher meio gorda no trem, falei de N. Ela disse: ah, N! Mas você não está tratando ele como um pai ausente? Sim, de fato parecia. Mas não era só isso, era também um vazamento no meio de todas as coisas. Ou era a mesma coisa?

Pensando bem, raras vezes pensei que existisse de verdade. Na maioria das vezes que estive em sua presença tratei-o com a solenidade com que os espíritas tratam seus espíritos mortos, como uma visita especial, fantasmagórica. Aprendia tanto sobre a vida, sobre o sofrimento, sobre as coisas que importavam, ou pareciam importar. A semente se rompendo, a folha secando, o barulho longinquo vagamente escutado. O barulho do mundo. Isso que aprendi com N., a escutar o mundo. Talvez não houvesse nada por trás dos barulhos. Os sons mais inapreensíveis, aqueles estrondosos que dão medo. Aqueles sem sentido. Meus ouvidos cresceram, e com eles, minha paralizia. Nada poderia fazer para interferir num mundo, digamos assim, tão indiferente. Reconheci minha profunda inutilidade. Qualquer gesto meu seria gesto demais. E foi por ódio aos gestos que passei odiar tudo o que se movimentava que não fosse som ou luz ou N. E pouco a pouco, tudo vinha com N.

Uma experiencia de natureza perfeita se torna de repente seu revés. Como quando te atiras na água abundante e te deparas com uma raia, uma pedra aguda, um corte exagerado na intenção sublime. Minha imobilidade virou servidão passional, um estado de morte premente, uma vontade de morte. E foi só aos poucos que me dei conta que já matava. No inicio pensava que eram pesadelos, dado as incessantes bebidas e ervas. Depois fui descobrindo esse imenso prazer em colaborar com a natureza, me tornando zumbi. Nem havia muito o que colaborar, eu era coisa pequena, vivia de ser coisa pequena. Baratas, gente, o que fosse. Reconhecia como desejo próprio todo esse episódio de apequenamento. É que nada trazia alguma surpresa na mansão de N., onde o viço fanava, a natureza ficava bonsai. Perfeita e frágil. Eu queria sumir, você sabe? Eu queria esvanecer. Talvez para ser visto, mas talvez apenas para me fundir com o objeto do meu desejo. Queria que também minha seiva escorresse, nem como sacrifício a um deus indolente, mas como uma perda de mim. Nossas paredes, nossas portas, nossos objetos, todos eles pareciam rabiscados enquanto esperamos que a obra completa chegue. Passei a esperar demais. E já nem sabia mais o que esperar. O que seria a obra acabada? Já não importava, eu me acostumara às coisas vazadas. Tudo tinha vazamento. Mas eu via tudo do lado de fora, de uma janela do quarto andar da mansão de N.

Não pense que eu passei a ficar deprimido, cabisbaixo ou mesmo dado a estados de melancolia. Não. Continuei tendo meus súbitos de alegria e até mesmo de euforia. Mas eles vinham em arremedos. Vinham sem massa, sem carne. Eu perdi, eu perdi minha força. O mundo de um homem sem força é diferente do mundo de um homem que habita em si mesmo – mas não é fácil ver a diferença, e eu mesmo demorei para perceber que as coisas se transformaram. Demorei para que tudo isso assentasse em minhas veias, no espaço entre meus músculos. Espera um pouco que eu vou no banheiro.

Mas você não parece abatida, e nem mais frágil, nem com raiva. Você não está se sentindo enganada?